A renda básica, o teto de gastos e o silêncio das elites

CDPP

Desafio é fazer caber no orçamento de 2021 um programa mais robusto que o Bolsa Família e mais viável em termos fiscais que o auxílio emergencial

por Rogério Jerônimo Barbosa, Ian Prates, Fábio Pereira e Ursula Dias Peres
PIAUÍ

Afresta aberta pelo auxílio

emergencial permitiu que, em meio à maior tragédia sanitária e econômica de

nossa história (e apesar de ideário progressista não ser lá a marca do atual

governo), ideias antigas e movimentos novos encontrassem espaço. E, de repente,

começamos a falar sobre renda básica – uma ironia e uma oportunidade única.

Porém, também de repente, o debate público parece agora não sair do lugar. Se

não faltam boas ideias, por que há tanto “tira-põe-deixa-ficar” de alternativas

e propostas? Por que estamos patinando tanto?

O problema é que as verdadeiras

barreiras não estão sendo efetivamente tratadas.

A experiência brasileira na

implementação de programas de transferência de renda esteve na vanguarda.

Iniciada nos anos 1990 com políticas municipais dispersas, logo se tornou

iniciativa federal. Em 2003, o Bolsa Família unificou um conjunto de programas

sociais pré-existentes sob uma mesma diretriz e uma mesma matriz de informações,

o CadÚnico. Não há qualquer dúvida de que, desde seu nascimento, tenha

percorrido uma bem documentada trajetória virtuosa.

No entanto, o Bolsa Família veio ao

mundo com limites. Anualmente deve

conquistar um espaço na lei orçamentária – e uma vez definido, o número de

beneficiários, a linha de pobreza e a existência ou não de reajustes serão

calibrados, de forma a caber nos limites fiscais. Na prática, o programa

cresceu quando houve crescimento econômico, e perdeu espaço de 2015 a 2019,

enquanto a pobreza aumentava a galope. O orçamento foi cortado sistematicamente

desde então; houve queda acentuada nos valores dos benefícios (por família e

per capita), acompanhada de um declínio do papel ativo do governo no

cadastramento das famílias mais pobres. Porém, o ajuste fiscal foi seletivo.

Nem todas as cabeças precisaram se curvar ao teto baixo, nem todos os pés

ficaram de fora do cobertor curto. Na prática, o montante de gastos não foi

reduzido, o que houve foi apenas uma recomposição de rubricas, na qual a

assistência aos mais pobres saiu em desvantagem.

Quando o coronavírus desembarcou no

Brasil, obrigando-nos a tomar drásticas medidas de desaceleração econômica para

a devida contenção da Covid-19, os mais pobres já acumulavam perdas e desgostos

havia pelo menos cinco anos. Para a base da distribuição de renda, no início

deste ano, a

crise iniciada no segundo trimestre de 2014 não havia passado, embora comitês

de datação a tivessem dado como encerrada em dezembro de 2016. Em janeiro, uma

“fila” de 1,7 milhão de famílias esperava indefinidamente na antessala

do Bolsa Família, embora atendessem a todos os critérios de elegibilidade. Eram

evidentes as consequências dos limites de seu formato. 

Nesse bojo, o auxílio emergencial,

inadvertidamente, foi a pá de cal. O programa formulado às pressas pelo

Congresso logrou de fato proteger os mais pobres, recompondo

inclusive parte das perdas que datavam de muito antes da pandemia. A

população sentiu no bolso a diferença com respeito ao Bolsa Família – e agora,

obviamente, não deseja voltar para a realidade da crise pré-pandêmica. Uma

preferência nada mais do que racional. Elevamos assim o “valor de reserva”

de um benefício de transferência de renda. Sete meses depois da chegada da

Covid-19, a

taxa de desemprego atinge seu máximo histórico (14,4%), e o nível de ocupação

flutua em torno de seu mínimo (estando hoje em 48,7%). E ainda que

determinados estados e municípios declarem que já estão em “zona verde”, fora

de perigo epidemiológico, não há postos de trabalho para os quais retornar. Desprotegidas, pequenas

e microempresas, as que mais empregam mão de obra no Brasil, foram devastadas.

E os prospectos futuros não agradam — não há razões razoáveis para retomar

contratações e investimentos frente à grande incerteza. Sem uma rede de

proteção social mais ampla, não haverá salvação.

Precisamos de um programa mais robusto

do que o Bolsa Família e mais fiscalmente viável do que o auxílio emergencial.

Esse é o consenso entre pelo menos 23 dos 24 partidos representados no

Congresso Nacional, que hoje compõem uma frente ampla parlamentar por um

programa de renda básica (sem novidade: quem ficou de fora  foi o Novo).

Novos desenhos e projetos não faltaram. O que varia é o grau de focalização

(deveria ser restrito aos extremamente pobres ou abarcar também a população

informal que sofre de crônica volatilidade de renda?) e a estratégia de

focalização (deveria se basear na renda domiciliar ou em algum tipo de

estratégia indireta, como, por exemplo, uma Renda Básica Infantil, fundada num

critério etário?).

O financiamento tem sido objeto de

inúmeras e diferentes propostas – e podemos também diferenciá-las em função das

fontes de financiamento necessárias à sua implementação. Há pelo menos quatro

tipos de estratégias. Duas que, em tese, respeitariam o teto de gastos; e

outras duas condicionadas à mudança da regra.

Das que se propõem a respeitar o

teto, uma primeira tentaria obter recursos basicamente por meio da

reestruturação de programas existentes. Um exemplo é a proposta do Centro

de Debates de Políticas Públicas (CDPP), sugerindo a utilização de recursos

do Abono Salarial, Salário Família e Seguro Defeso. Outros propuseram

desindexar aposentadorias e pensões acima de um salário mínimo e até o próprio

salário mínimo. O

presidente da Câmara dos Deputados pareceu ser favorável à ideia de desindexar,

cortar, fundir, recompor e realocar esses gastos para financiar uma renda

básica. Uma segunda estratégia para respeitar o teto seria contorná-lo

criativamente, tal como a hipótese aventada pelo Executivo federal, que previa

lançar mão de recursos atualmente destinados ao pagamento de precatórios e

também de parte da complementação da União ao novo Fundeb.

Propostas com custo mais elevado

exigem a realização de algum tipo de mudança na regra do teto, permitindo

aumento de gastos e exigindo maior arrecadação. Atrelam, assim, o financiamento

à aprovação de medidas de reforma tributária. Um dos focos seria nas mudanças

em impostos diretos, como o Imposto de Renda Pessoa Física ou impostos sobre

patrimônio (heranças e doações, grandes fortunas). Nessa linha, tanto especialistas como

políticos apresentaram propostas. Inclusive, projetos de lei foram protocolados

no Congresso Nacional (como os PLs de José

Serra e da bancada

do PT e a PEC

de Tasso Jereissati, por exemplo). Uma

segunda possibilidade seria compor uma espécie de fundo com a

devolução prevista pela PEC 45 às famílias mais pobres (reforma dos tributos

sobre bens e serviços), para então transferir esses valores às pessoas mais

pobres na forma de uma renda básica.

Os custos adicionais

das propostas até agora apresentadas variam de aproximadamente 20 bilhões (na

proposta do CDPP) até 200 bilhões de reais (na proposta apresentada pelo PT).

No entanto, todas elas padecem do mesmo mal: o de não serem plenamente executáveis

no prazo previsto para o fim do auxílio emergencial, em dezembro de 2020. A

combinação de um novo desenho com uma nova fonte de financiamento dificilmente,

ou apenas parcialmente, seria exequível no início de 2021. A viabilidade teria

que ser construída com uma transição mais longa entre o auxílio emergencial e

um novo desenho de transferência de renda, como

proposto por pesquisadores do IPEA e outros

especialistas.

É necessário diferenciar, assim, o

curto e o longo prazo. A prorrogação do chamado Orçamento de Guerra para 2021

poderia fornecer tempo para a construção de uma maioria no Congresso em torno

de um novo programa. Embora não seja uma alternativa de financiamento

permanente, permitir o endividamento de emergência deixaria em suspenso os problemas

do teto e da arrecadação. Mas é preciso cuidado, porque estratégias

frequentemente concebidas como temporárias podem abrir caminhos para vícios e

problemas duradouros. No horizonte próximo, porém, parece não haver

alternativa.

Permaneceremos num impasse enquanto a

viabilidade fiscal não for demonstrada. A quantidade de propostas e a

dificuldade em definir fontes de financiamento mostram um grande impasse em

relação ao ajuste orçamentário necessário para aprovar um programa de renda

básica: cortar despesas (e reduzir direitos) ou aprovar aumento de carga

tributária? Como fazer a renda básica caber no teto de gastos e no orçamento de

2021?

O elevado número de propostas que

hoje tramitam ou são discutidas mostra que se tornou relativamente fácil propor

um desenho de renda básica. Para os políticos, basta um conjunto de assessores

parlamentares; para os especialistas, um bom conjunto de dados e simulações de

cenários. Nossa carência não é de ideias geniais que pudessem resolver tudo,

mas de coalizões verdadeiramente capazes de mexer no “imexivel”: a

progressividade dos tributos e o teto. O problema fiscal não é meramente

contábil. É, sobretudo, político. A  questão latente é nosso eterno

conflito distributivo: a busca por aumentos de bem-estar social sem ônus para

os mais ricos.

Ao longo de todo o período

democrático, desde 1985, não houve uma única reforma tributária aprovada com

cunho progressivo e redistributivo, como

mostram Lazzari e Arretche. Nossa Constituição de 1988 foi inclusiva na

forma como concebeu os gastos, mas não a arrecadação. A Emenda do Teto

adicionou então uma limitação do lado dos gastos. Estamos com as duas mãos

amarradas. Não há dúvida de que despesas não podem crescer indefinidamente e o

Estado deve ser responsável com seus credores. Mas apontar para a necessidade

de revisão da regra do teto, ao menos no que concerne aos mais vulneráveis,

parece soar, nesse contexto de tabus, como um grande flerte com a

irresponsabilidade. E não deveria.

Esse é o ponto no

qual patinamos: o inconciliável desejo de proteger simultaneamente pobres e

ricos, quando, na realidade, uma escolha necessária se torna cada vez mais

inadiável. O silêncio político sobre esses pontos é análogo àquele de uma elite

que, olhando a desigualdade por detrás de seus vidros fechados, faz mímicas

para os que estão de fora, balbuciando: “não, obrigado.” 

ROGÉRIO JERÔNIMO BARBOSA
Pesquisador do CEM/USP (Centro de Estudos da Metrópole) e membro da Rede de Pesquisa Solidária.

IAN PRATES
Pesquisador do Cebrap, Research Fellow da Social Accountability International e membro da Rede de Pesquisa Solidária.

FÁBIO PEREIRA
Técnico da Câmara Municipal de São Paulo e ex-secretário adjunto de Planejamento, Orçamento e Gestão do município de São Paulo.

URSULA DIAS PERES
Professora da Each/USP e pesquisadora do CEM/USP. Foi secretária adjunta de Planejamento, Orçamento e Gestão do município de São Paulo.

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As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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