A sorte está lançada?

Alexandre Schwartsman

Muito embora a resposta fiscal à crise seja essencialmente correta, suas consequências para o retorno a algum equilíbrio requerem esforço de correção de rumos ainda maior do que imaginávamos

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes

Nos meus momentos fatalistas, me pergunto se nossa sorte já foi

lançada. Tenho certeza que não estávamos a um milímetro do Paraíso no

começo do ano, mesmo porque o cenário de reformas permanecia, no mínimo,

nublado.

Mas, ao mesmo tempo, tudo convergia para um desempenho

econômico mais sólido, que, com um tanto de sorte e outro ainda maior de

trabalho, poderia redundar numa trajetória de reequilíbrio fiscal e

expansão mais rápida num futuro não tão distante. Jamais saberemos.

A crise sanitária e suas decorrências econômicas, porém, podem ter fechado esse caminho.

Como escrevi na semana passada, muito embora as medidas adotadas apontem para a direção correta (a magnitude deverá ser calibrada à luz de nova informação), suas implicações pela ótica fiscal são consideráveis.

A dívida do

governo, que fechou o ano passado na casa de 76% do PIB e que se

esperava subir modestamente para 78% do PIB no final de 2020, pode

atingir cerca de 90% do PIB nesse horizonte, talvez até mais a depender

do que sair dos escombros do Plano Mansueto.

Ao mesmo tempo as

chances de avançarmos com temas como a PEC emergencial, a PEC do pacto

federativo, a reforma administrativa e a reforma tributária caíram

consideravelmente.

Em parte porque as energias do Congresso e da

parcela pensante do governo estão, justificadamente, focalizadas em

problema ainda mais urgente, mas também porque, ao invés de aproveitar a

crise para unir o país, o presidente dobrou a aposta no conflito.

paralelos desconfortáveis com a situação vivida por Dilma Rousseff no

começo de seu segundo mandato, seja no que se refere à incompetência

pessoal, seja pela dificuldade de relacionamento com o Congresso.

Mantenho

a crença que a intensidade inédita da recessão vivida a partir de 2015

(embora tenha se iniciado ainda em 2014) pode ser atribuída em grande

medida à percepção generalizada que a administração não teria, como não

teve, condições de avançar na agenda que revertesse o desastre gerado

pela Nova Matriz, tanto no campo fiscal, como por conta de suas

intervenções avassaladoras no domínio econômico (a devastação no setor

elétrico, a ruína da Petrobras, o desperdício de recursos no fomento a

campeões nacionais, para ficar apenas nos tópicos mais visíveis).

Tenho hoje visão semelhante. Se, de fato, a dívida chegar a patamares

próximos ao mencionado acima, não é difícil concluir que o esforço

fiscal para conter o endividamento deverá se materializar na forma de um

superávit primário na casa de 1% do PIB em termos permanentes,

possivelmente até mais.

Mesmo que consigamos retornar, em 2021 e 2022, aos níveis que atingimos, com sacrifícios, no ano passado (um déficit primário recorrente próximo a 2%, como mostrado na tabela abaixo), o que não está de forma alguma garantido, ainda precisaríamos cobrir uma distância equivalente a 3% do PIB, algo como R$ 220 bilhões em dinheiro de hoje.

Trabalho recente da Instituição Fiscal Independente (IFI), uma referência no tema, ilustra o problema.

Em

novembro do ano passado, o cenário-base da IFI projetava estabilização

da dívida entre 80-81% por volta de 2022-2014; à luz, porém, dos

desenvolvimentos recentes, a dívida seguiria crescendo mais rapidamente

que o PIB pelo menos até 2030, quando atingiria 100% do PIB, não tanto

pelo nível em si, mas pela persistente elevação do endividamento num

horizonte de 10 anos.

Não é necessário tomar tais projeções ao pé

da letra, nem é, acredito, o cerne da mensagem, mas sim que o cenário se

tornou imensamente mais desafiador do que esperávamos há pouco.

Nesse sentido, o crucial é sabermos se nossas instituições políticas se encontram à altura do desafio.

Hoje,

estou convicto que não: a lógica de conflito dificulta demais a

construção de maiorias sólidas em matérias complexas como as reformas

fiscais, em contraste com o quase consenso agora existente quanto às

mudanças constitucionais para enfrentar a crise sanitário-econômica.

Se meu entendimento estiver correto, já cruzamos o Rubicão da sustentabilidade fiscal.

Fonte: Infomoney

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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