A colaboração necessária para salvar vidas em uma pandemia

Cristina Pinotti

O enfrentamento ao novo coronavírus exige de

governos escolhas nunca cogitadas em tempos de paz

O mundo, que

caminhava para o unilateralismo fratricida do “Me First” (“Eu primeiro”), viu

certezas e arrogâncias desmoronarem diante da pandemia da covid-19. Acordou

para o fato de que estamos todos no mesmo barco: o que acontece com o meu

vizinho, seja ele um país ou um morador próximo, me afeta, e vice-versa,

escancarando a premência de cooperação entre pessoas e países.

Dentre os

efeitos da eclosão do novo coronavírus está o estouro de uma bolha financeira,

presente com maior evidência nos mercados de ações, mas também em alguns

mercados de crédito, afetando empresas mundialmente. Como se não bastasse, a

Arábia Saudita e a Rússia deflagraram uma queda de braço sobre o preço do

petróleo, provocando volatilidade e queda de 50% no preço de uma matéria-prima

crucial, arrastando para a crise empresas do setor ao redor do mundo.

Os efeitos da

sobreposição de crises podem ser vistos no comportamento de qualquer indicador

de desempenho do mercado financeiro doméstico e internacional, no valor das

moedas, na magnitude da reação fiscal e monetária dos governos, ou nas

estimativas da profundidade da recessão que se aproxima. Este parece ser o

episódio mais desafiador que o mundo enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial,

colocando em risco enorme número de vidas humanas e o funcionamento das

economias.

Já vivemos

vários estouros de bolhas que provocaram crises financeiras, e embora cada uma

tenha particularidades, os bancos centrais e Tesouros aprenderam como minimizar

seus efeitos sobre a economia. É o que estão fazendo no caso atual, em doses

extraordinárias. Entretanto, o enfrentamento da pandemia coloca aos governos

escolhas nunca cogitadas em tempos de paz, que geram efeitos imediatos e

inusitados sobre as vidas das pessoas e das empresas, como o fechamento de

fronteiras, escolas, lojas, hotéis, entre outros, além de submeter populações

inteiras a regimes estritos de quarentena para reduzir o contágio. Será que

tudo isso é mesmo necessário?

Para começar,

é preciso admitir que somos todos aprendizes, assustados com o tamanho da

tragédia e da vulnerabilidade humana, tentando contribuir na montagem de um

quebra-cabeça cujas peças estão espalhadas pelo mundo todo. Contamos com lições

de episódios passados, com o conhecimento acumulado pelos infectologistas e

epidemiologistas, e com as informações cotidianas sobre o que está acontecendo

nos países onde a doença começou antes. Sobre o presente, o maior desafio é

buscar padrões médios de comportamento do vírus, das pessoas, das ações dos

governos, com o objetivo de não repetir erros. Tarefa sempre arriscada dada a

velocidade dos acontecimentos, mas alguns números ajudam a tomada de decisões.

Com base no

que ocorreu na China, especialistas estimam que o novo coronavírus tenha uma

taxa média inicial de contágio (R0) de aproximadamente 2,5, o que significa que

mantidas as condições iniciais, cada pessoa causa contágio de 24 pessoas em

três “turnos” de contágio, 161 em cinco “turnos” de contágio, e assim

sucessivamente (veja o gráfico abaixo para exemplo de R0=2).

Gráfico ilustra como se propaga um vírus com número básico de reprodução igual a 2, ou seja, quando cada pessoa infectada contamina duas outras

A taxa de

contágio varia ao longo do tempo de acordo com o grau de imunização da

população, que, para um vírus novo, é nulo no início, e com as condições de

contágio, aumenta com infectados presentes em aglomerações e ambientes

fechados, e diminui com o isolamento das pessoas. A epidemia termina quando a

taxa de contágio fica menor do que 1, o que pode ocorrer pelo efeito de

vacinação, gerando o que é conhecido como a “imunidade de rebanho”, ou pelo

atingimento da “imunidade natural”, que vem da difusão livre do vírus na

população.

A vacina

contra o novo coronavírus tende a demorar pela necessidade de testes prévios, e

alguns são tentados a adotar medidas brandas de mitigação da epidemia esperando

que o tempo leve à “imunidade natural” da população. O argumento, quase sempre,

está ligado aos custos econômicos de medidas mais drásticas. Foi o que tentou,

no início, Boris Johnson, no Reino Unido, seguido por Donald Trump, nos EUA.

Entretanto, diante da rapidez do surto sem as medidas de contenção, ambos mudaram.

Admitindo que a taxa inicial de contágio permaneça em torno de 2,5, a epidemia

será interrompida quando perto de 60% da população estiver imunizada.

Mas, por ser

uma curva de expansão não-linear, se a taxa subir para 3,0, por exemplo,

torna-se necessário que 70% da população esteja imunizada para cessar o

contágio. É certo, entretanto, que esta estratégia de mitigação gera um

crescimento muito rápido do número de casos, produzindo uma curva com um pico

alto, em que os casos graves sobrecarregam, ou esgotam, a capacidade dos

sistemas de saúde. Com isso, pioram as condições de contágio, tornando incerta

a inflexão da curva de crescimento de casos, produzindo um número de mortes

maior do que ocorreria se todos pudessem ter um tratamento adequado.

gráfico mostra curvas de números de infecções pelo coronavírus com e sem medidas de proteção

Já medidas de contenção do

contágio pelo distanciamento social (lockdown) aplainam a curva de contágio,

aumentando as chances de que o sistema de saúde funcione, reduzindo o número de

mortes. O caso dos Estados Unidos durante a epidemia da gripe espanhola, em

1918/19, ilustra que também a rapidez na adoção das medidas é crucial para

salvar vidas.

A Filadélfia esperou duas

semanas a partir do primeiro caso da gripe para adotá-las, enquanto St. Louis o

fez depois de dois dias após o primeiro caso. Na primeira cidade ocorreu o pico

de contágio e 16 mil pessoas morreram. Na segunda, com

a curva achatada,

morreram cerca de 700 pessoas. O Influenza A, que gerou aquela epidemia, tem

letalidade maior que a covid-19, e o exemplo é utilizado aqui apenas para

mostrar o perfil das curvas e salientar a importância da rapidez na adoção das

ações de contenção.

Para que a estratégia de

contenção funcione em regimes democráticos é crucial a adesão da população, que

precisa ser bem informada com base em fatos. Entretanto, enquanto não for atingida

a imunidade natural na população, ou seja, enquanto entre 60% a 70% das pessoas

não estiverem imunes ao novo vírus, novos surtos podem surgir quando as

restrições forem abrandadas. Uma possível solução para esse problema pode

repousar na utilização extensiva de testes, tanto para identificar infectados e

isolá-los no momento de levantamento parcial de quarentenas, como para

identificar quem já adquiriu imunidade e pode, eventualmente, voltar a

trabalhar. Paralelamente, espera-se que o surgimento de remédios que reduzam o

tempo de internação dos pacientes graves facilite o manejo da epidemia.

O desencanto com a

distribuição desigual dos frutos do desenvolvimento econômico que acompanhou a

crise de 2008 levou ao poder vários populistas com tendências nacionalistas nos

Estados Unidos, Inglaterra, Hungria, Polônia, Itália, Turquia, Brasil. A crise

atual vem desmascarando a pequenez da visão “Me First” e o despreparo dos seus

defensores quando se defrontam com problemas reais e complexos. São grandes as

chances de sairmos da crise atual com anticorpos não só contra o novo

coronavírus mas também contra políticos populistas.

Colaborou Lucas Gomes com os gráficos.

Fonte: Nexo

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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