A Selic no País das Maravilhas

Alexandre Schwartsman

BC alerta sobre o “limite efetivo mínimo” para taxas de juros, definido como um nível abaixo do qual a redução da Selic causaria encarecimento do dólar e piora do balanço de empresas devedoras em moeda estrangeira. Mostramos que, como regra, o dólar mais alto melhora os balanços, incentivando a atividade por este canal

Hand is turning a dice and changes the direction of an arrow symbolizing that the interest rates are going down (or vice versa)
	                (Fokusiert/Getty Images)		                </figcaption></figure>

Na ata de sua última reunião,

o Comitê de Política Monetária (Copom) levantou a questão da existência

de um “limite efetivo mínimo” para a taxa básica de juros brasileira,

que, concretamente, à luz da promessa expressa no mesmo documento quanto

a promover “um último ajuste, não maior do que o atual [0,75%], para

complementar o grau de estímulo necessário”, foi identificado como 2,25%

ao ano.

Embora a ata mencione a possibilidade de reduções além

desse nível serem “acompanhadas de instabilidade nos mercados

financeiros e preços de ativos”, não houve aprofundamento maior do tema.

Segundo, porém, a imprensa especializada em vocalizar o pensamento de membros do comitê, tal limite seria alcançado “quando os juros chegam a um patamar em que, passando dele, começam a ter efeitos contrários ao esperado na inflação”, ou seja, a queda de juros faria a inflação cair ainda mais, em vez de se aproximar da meta.

O mecanismo para o efeito Selic no País das Maravilhas se daria pela

interação entre a taxa de juros, o dólar e o balanço das empresas.

A

redução da taxa básica para níveis inferiores à soma do juro americano

(hoje perto de zero) com o risco-país poderia levar ao aumento mais

vigoroso do dólar, “uma ameaça para o balanço de empresas endividadas em

dólares – e um risco para a estabilidade financeira”, o que reduziria o

investimento e o emprego, trazendo a inflação ainda mais para baixo.

O

argumento faz sentido, exceto por não encontrar qualquer

correspondência com os dados. Ao contrário, números do próprio BC

sugerem que dificilmente a desvalorização da moeda nacional face ao

dólar teria um efeito negativo generalizado sobre as empresas

brasileiras.

Basicamente, porque estas têm, como veremos, mais

ativos do que passivos em moeda estrangeira. Ou seja, como regra, o

dólar mais forte melhora o balanço de tais empresas.

Os números provêm do relatório

sobre a Posição Internacional de Investimento (PII) do país, que

contabiliza tanto ativos de residentes contra o resto do mundo, quanto

seu passivo.

Ativos e passivos, note-se, englobam não apenas instrumentos de dívida, mas também (e crucialmente) posições relativas a investimentos em ações, seja na categoria investimento direto (que normalmente envolve o controle acionário de uma empresa), seja como investimento em portfólio, tipicamente em bolsas de valores.

Para tornar tal definição um pouco mais concreta, o PII contabiliza como passivo de uma dada empresa não apenas quanto ela deve a credores não-residentes (dívida externa), mas também quanto do seu capital próprio pertence a investidores não-residentes.

Este dado é

essencial se lembrarmos que nos últimos 10 anos houve ingresso

(incluindo lucros reinvestidos) de pouco mais de US$ 590 bilhões no país

a título de “participação no capital”, aos quais se somam ao menos US$

20 bilhões de investimentos líquidos de portfólio em ações no mesmo

período. Vale dizer, houve aumento de US$ 610 bilhões nos direitos de

não-residentes quanto aos lucros gerados por empresas brasileiras.

O

PII traz não apenas uma abertura mais detalhada quanto às fontes de

financiamento externo do país (seus passivos) e suas aplicações no

exterior (ativos), mas faz distinção também entre o setor público (no

caso, governo geral e Banco Central) e o setor privado (todo o resto).

É

possível, portanto, estimar não apenas o passivo externo líquido de

cada setor, mas também aproximar, de maneira bastante razoável, quanto

deste passivo líquido representa em termos de exposição às variações do

dólar, preocupação expressa pelo BC com relação à inversão dos efeitos

dos juros sobre a atividade e inflação.

Do lado dos ativos (US$

892 bilhões), noto em primeiro lugar que não há direitos de brasileiros

contra não-residentes expressos em moeda nacional (ninguém nos deve em

reais).

Em setembro de 2019, o setor público tinha ativos

equivalentes a US$ 357 bilhões, correspondentes principalmente às

reservas internacionais de propriedade do Banco Central.

Já o

setor privado detinha US$ 536 bilhões em ativos denominados em moeda

estrangeira, dos quais US$ 400 bilhões em investimentos diretos (no caso

US$ 373 bilhões em participação no capital e US$ 27 bilhões em

operações intercompanhia), US$ 50 bilhões em investimento de portfólio e

US$ 85 bilhões em investimentos diversos (financiamento comercial,

empréstimos, moeda e depósitos, derivativos, etc.).

O passivo externo (US$ 1,6 trilhão) supera em muito o ativo, reflexo

de anos de déficits nas contas externas. Todavia, apenas 35% deste

passivo, US$ 574 bilhões, está denominado em moeda estrangeira.

Do

lado do setor público temos US$ 123 bilhões, representando dívidas em

moeda estrangeira, enquanto no setor privado este valor alcança US$ 451

bilhões (empréstimos intercompanhia, empréstimos em geral, linhas

comerciais, etc.).

A maior parcela do passivo externo, mais de US$

1 trilhão, corresponde a direitos de investidores estrangeiros em moeda

doméstica, dos quais US$ 102 bilhões em títulos públicos negociados

localmente.

Já o passivo externo do setor privado em moeda

doméstica chega a US$ 948 bilhões, correspondente à participação no

capital de empresas nacionais (US$ 569 bilhões) e investimentos em ações

(US$ 379 bilhões).

Assim, como resumido na tabela acima, tanto o

setor público como o privado têm mais ativos do que passivos externos em

moeda estrangeira, respectivamente US$ 234 bilhões e US$ 85 bilhões. O

passivo externo líquido das empresas brasileiras é denominado

majoritariamente, portanto, em moeda nacional.

Posto de outra

forma, o setor privado liquidamente se beneficia da valorização do dólar

no que diz respeito ao seu balanço, isto é, seus ativos se valorizam

mais do que seus passivos.

Ao contrário, então, do que postula o

BC, mesmo que a redução dos juros locais leve à depreciação da moeda

(encarecimento do dólar), não haveria motivo em geral para crer que isto

ocasionasse a deterioração dos balanços das empresas e, portanto,

redução do investimento e emprego.

O limite para a redução de juro é o comportamento futuro da inflação em resposta à política monetária corrente.

Enquanto

houver indicação, com segurança razoável, de que a inflação permanecerá

abaixo da meta (no caso, para 2021), o BC, respeitando as regras do

nosso regime monetário, deverá seguir reduzindo a taxa básica de juros,

ao menos até achar algum motivo de verdade para o tal “limite efetivo

mínimo”.

Fonte: Infomoney

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Ouvir conteúdo

0 palavras · ~1 min de leitura

Publicações Recentes

Avanço do crime na economia formal nos leva para a várzea, onde não sabemos jogar, diz ex-presidente da Febraban

CDPP
·

Perigos, externos e internos

Giuliano Guandalini
·

Questão de impeachment de ministro do Supremo é pertinente nos casos Toffoli e Moraes, diz Giannetti

Giuliano Guandalini
·

'Brasil crescer 2,3% com juro a 15% é surpreendente', avalia Giannetti

Giuliano Guandalini
·
Podcast

Podcast do CDPP