A importância do grau de investimento

Henrique Meirelles

Política fiscal mais rigorosa ajudaria na queda dos juros, na alta do PIB e no controle da dívida pública, um quadro que levaria o País a recuperar o grau de investimento

Estadão

O Brasil recebeu cerca de R$ 21 bilhões em investimento estrangeiro este mês no mercado acionário (em valores de sexta-feira, dia 30, enquanto escrevo este texto). Os efeitos são a significativa valorização do índice da B3 e a valorização do real em relação ao dólar. Trata-se de um movimento internacional, pelo qual investidores têm preferido direcionar recursos para países emergentes em vez de aplicar nos Estados Unidos.

Esse fenômeno poderia ser maior e mais frequente se fossem feitos ajustes na política fiscal e o Brasil recuperasse a classificação de país com grau de investimento.

O Brasil é um destino óbvio quando investidores buscam diversificação em mercados emergentes. Não tem problemas graves como conflitos internos ou externos, tem grande mercado consumidor, juros altos para os padrões internacionais e um câmbio desvalorizado, que torna as ações das empresas relativamente baratas.

O que falta ao Brasil para aproveitar mais essa maré favorável de dinheiro novo é o grau de investimento. O país teve esse selo, dado pelas agências de risco internacionais, entre 2008 e 2015. Perdeu a condição por uma política de aceleração do gasto público, que levou ao desequilíbrio nas suas contas.

Atualmente, o Brasil está a dois degraus do grau de investimento pelos critérios de duas agências (Fitch e Standard & Poor’s) e a um em outra (Moody’s). Se ainda fosse um país com investment grade, receberia um aporte maior, pois a condição é exigência de muitos grandes fundos para alocar recursos.

Retomar o grau de investimento exige mudanças. A principal é um ajuste nas contas públicas, com uma política consistente de redução das despesas, capaz de levar à mudança na trajetória de crescimento da dívida pública. A dívida está em 79% do PIB, nível considerado alto para um país emergente como o Brasil.

Não ajuda também a prática do governo e do Congresso de excluírem despesas dos limites estabelecidos pelo arcabouço fiscal. Serão R$ 170 bilhões entre 2025 e 2026. A mensagem para a máquina pública e para o mercado é que a regra fiscal não é para valer. E, se a regra não limita o gasto, o efeito direto é o aumento da dívida pública.

Uma política fiscal mais rigorosa ajudaria o País. Possibilitaria a queda dos juros, que levaria a maior crescimento do PIB e controle da dívida pública. Em última instância, poderia levar o País de volta ao grau de investimento e torná-lo mais atrativo aos investidores de forma permanente — não apenas quando há uma turbulência nos Estados Unidos.

Link da publicação: https://www.estadao.com.br/economia/henrique-meirelles/o-que-falta-ao-brasil-para-aproveitar-melhor-a-mare-favoravel-de-investimento-em-paises-emergentes/

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Ouvir conteúdo

0 palavras · ~1 min de leitura

Publicações Recentes

Avanço do crime na economia formal nos leva para a várzea, onde não sabemos jogar, diz ex-presidente da Febraban

CDPP
·

Perigos, externos e internos

Giuliano Guandalini
·

Questão de impeachment de ministro do Supremo é pertinente nos casos Toffoli e Moraes, diz Giannetti

Giuliano Guandalini
·

'Brasil crescer 2,3% com juro a 15% é surpreendente', avalia Giannetti

Giuliano Guandalini
·
Podcast

Podcast do CDPP