Valor (publicado em 15/07/2021)
A terceira via ainda é possível para as eleições de 2022? Para Arminio Fraga, “sem dúvida”
Ex-presidente do BC critica Lula, afirma que Bolsonaro não é
favorito e vê espaço para terceira via
É muito cedo para descartar o surgimento de uma terceira via
para as eleições presidenciais de 2022. Mas a ausência dessa alternativa, em um
ambiente extremamente polarizado, eleva o grau de incertezas no cenário, o que
é paralisante para as empresas e o país. Para Arminio Fraga, ex-presidente do
Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, decisões que demandem grande
mobilização de capital podem ser adiadas. Arminio acredita que Bolsonaro deve chegar
à corrida eleitoral fragilizado, sem a natural vantagem do incumbente, dada a
“visão pouco institucional, pouco científica, pouco apreço pela democracia”.
O economista prevê grande chance de moderação por parte do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assim como ocorreu em 2002. E afirma
que já vê sinais sutis de alguma aproximação dos agentes econômicos da
candidatura petista. Mas critica com vigor o líder nas pesquisas de opinião.
Diz que um de seus legados foi a gestão de sua sucessora, Dilma Rousseff, que
classifica como “catastrófica”.
Nesse clima de tensão, uma posição para tentar agradar
grupos de apoio prejudica o andamento das reformas”
O ex-presidente do Banco Central não se entusiasmou com a
nova versão apresentada na Câmara pelo relator Celso Sabino (PSDB-PA), após
negociação com o governo, para o projeto de lei que reformula o Imposto de
Renda. “Não surpreende que a proposta tenha nascido com aumento de carga e
tenha por um passe de mágica passado a redução. O quadro fiscal não parece
importar”, disse.
Arminio teme que o presidente Bolsonaro coloque em risco a
institucionalidade e afirma que o país deve enfrentar o debate do impeachment.
A seguir, trechos da conversa com o jornal, feita por videoconferência.
Conheço bem a minha tribo. Já sinto a diferença em alguns
pronunciamentos, algumas posições. É sutil, mas está lá”
Valor: Com que cenário político o senhor trabalha em
2022?
Arminio Fraga: É repleto de incertezas que, por si
só, já têm impacto econômico bem relevante e tendem a encurtar o horizonte das
pessoas que precisam tomar decisões. Estamos vivendo um momento de incerteza
extrema e isso é paralisante. Há essa discussão de uma alternativa aos dois que
lideram, que demanda muita análise e humildade, porque há muito tempo pela
frente. Do ponto de vista do meu dia a dia como investidor ou do ponto de vista
das empresas, esta é uma situação que faz com que grandes decisões tendam a ser
postergadas. Se envolve imobilizar muito capital, a tendência é esperar uns
meses, e depois mais meses… É mais ou menos consenso entre os analistas que o
incumbente leva uma vantagem, no entanto a situação do governo atual tem se
mostrado muito difícil. É comum em momentos terríveis as lideranças se consolidarem.
No Brasil, o que vemos é o oposto, e esta não é uma análise só minha. A
situação muito precária do incumbente foi construída por ele mesmo. Muito do
que acontece no Brasil decorre daí. Dá para se enxergar sintomas de uma causa
comum. A visão pouco institucional, pouco científica, de desapreço pela
democracia, e as ameaças de que não haverá eleições ou que os resultados não
serão respeitados. Nesse clima de muita tensão, uma posição clara para tentar
agradar grupos de apoio prejudica o andamento das reformas em particular e da
economia, em geral.
Valor: Qual sua posição sobre um eventual
impeachment?
Arminio : Alguns dizem que não é bom fazer
impeachment de presidente toda hora. Tenho uma posição diferente. Para mim, o
que não é bom é termos presidentes acusados de crime de responsabilidade a toda
hora. Vamos amadurecer encarando esses assuntos, e não enterrando eles. Para
mim é uma questão de princípio. Posso estar sendo ingênuo, mas o fato é que eu não
teria medo do processo. Espero que encaremos isso com firmeza. As instituições
estão ameaçadas e precisam se defender.
Valor: As instituições realmente estão ameaçadas? O
risco de ruptura é real?
Arminio: As lições desse século que dizem respeito à
democracia mostram que ela não morre de infarto fulminante. Vai morrendo aos
poucos. A qualidade e a forma do debate importam. Isso tudo vai corroendo a
democracia. O presidente tem muito poder. Nessa nossa democracia com elevado
número de partidos isto dá uma certa margem de manobra, sem que se perceba no
dia a dia. A sensação que se tem é que a ameaça é real.
Valor: E os militares? Como é que eles ficam?
Arminio: Este é um governo que recrutou muitos
militares, inclusive da ativa. Vejo como desejável o Congresso passar uma
emenda constitucional para não permitir que militares da ativa atuem no
Executivo. Muito provavelmente as lideranças militares já perceberam que apoiar
uma aventura autoritária seria uma tremendo fiasco. Não vejo paralelo com 1964.
Naquela época havia a guerra fria e uma certa confusão na economia. Agora a
confusão surge com eles dentro.
Valor: Lula é o primeiro colocado nas pesquisas de
opinião. Pelas sinalizações que ele vem dando, o que se pode esperar caso ele
vença?
Arminio: No governo Lula, no momento em que tomou
posse com um discurso de dominância absoluta na política, ali se perdeu uma
oportunidade. Assim mesmo as coisas foram bem até certo ponto. O que me assusta
com a possibilidade da volta é o que veio depois. E o que apareceu depois. Não
só ele se afundou na lama, como organizou a lama melhor que qualquer outro. Na
economia, o Brasil nunca teve oportunidade melhor para decolar. E a semente dos
problemas do governo Dilma, catastrófico, de política setorial atrasada, de
subsídio para tudo que é lado, subsídio para rico, foi plantada no governo
Lula, inclusive ela mesma. A experiência do PT no poder teve bons momentos, mas
no final foi um fiasco gigantesco e a coisa explodiu. Essa combinação de
política, economia e valores quero ver longe. Deve existir alternativa melhor.
Fala-se que eles vão fazer diferente. Será? Será que vão mesmo?
Valor: Como o mercado receberia uma versão “paz e
amor’ da candidatura do Lula?
Arminio: Eu acho que vai ser muito provável que todos
caminhem para o centro. É da natureza da política tentar invadir o território
do outro nessa faixa intermediária e ganhar. Como o Lula candidato vai se
posicionar eu não sei. Ele é muito inteligente, muito hábil. E eu penso que vai
tentar explorar esse espaço, seria uma surpresa se ele não o fizesse. Como vai
reagir essa criatura arisca, oportunista e curto prazista chamada mercado, sem
a qual nenhuma economia se desenvolve, eu não sei. O Brasil tem um histórico de
lideranças empresariais super chapa branca. Normalmente, a turma vai ali, fica
perto… é da natureza da coisa. É meio um defeito de fabricação institucional
que em algum momento vamos ter que abordar: essa relação entre Estado e
lideranças empresariais, um Estado que tudo pode, tudo oferece, com amplo
espaço discricionário, vendendo facilidades. Essa relação não tem feito coisa
alguma pelo país, mas é a nossa realidade. Tem exceções? Muitas, como as
pessoas vão se posicionar, eu já posso adiantar que elas vão com o vento. Se o
vento estiver indo para um lado, em geral você vai ver muita gente ali perto,
apoiando. Quanto aos economistas, conheço bem a minha tribo. Já sinto a
diferença em alguns pronunciamentos, algumas posições. É sutil, mas já está lá.
Valor: A terceira via ainda é possível?
Arminio: Sem dúvida. A começar pela dupla rejeição
enorme dos dois principais candidatos. A terceira via representaria uma coisa
mais nova, nesse contexto. Acho que dá tempo. Certeza ninguém pode ter, mas há
tempo para um debate, para surgir alguma opção que acenda o fogo, o interesse
do eleitorado.
Valor: Quando se olha a fotografia de hoje do
mercado, a gente ainda não sente essa incerteza manifestada. Isso ainda há de
vir?
Arminio: O que a gente pode falar de positivo? O
exemplo número um é o saneamento. Arrumaram o marco legal e os investimentos
estão começando. Mas sempre foi muito complicado. Dá muito medo, assumir uma
concessão, a economia entra em crise, as pessoas não conseguem pagar. Aí vem a
tentativa de segurar o reajuste das tarifas. Está acontecendo. É uma evolução
muito importante. Mas quando se olha o todo, o Brasil está investindo muito
pouco. A taxa de investimento do Brasil está abaixo de 20% há muito tempo. Esse
é o dado mais importante.
Valor: Isso é pelo risco político?
Arminio: Isso já vem de muito tempo, o risco político
vem desde 2014. Melhorou um pouco do lado das reformas no governo Temer, mas a
economia e o investimento não reagiram. O investimento público para mim é o
mais impressionante. O gasto público, que inclui investimento, subiu uns 10
pontos do PIB nos últimos 30 anos e, ao mesmo tempo, o investimento caiu de um
pico de 5 pontos do PIB para um ponto. O país está sem investimento público
para todos os efeitos. E isso é muito grave. Mesmo para alguém com um perfil
mais liberal como o meu, o país não tem a menor chance de crescer desse jeito,
pois tem muita coisa que só o governo faz. E o Brasil precisa disso.
Valor: Os mercados reagiram com alívio à percepção de
que o risco de um quadro de ruptura fiscal não se confirmou. Mas de que forma
essa questão deve continuar impactando os mercados e as decisões de
investimento daqui para frente?
Arminio: A situação fiscal se sustentou um pouco
graças ao teto, mas ela é um tanto disfuncional. O setor público parou de
investir e a reforma geral do Estado que precisa acontecer não está
acontecendo. No entanto, por força de uma trajetória de inflação favorável, o
governo vai ter algum espaço para gastar mais no ano que vem. Em função desse
período de inflação alta e taxa de juro real negativa no curto prazo, a
dinâmica da dívida também acabou não piorando como estava projetado, até
melhorou um pouco na margem, está ao redor de 85% do PIB. Mas é um alívio
apenas temporário. Dívida e déficit públicos seguem altos. As taxas de juros de
longo prazo já embutem um prêmio de risco relevante, ou seja, quando se olha
para as taxas e se faz a conta do que está implícito para daqui dois, três,
quatro, dez anos, já estamos perto de 5% real. As taxas baixas com as quais nós
convivemos foram o espelho de uma depressão, não de saúde. E agora o mundo está
vivendo de novo um momento de uma certa euforia na bolsas sobretudo, que
respingou um pouco para nós. Lá atrás o Brasil parecia que ia quebrar, mas não
quebrou, e algumas reformas vêm acontecendo. Esse é o lado bom da história. Mas
os grandes temas – política, fiscal, desigualdade, produtividade – estão
mal-parados. Não dá para a gente se iludir. Tudo bem, vai ter um período em que
o governo vai poder gastar um pouco mais para tentar se reeleger, o que não é
bom, mas não há nenhuma razão para achar que um país com a situação fiscal que
nós temos possa relaxar.
Valor: O senhor vê risco iminente de o governo perder
de novo a mão na condução da política fiscal pensando na eleição?
Arminio: O governo tem que obedecer ao teto, que tem
sido uma amarra importante. As exceções ao teto vêm sendo justificadas pela
pandemia. Se a pandemia, como todo mundo espera e torce, melhorar, a tentação
de gastar mais pode surgir. Mas pelo menos no curto prazo essa amarra resolve,
mesmo com todas as distorções que enseja. No fundo falta mesmo repriorizar os
gastos e eliminar uma série de brechas e subsídios. Alguns estão, inclusive, em
discussão.
Valor: Qual sua opinião sobre o projeto que muda o
Imposto de Renda, reformulado anteontem?
Arminio: Não surpreende que a proposta tenha nascido
com aumento de carga e, por um passe de mágica, passado a redução. O quadro
fiscal não parece importar.
Valor: Estamos vendo uma retomada do crescimento
econômico, em grande medida puxada pela vacinação. Esse quadro pode gerar uma
sensação de mais bem-estar a ponto de influenciar as eleições?
Arminio: A tendência é que a economia melhore com o
fim da pandemia. O Brasil tem, nesse ponto, uma vantagem em relação a muitos
outros países que é o fato de que a população não rejeitar a vacina. Isso tende
a ajudar a economia. Contra isso temos os fatores institucionais que eu já
mencionei. Hoje a inflação é um problema sério, que está apertando muito a vida
das pessoas. A perdas ligadas à pandemia machucaram demais e ainda machucam –
estão morrendo mil pessoas por dia. Não sei se isso sai da memória tão rápido. E
o desemprego, quando se ajusta para taxa de participação, ou seja, quando se
inclui as pessoas que desistiram de procurar, está lá pelos 20%. Não creio que
daí venha uma “salvação” para a candidatura do atual presidente.
Valor: O cenário de melhora econômica de 2022 não vai
ter a potência que teve em outras ocasiões, como 2006 e 2010?
Arminio: É o que eu acho. Em 2010 tivemos o melhor
exemplo do ciclo político clássico: pé na tábua em ano de eleição. Mas acho que
a economia está muito fragilizada e prejudicada com essas incertezas todas.
Valor: O que seria o pior, considerando que teremos
esse cenário binário: a reeleição ou a volta do Lula?
Arminio: Essa pergunta é das mais frequentes, em
todos os ciclos. Mas eu sou contra até pensar nisso agora, seria um erro. Como
eu acho que tem opções melhores por aí, prefiro apontar os problemas com as
duas candidaturas e tratar de construir algo diferente.
Valor: O início da normalização da política monetária
americana pode coincidir com o processo eleitoral. O senhor vê riscos vindos
daí para o Brasil?
Arminio: Sim, mas nada proporcional ao risco interno.
Tem sido um tempo de vento de fora a favor. Com dinheiro de graça no mundo
inteiro. Em geral, a história mostra que esses ciclos mais tradicionais em
algum momento se esgotam. Há sinais de euforia em vários países, os prêmios de
risco dos mercados ilíquidos – de capital de risco de private equity – estão
muito magrinhos, em alguns casos até desapareceram. A bolsa de valores no
Brasil tem um peso muito grande das empresas financeiras e de commodities, o
que tente a mascarar o que está acontecendo em outros setores. É preciso olhar
com cuidado. A bolsa no Brasil dá muito peso a setores que têm múltiplos
baixos, mas, considerando-se então todas essas incertezas que eu venho
mencionando, a bolsa me parece mais para cara.
Valor: E o câmbio?
Arminio: O câmbio é uma certa contradição com a
bolsa. Com a alta das commodities que o Brasil produz e dos juros no Brasil, e
com a política monetária frouxa nos Estados Unidos, seria para o real estar
mais valorizado. Do ponto de vista do balanço de pagamentos, o “boom” dos preços
das commodities em geral viria acompanhado de um real mais forte do que é o
caso hoje. É um sinal de falta de confiança. Olhando pelo lado da bolsa, o que
se sabe é que esse período de alta foi turbinado internamente.. O Brasil nunca
teve juros tão baixos em termos nominais e reais. Todo mundo estava acostumado
a ganhar 6% real ao ano, com a queda, houve uma busca por alternativas. Isso
explica essa desconexão entre bolsa e câmbio.
Valor: Esse comportamento do câmbio mostra que o juro
aqui também está fora do lugar?
Arminio: O Banco Central está olhando para um quadro
complexo. Eles foram ousados na baixa, não sem razão, mas vêm sinalizando uma
correção bem relevante. Acho que no câmbio tem mais do que o diferencial de
juros, tem essa incerteza maior. Penso que o Copom funciona dentro de uma
sistemática vencedora Se eventualmente eles se atrasaram um pouco, corrigir.
Valor: Nas eleições de 2014 e de 2018, o senhor teve
um papel bastante ativo. Em 2014, na defesa de Aécio Neves, chegou até a
debater com Guido Mantega. Depois houve toda a articulação que acabou se
frustrando em torno do Luciano Huck. Agora o senhor está em uma posição de mais
expectativa ou de busca ativa pela terceira via?
Arminio: Para falar a verdade, eu nunca busquei nada.
Eu tenho dentro de mim vontade de ajudar. Fui adquirindo, por força das
circunstâncias, experiências que podem ser úteis na vida pública e nunca me
recusei a participar. Sobretudo no caso do Aécio, que se candidatou. Conheci o
Luciano mais recentemente, uma pessoa por quem desenvolvi admiração e amizade.
Mas o Aécio foi diferente, ele estava na campanha e eu estava mais exposto, foi
uma experiência interessante e complicada. Mas eu tenho tido espaço para falar,
não fujo da discussão. Agora, ir para Brasília ou me engajar mais são outros
quinhentos. Tem muita gente boa no Brasil disponível, com boa formação, com experiência,
com o coração no lugar certo, disposta a ajudar. Seria meio ridículo eu dizer
que nunca mais vou me meter em confusão, mas meu sarrafo está lá em cima. Sinto
falta de uma alternativa compatível com meus valores e visões. Qualquer um que
atue na área econômica tem que ter uma atitude de pé no chão e realista. Não
sou uma pessoa para fazer campanha, mas eu acredito que o Brasil pode se
desenvolver, e eu posso explicar como.
Valor: E na posição de fomentar lideranças?
Arminio: Isso eu faço bastante, sou amigo de economistas e políticos jovens. Dedico bastante tempo a ajudar onde posso.
Link da publicação: https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/07/15/incerteza-encurta-horizonte-de-decisoes-diz-arminio.ghtml
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