Abertura já!

Edmar Bacha

O país tem uma conta de capital aberta, mas uma conta de comércio fechada. É uma receita pronta para o crescimento empobrecedor

VALOR

É significativa a

alta dos preços das mercadorias desde o início da pandemia. A causa principal é

a forte desvalorização do real. Os preços dos serviços, que embutem basicamente

o custo da mão de obra, nem de perto sobem na mesma proporção. A razão é o

enorme desemprego provocado pela pandemia.

Não obstante o alto

desemprego, são frequentes as demandas para que o Banco Central comece a

“normalizar”, ou seja, a aumentar a taxa de juros para combater a alta de

preços. Será que devia mesmo?

O que se observa é

um aumento dos preços das mercadorias em relação aos dos serviços. Essa mudança

de preços relativos pode gerar um surto de inflação ou não, ainda não sabemos.

A indexação impulsiona, mas o desemprego segura. Por isso, não é claro que essa

mudança deva ser combatida com um aumento preventivo da taxa de juros, que não

diferencia mercadorias de serviços. Juros mais altos reduzem igualmente a

demanda por mercadorias e por serviços, agravando o desemprego.

Há outros

instrumentos à mão. O mais interessante seria uma redução de impostos sobre as

mercadorias importadas e de outras barreiras (antidumping e sanitárias, por

exemplo) que impedem que as importações possam fazer baixar os preços no

mercado interno. Deixem entrar o aço da Argentina, as bananas do Equador, a

carne do Paraguai, o café robusta da África.

Essa redução das

barreiras à importação uniria o útil ao agradável. Pois contribuiria para o tão

necessário aumento da produtividade, além de reduzir as pressões

inflacionárias.

Aumentos da

produtividade dependem de empresas que usem tecnologia de última geração com

insumos modernos, que explorem economias de escala, que se especializem em

linhas de produção para as quais são mais qualificadas, e que atuem num

ambiente de concorrência. Essas características somente se obtêm com

participação nas cadeias internacionais de valor. Uma vez perguntaram a Carlos

Ghosn porque os Renaults produzidos no Brasil não eram tão bons quanto os da

França. Resposta dele: deixem-me importar partes e peças da Europa que eu faço

Renaults tão bons quanto os de lá.

Desde a Segunda

Grande Guerra, doze países conseguiram sair da renda média para se tornarem

países ricos. Coreia do Sul, Hong Kong, Israel, Cingapura e Taiwan chegaram lá

com exportações industriais. Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal, com

exportações de serviços. Austrália, Nova Zelândia e Noruega, com exportações de

recursos naturais. As características dos produtos variam de acordo com as

respectivas vantagens comparativas, o fator comum é a integração à economia

mundial. O Brasil é grande e diversificado o suficiente para não ter que

escolher entre setores de atividade, como foi o caso desses países. À

semelhança dos EUA, pode tê-los todos – agricultura, mineração, indústria e

serviços -, desde que integrados ao comércio internacional.

Esses doze países

têm mercados internos menores do que o do Brasil. Mas países maiores que o

Brasil são também grandes exportadores: Estados Unidos, China, Alemanha, Japão,

França e Reino Unido. Já o Brasil, que em 2018 tinha a oitava maior economia do

mundo, era apenas o 25º maior exportador. O PIB do Brasil representava 3% do

PIB mundial, mas suas exportações apenas 1,1% das exportações mundiais. Um

gigantinho em termos de PIB, o Brasil é um anão em termos de exportações.

O que se constata

nas exportações se repete nas importações. Em 2018, a parcela das importações

no PIB brasileiro foi de apenas 11,6%, o menor valor entre os 164 países

considerados pelo Banco Mundial.

Trata-se de uma situação

paradoxal, porque em 2018 o Brasil foi também o sexto destino mais preferido

para o investimento direto estrangeiro no mundo. O país tem uma conta de

capital aberta, mas uma conta de comércio fechada. É uma receita pronta para o

crescimento empobrecedor. As multinacionais e seus empregados prosperam ao

explorar o mercado interno protegido, mas o resto do país empobrece ao ter seus

recursos aplicados na substituição ineficiente de importações em lugar de se

dedicarem à expansão das exportações.

O momento para a

abertura é este. A balança comercial é positiva. Jamais tivemos uma taxa de

câmbio tão desvalorizada. A indústria tem dificuldade de aumentar a produção

não por falta de demanda, mas pela dificuldade de conseguir peças e

componentes.

O Ministro da

Economia parece ter sucumbido aos lobbies empresariais, declarando que só

pensará na abertura comercial depois da reforma tributária. O argumento é

falacioso, pois impostos altos e distorcidos aplicam-se igualmente aos produtos

nacionais e aos importados.

Senti isso

pessoalmente no mês passado. Face ao agravamento da pandemia, resolvi comprar

máscaras com maior nível de proteção. Li no New York Times que a KN95 era

equivalente à N95. Não a encontrando para venda em lojas brasileiras,

encomendei cem unidades a varejista americano. Face à pressa, fiz porte aéreo,

o que aliás me poupou de pagar o Adicional ao Frete para Renovação da Marinha

Mercante.

Entre o preço da

mercadoria e o frete aéreo, as cem máscaras custaram R$ 1.064, 51. Qual não foi

minha surpresa quando o entregador me disse que ainda devia R$ 1.205,62 de

impostos. Como assim, um produto essencial sem similar nacional, devia haver

isenção. Qual nada, apesar de estar prevista, como a importação foi via aérea a

alfândega carioca simplesmente ignorou a isenção e lascou 60% de imposto de

importação. Se eu quisesse reclamar, teria que devolver o produto. Em cima dos

60%, mais ICMS e Fundo de Combate à Pobreza. Havia também o desembaraço

aduaneiro, isto é, o custo de verificar meu CPF, de calcular os impostos e mais

a tarifa aeroportuária de armazenagem. Tudo junto, 113% sobre o preço do

produto mais frete.

Moral da história:

por uma máscara que me custaria 79 centavos de dólar em Nova York tive que

pagar o equivalente a 4 dólares e 20 centavos no Rio de Janeiro – 5,3 vezes o

preço americano. Agruras brasileiras. Mas também uma singela indicação do

enorme impacto que um alívio dos encargos sobre as importações poderia ter para

reduzir a inflação.

A esperança está no presidente do Banco Central. Por que não levanta ele a bandeira da abertura da economia dentro do governo? Teria assim um poderoso instrumento adicional à Selic para combater a inflação. Seria uma bela adição à Agenda BC#!

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/abertura-ja.ghtml

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

ESCRITO POR

Edmar Bacha

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