A outra revolução no sistema financeiro brasileiro

Ilan Goldfajn

Avanço da tecnologia e inovações democratizam acesso a investimentos, pagamentos e outros serviços financeiros

sistema financeiro brasileiro
Para Ilan Goldfajn, o Brasil e o sistema financeiro estão atravessando duas revoluções simultâneas – Crédito: Apple/Divulgação

O

Brasil e o sistema financeiro estão atravessando duas revoluções

simultâneas. A primeira é o impacto da queda da taxa de juros e as

profundas alterações que gera na economia brasileira. A segunda é a

combinação do uso da tecnologia com a rápida inclusão financeira.

Ao longo dos últimos anos, os avanços da tecnologia e as inovações têm permitido a democratização dos acessos a investimentos, pagamentos, contas, e diversos outros serviços financeiros, o que melhora a experiência do consumidor financeiro e permite atender uma parcela cada vez maior da população.

As chamadas Fintechs – startups financeiras baseadas no uso intenso

de tecnologia – têm atraído a atenção pela sua novidade e agilidade. Mas

os avanços são mais gerais, incluem alterações profundas na maioria das

instituições financeiras já existentes, que têm se reestruturado de

forma bastante eficaz. De fato, este conjunto de mudanças constituem uma

verdadeira revolução no sistema financeiro.

Os reguladores têm

participado. Costumo brincar que meu papel a frente do Banco Central do

Brasil (junho de 2016 a março de 2019) foi “não atrapalhar” o fluxo de

ideias, inovações e empreendedorismo nos últimos anos que tem

caracterizado o sistema financeiro, em particular o de pagamentos.

O

Banco Central (BC) tem se empenhado na modernização do sistema

financeiro. O objetivo tem sido reforçar o ambiente que propicie

inovação, competição e inclusão financeira, sem resguardar da solidez e

robustez do sistema.

Tem sido uma alegria e uma honra acompanhar a

agenda de modernização do sistema financeiro do BC, que continua a

pleno vapor. Diferentemente do difundido, esta agenda não começou na

minha gestão e felizmente não terminou nela.

A criação da Agenda

BC+ (hoje BC#) apenas reorganizou e deu transparência aos esforços de

várias gestões passadas e continua viva numa versão melhorada na atual. A

continuidade dessa agenda mostra que é possível planejar

estrategicamente no Brasil para o longo prazo, onde cada gestor constrói

na base herdada do passado. A agenda é viva e se altera com novas

informações e conhecimento acumulado. São vários projetos que

continuamente estão maturando, enquanto outros se iniciam. Há vários

exemplos.

Ressalto um exemplo particular e relevante. Estamos comemorando o aniversário da publicação da Lei 12.865/2013,

que foi a pedra fundamental do marco regulatório do mercado de meios de

pagamento, e que tem revolucionado a forma como fazemos nossos

pagamentos, com inúmeros entrantes e muita inovação.

A lei definiu

conceitos e princípios com o intuito de promover a inclusão de novas

tecnologias ao longo do tempo, com a ciência da velocidade com que tem

ocorrido as alterações e surgido novidades nesse mercado. Entre os

princípios a serem seguidos foram incluídos:

  • (i) a confiabilidade, qualidade e segurança dos serviços de pagamento;
  • (ii) o acesso não discriminatório aos serviços e às infraestruturas necessários;
  • (iii) a inclusão financeira;
  • e (iv) a intercomunicação entre os diferentes sistemas privados;

A

lei também colocou os participantes do mercado a “luz do sol”, tirando

da sombra. Definiu as instituições de pagamento e instituidor de

pagamento, que deveriam se adequar e seguir diversas exigências

estabelecidas pelo BC.

Muitas vezes os próprios participantes do

mercado desejam e cobram uma regulamentação do BC. Após um período

experimental sem as amarras da regulação excessiva, é desejável um

arcabouço legal e normativo para reduzir incertezas e formalizar o

mercado.

Em suma, a lei representou um importante avanço ao

conferir maior segurança jurídica aos envolvidos, possibilitar inclusão

maior da população e fomentar a inovação e uso da tecnológica.

Ao

longo dos anos foi aperfeiçoando-se o mercado de pagamentos. Um passo

relevante foi dado durante a minha gestão. Ocorreu a liquidação

centralizada em que todos os participantes do mercado deveriam ter as

liquidações das transações desembocando num único lugar. Em razão dos

ganhos de escala, a liquidação centralizada permitira ao longo do tempo

redução dos custos totais com a liquidação as transações. Também, com

essa medida reduz-se os riscos, melhoram as condições de concorrência

entre os participantes, reduzindo barreiras à entrada, e eliminam-se as

ineficiências.

Mas há outros exemplos da agenda do BC. Em pouco

mais de um mês, o PIX estará em vigor, e será possível realizar em até

10 segundos pagamentos e transferências via celular entre todos (e não

somente em alguns arranjos fechados), 24h por dia, sete dias por semana,

inclusive em feriados.

Também em breve entrará em vigor o Sistema

Financeiro Aberto (Open Banking), que permitirá ao cidadão compartilhar

seus dados bancários de forma padronizada e assim obter os mais

eficientes serviços bancários na instituição que lhe oferecer as

melhores condições no momento. O modelo de Open Banking parte da

premissa de que o consumidor financeiro é o titular de seus dados

pessoais.

Os principais objetivos do Banco Central são a

estabilidade monetária (perseguir as metas de inflação) e a estabilidade

financeira (supervisão e fiscalização). Além disso, o BC tem várias

outras atribuições rotineiras, onde atua diariamente na administração da

liquidez do sistema (com operações no mercado junto aos bancos), no

fornecimento de numerário (as notas e moedas) no país e é o guardião das

reservas internacionais, intervindo ocasionalmente no mercado para

manter sua funcionalidade.

Não é pouco. Como não há escassez de

choques e crises, a tentação é se concentrar no curto prazo, no que é

urgente. Mas é necessário achar o tempo também no importante, naquilo

que determinara o bem-estar no longo prazo.

Nesse sentido, a

agenda estrutural busca gerar benefícios sustentáveis, evitando soluções

imediatistas sempre presentes e infelizmente efêmeras. Neste esforço

contínuo de focar no estrutural, para além do emergencial, tem sido

fundamental a excelência do funcionalismo do Banco Central e seu

trabalho ao longo dos anos. E também na receptividade da sociedade que

quer um SF mais moderno, eficiente e inclusivo.

A agenda de modernização do sistema financeiro, incluindo a criação do marco regulatório do sistema de pagamentos com a Lei 12.865/2013, é um exemplo bem-sucedido dessa agenda estrutural. O seu impacto não deve ser minimizado, já que incentiva o empreendedorismo, o investimento e a inovação, e alavanca o crescimento. É a nossa outra revolução em curso no sistema financeiro.

Fonte: JOTA

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

ESCRITO POR

Ilan Goldfajn

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