A dualidade do câmbio

Affonso Pastore

Desde

1906, quando Einstein explicou o fenômeno fotoelétrico, aprendemos que a luz é

uma partícula – o fóton -, mas não estaríamos errados se a interpretássemos

como uma onda. Havia o que o ganhador do Prêmio Nobel de Física 1926, Louis De

Broglie, definiu como “dualidade onda-partícula”: a luz é uma partícula, mas se

comporta como onda. Algo parecido ocorre com o câmbio. Para os industriais, o

conceito relevante de câmbio é o que melhor se aproxime de um indicador de

competitividade nas exportações e, por isso, olham para o câmbio real, que é um

“preço relativo” entre bens domésticos e internacionais. Mas para os

investidores em ativos financeiros, o que interessa é o câmbio nominal, que é

tão ou mais volátil do que o preço de uma ação, reagindo a mudanças de risco e

às expectativas. Há no câmbio uma dualidade: taxa cambial pode ser, ao mesmo

tempo, um preço relativo e um preço de um ativo financeiro, o que levou o

professor Kenneth Rogoff a classificá-la como “um preço esquizofrênico”.

Por

que, independentemente das repetidas “apostas” de alguns, o real não se

valoriza? A resposta exige que olhemos primeiro para o câmbio real. Entre 2003

e 2012, os preços de commodities subiram continuamente provocando sensíveis

ganhos de relações de troca o que, tudo o mais permanecendo constante, elevava

as exportações, reduzia as importações e valorizava o câmbio real. Para os

investidores não residentes, havia sempre um ganho em ativos financeiros.

Ganhavam no diferencial de taxas de juros entre o Brasil e os EUA, que naqueles

anos eram muito elevados, e ganhavam na valorização cambial. Como entre 2003 e

2012, com uma pequena interrupção na crise de 2008/09, o Brasil ainda crescia,

as expectativas eram de lucros elevados nas empresas, o que aumentava a demanda

por ações elevando as suas cotações. Os não residentes que investissem na B3

ganhavam duas vezes: na valorização das ações e na apreciação do real.

Mas

este quadro se inverteu. O crescimento da China caiu, e desde 2012 os preços de

commodities mantêm uma tendência de queda, o que frustrou os economistas de

nossa esquerda heterodoxa que acreditavam que sofríamos uma “doença holandesa”.

Ao mesmo tempo, o País tem registrado déficits em contas correntes que levam ao

aumento do nosso passivo externo líquido. Estas são as duas forças que explicam

o comportamento do câmbio real, que tende a se depreciar.

O fim

do ciclo de valorização do câmbio real pôs a nu uma característica até então

escondida de nossa moeda – a sua volatilidade. Commodity currencies, como são o

dólar australiano e o real, são moedas inerentemente voláteis. Quando o real se

valorizava devido aos ganhos de preços de commodities, nenhum investidor

prestava atenção a esta característica de nossa moeda. Para eles havia uma

aposta em uma única direção – o real podia ser volátil, mas sempre se

valorizava, eliminando o risco de câmbio. Quando a queda do crescimento da

China nos curou da suposta doença holandesa, o “seguro” vindo da valorização do

câmbio real sumiu. Por isso, começamos a assistir a saídas de capitais nos

investimentos em carteira, quer em ativos de renda fixa quer em ações.

Kahneman

e Tversky nos ensinaram que temos de tomar cuidado com as extrapolações do

passado, corrigindo todos os possíveis erros. Por isso, recomendam que não se

façam extrapolações mecanicamente. Havia um “antigo normal” na economia

brasileira, que era a tendência à continua valorização do câmbio real, e que

existia ao lado de um elevado diferencial de taxa de juros e de perspectivas

razoáveis de crescimento. Era um quadro propício a que os ingressos de capitais

acentuassem a valorização cambial. Mas o mundo mudou. Entre 2003 e 2007, o PIB

mundial cresceu 5,1% ao ano em média, e as projeções mais recentes são de que

deverá crescer apenas um pouco acima de 3%. Nas projeções do FMI, a China, cujo

comportamento é fundamental na determinação dos preços de commodities, deverá

crescer abaixo de 6%. Com isso, a perspectiva é de continuidade de queda dos

preços de commodities, pintando um quadro de continuidade de perda de relações

de troca. Simultaneamente, a recuperação brasileira, ainda que lenta, tem

elevado as importações, e diante do baixo crescimento das exportações deveremos

ter déficits mais elevados nas contas correntes, aumentando o passivo externo.

Se estas duas forças não forem suficientes para depreciar ainda mais o câmbio real, pelo menos impedem a sua apreciação.

Fonte: Estado de SP

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Ouvir conteúdo

0 palavras · ~1 min de leitura

Publicações Recentes

Avanço do crime na economia formal nos leva para a várzea, onde não sabemos jogar, diz ex-presidente da Febraban

CDPP
·

Perigos, externos e internos

Giuliano Guandalini
·

Questão de impeachment de ministro do Supremo é pertinente nos casos Toffoli e Moraes, diz Giannetti

Giuliano Guandalini
·

'Brasil crescer 2,3% com juro a 15% é surpreendente', avalia Giannetti

Giuliano Guandalini
·
Podcast

Podcast do CDPP