As implicações de 2021 para 2022

Mario Magalhães Carvalho Mesquita

Mario Mesquita, Valor Econômico

O desempenho econômico vai depender de forma relevante do timing e efetividade do controle da pandemia

O término do processo eleitoral de 2020 suscita naturalmente

o debate sobre potenciais implicações para as eleições de 2022. Como a política

é atividade contínua, os pleitos municipais devem ter alguma influência sobre

as eleições nacionais. No entanto, a experiência recente sugere que o

desempenho da economia, e as condições econômico-sociais do ano anterior ao ano

eleitoral, tendem a ser fatores ainda mais importantes.

É interessante observar que, no Brasil, pesquisas eleitorais

no ano que precede as eleições presidenciais têm antecipado os resultados

finais com certa frequência – cinco entre oito eleições desde 1989, ou quatro

entre as últimas cinco. Como se trata de uma amostra pequena, essa observação

carece de robustez estatística, mas não deixa de ser relevante, pois pode

ajudar a entender com alguma antecedência se a eleição será uma disputa

dominada pela busca da mudança, ou pelo apego à continuidade.

O desempenho econômico vai depender de forma relevante do

timing e efetividade do controle da pandemia

Desde a virada do século, tivemos duas eleições de mudança,

2002 e 2018, e três de continuidade, 2006, 2010 e 2014. Dada a existência de um

viés pró incumbente no histórico eleitoral nacional e regional, vale focar aqui

nas eleições de mudança e suas condições precedentes em 2001 e, mais

recentemente, 2017.

O ano de 2001 foi marcado por uma grande reversão de expectativas.

O novo arcabouço macroeconômico, superávits primários, câmbio flutuante e metas

para a inflação, introduzido em 1999, estava em consolidação. A Lei de

Responsabilidade Fiscal sinalizava um maior controle das finanças subnacionais,

e a confiança dos investidores internacionais havia sido restaurada. Assim, no

início do ano havia bastante otimismo quanto ao que viria – a pesquisa do BC

junto a analistas independentes apontava para crescimento do PIB de 4,0%, patamar

semelhante ao do ano 2000, e inflação de 4,3%, ante uma meta de 4,0%. No

entanto, a economia também apresentava fragilidades, notadamente um déficit em

conta corrente elevado, equivalente a 3,8% do PIB, reservas internacionais

baixas, que cobriam apenas 60% da dívida vincenda em 12 meses, e uma

dolarização da dívida interna, herdada do período de câmbio administrado, que

criava o potencial para um ciclo vicioso entre depreciação, deterioração da

posição financeira do setor público, e risco-país. Enquanto o ambiente

internacional continuasse favorável, as perspectivas para o país, na ausência

de grandes choques internos, seguiriam alvissareiras.

Mas o cenário mudou. Já nos primeiros meses de 2001, começou

a ficar claro que a euforia com o setor de tecnologia nos EUA estava passando

e, com isso, as perspectivas de entradas de capitais no país, decorrentes de

inversões no setor de telecomunicações, ficaram comprometidas, sinalizando uma

trajetória mais desafiadora para o balanço de pagamentos. Em paralelo, o regime

de currency board argentino entrou em sua longa fase terminal, o que contribuiu

para pressionar o real. Em meio a dificuldades dentro da então coalizão

governista, a partir do segundo trimestre a economia passou a lidar com uma grave

crise energética. O atentado terrorista de 11 de setembro provocou grande, mas

temporária, volatilidade nos mercados. O ano terminou com crescimento muito

abaixo do esperado, 1,4%, e inflação em 7,7%. Diante da frustração, o

eleitorado dava mostras que queria mudanças – e o principal partido de oposição

se posicionava frontalmente contra o “tripé macroeconômico”, adicionando um

elemento de pressão sobre os ativos brasileiros.

Assim como 2001, 2017 também começou com expectativas

favoráveis. Predominava a visão que, com a continuidade da agenda reformista, e

a redução de prêmios de risco, a economia iria superar os danos da profunda

recessão de 2015-16, especialmente sobre o balanço das empresas, e voltaria a

crescer. O governo Temer tinha conseguido aprovar o limite constitucional ao

crescimento dos gastos públicos, em novembro do ano anterior, e o novo regime

fiscal seria consolidado com a aprovação da reforma da previdência. A crise

política que eclodiu em maio de 2017 inviabilizou tal aprovação e impediu uma

melhora das condições financeiras que impulsionasse de forma relevante a

economia. Dessa forma, o crescimento seguiu modesto (1,3%) e, pior, sem a tão

esperada aceleração ao longo do ano – o crescimento trimestral do PIB caiu de

1,0% para apenas 0,2%, em média, entre a primeira e a segunda metade do ano, e

o desemprego cedeu muito pouco. Nesse ambiente, não surpreende que o tema da

mudança e da rejeição ao passado recente, tenha predominado em 2018.

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A experiência eleitoral recente, ainda que estatisticamente limitada, parece sugerir que o desempenho econômico ao longo do ano pré-eleitoral pode ser fator crítico na determinação dos anseios, por mudança ou continuidade, predominantes no eleitorado. E esse desempenho econômico vai depender (tema para uma próxima coluna) de forma relevante do timing e efetividade do controle da pandemia – particularmente para a retomada de certas atividades no setor de serviços, que respondem por cerca de 40% do PIB. Os efeitos econômicos e político-eleitorais da covid-19 não devem se esgotar em 2020.

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