Querer repetir a estratégia de crescimento daquele período denota, no mínimo, uma grande falta de imaginação
VALOR
O saudosismo pelo
mid-century, os anos dourados de crescimento forte em meados do século XX, que
já inspirou até um hotel no aeroporto JFK, em Nova York, se espelha pelos mais
variados aspectos do design (móveis, relógios, prédios) e até pela teledramaturgia.
Essa nostalgia não está restrita aos EUA. Os franceses, desde muito tempo, se
referem ao período que vai do final da Segunda Guerra mundial a meados da
década de setenta como os “trente glorieuses”, os trinta anos gloriosos de
crescimento acelerado.
O mesmo sentimento
poderia se aplicar ao Brasil. No terceiro quarto do século XX o país viveu, sob
vários aspectos (nem todos), seu apogeu. Tínhamos o melhor futebol, a melhor
música e construímos uma capital que simbolizava o futuro. A economia crescia
muito, 7,5% em média, e o país deixava de ser pobre, tornando-se uma economia
de renda média com legítimas expectativas de enriquecer mais ainda. No entanto,
tal crescimento durou até o final dos anos 1970, mas depois estancou.
Poucos eventos
econômicos são documentados de forma tão clara quanto o declínio relativo do
Brasil no período subsequente, que se estende até hoje. Talvez uma comparação
baste para ilustrar o ponto. Em 1980, segundo a Penn World Table, a renda per
capita brasileira era 19% da americana, e a renda per capita da República da
Coreia era de 17%. Os dados mais recentes, para 2019, indicam que nossa renda
per capita, em termos relativos, passou a 23% da americana, enquanto a
sul-coreana atingiu 64%. Ou seja, enquanto a Coreia convergia para o padrão de
vida dos países ricos, o Brasil ficou parado.
Parte da
desaceleração do crescimento tem a ver com a demografia. A taxa de crescimento
populacional caiu de cerca de 3% ao ano na década de 1950 para menos de 1,2% na
primeira década do século, e, estima-se, apenas 0,8% na década passada. Parte é
mais complexa, e existem várias hipóteses, associadas a mudanças institucionais
ocorridas nas últimas décadas e também à persistência de desequilíbrios
macroeconômicos.
As razões para o
declínio brasileiro pós 1980 são frequentemente procuradas nas políticas
adotadas desde então. Mas, para fazer justiça, aspectos importantes do modelo
de crescimento dos anos dourados do século passado já embutiam as sementes da
desaceleração. Em primeiro lugar, a opção protecionista, parte essencial da
industrialização por substituição de importações, apartou, propositalmente, a
economia das cadeias produtivas internacionais. A vocação autárquica, com
ênfase na proteção ao mercado interno (esquecendo que o mundo é um mercado
muito maior), chegaria ao auge no segundo PND (Plano Nacional de
Desenvolvimento), dos anos 1970.
Nenhuma das
economias em desenvolvimento que ultrapassou exitosamente a armadilha da renda
média nas últimas décadas o fez sem se beneficiar desta integração. A abertura
econômica não parece ser condição suficiente para a convergência, mas, a julgar
pelas experiências de Coreia, Israel, Hong Kong e Cingapura, é condição
necessária.
Outro ponto crítico
se refere à qualificação da força de trabalho. Excluindo o caso especial das
pequenas economias exportadoras de commodities, também não se encontra registro
de processo de convergência de renda per capita que não tenha sido acompanhado
pelo avanço da educação. Como é sabido, nos anos de crescimento rápido do
século XX o Estado investia muito, subsidiava muito, mas não na educação e, em
especial, na educação básica. O Estado-empresário ocupava espaços que poderiam ser
do setor privado, e, diante da escassez de recursos, não se ocupava
adequadamente da educação, que seria fundamental para elevar a produtividade do
trabalho – as teorias de desenvolvimento em voga no nosso período de auge não
atribuíam especial importância à formação de capital humano.
Outro problema
herdado dos anos dourados refere-se à dificuldade de lidar com desequilíbrios
macroeconômicos básicos. Não precisamos olhar muito além de nossa região para
observar que a incapacidade de resolver problemas macroeconômicos de curto
prazo, como controlar a inflação, pode ter repercussões de longo prazo bastante
danosas. O Brasil dos anos 50 e início dos 60 tinha um problema inflacionário
crescente, que foi desorganizando a economia e seria apenas parcialmente resolvido
pelo Paeg (Programa de Ação Econômica do Governo), já no regime militar. O país
entrou na década de 70 acreditando que ensinaria ao mundo como conviver com
taxas de inflação elevadas – mas essa receita se provou errônea, e amargamos
suas consequências nos anos seguintes.
Faz sentido ter saudade da seleção de 58, da Bossa Nova e da arquitetura de Brasília, mas, a essa altura, não levar em conta as fragilidades e problemas que os “anos dourados” nos legaram e querer emular a estratégia de crescimento daquele período, com ênfase no papel empresarial do Estado e aversão ao comércio internacional, denota, no mínimo, uma grande falta de imaginação.
Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/anos-dourados.ghtml
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