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As medidas de distanciamento social que foram tomadas para diminuir a propagação do vírus estão tendo efeitos complexos sobre os brasileiros, dependendo da sua ocupação antes da crise, raça e classe social. O auxílio emergencial atenuou partes desses efeitos, mas também tem seus problemas. Quais foram os efeitos da pandemia sobre a pobreza? Quem está recebendo o auxílio emergencial? Qual o comportamento recente do mercado de trabalho?
Para pintar um retrato mais fidedigno dos efeitos do auxílio
emergencial nas famílias brasileiras, é necessário comparar a sua situação
antes e depois da pandemia. Como grande parte das famílias entrevistadas
presencialmente pelo IBGE no primeiro trimestre de 2019 (Pnad-contínua) também
está sendo entrevistada agora por telefone pela Pnad-covid, podemos fazer
exatamente isso. O que mostram os resultados?
As políticas de auxílio terão que durar mais tempo, o que
vai deteriorar ainda mais as finanças públicas
Em primeiro lugar, os dados mostram que as famílias
entrevistadas pela Pnad-covid são bastante parecidas com a amostra original da
Pnad Contínua, apesar da amostra ser menor e um pouco menos pobre do que a
original. A figura ao lado, por exemplo, mostra o comportamento da pobreza nas
famílias chefiadas por brancos e por negros com e sem o auxílio emergencial. Os
dados mostram que a pobreza teria aumentado muito se não houvesse o auxílio,
tanto nas famílias chefiadas por negros como entre os brancos.
Sem o auxílio, a pobreza entre os negros teria passado de
17% para 30%, mas o programa fez com que ela se estabilizasse em torno de 20%.
Entre os brancos, a pobreza teria mais do que dobrado sem o auxílio, passando
de 7% para 16%, mas o programa a manteve em torno de 12%. Assim, diferentemente
da indigência, que diminuiu até mesmo com relação ao período anterior à crise,
a pobreza hoje em dia é maior do que no período pré-pandemia e continua maior
entre os negros, mas é bem menor do que seria na ausência do auxílio
emergencial.
Além disso, os dados mostram que 42% das famílias recebiam o
auxílio emergencial em junho, mas que somente 26% deveriam participar do
programa se as regras fossem rigorosamente aplicadas. Assim, 16% das famílias
brasileiras entrevistadas recebem as transferências indevidamente, pois têm
renda familiar maior que R$ 3.135. Isso mostra a necessidade de focalizar
melhor o programa usando as bases de dados do próprio governo.
Com relação ao mercado de trabalho, ao acompanharmos as
mesmas pessoas ao longo do tempo, podemos verificar que 22% das pessoas que
estavam ocupadas no 1º trimestre de 2019 estão sem trabalho atualmente. E que
essa taxa quase não se alterou entre maio e junho. Os mais afetados foram os
trabalhadores que estavam no setor informal, já que mais de 1/3 deles perderam
o emprego em 2020 como resultado da pandemia. Entre os formais, a queda foi de
15%. A perda de emprego foi maior entre os trabalhadores menos educados,
atingindo 29%. Já entre os mais educados (com ensino médio completo ou mais)
19% perderam o emprego que tinham antes da crise.
Vale notar que a taxa de desemprego no primeiro trimestre de
2019 já era de 12%. Se todos os trabalhadores que estavam procurando emprego na
época se juntarem aos 22% (aproximadamente) que perderam emprego esse ano e
todos passassem a procurar um emprego simultaneamente (entrassem na PEA),
teríamos uma taxa de desemprego de 29% (excluindo a porcentagem que arrumou
emprego entre 2019 e 2020). E se supusermos que apenas metade das pessoas que
perderam um trabalho com a crise encontrará emprego novamente, a taxa de
desemprego iria para 20%.
Com esses dados, é possível também entender a composição das
pessoas que recebem o auxílio emergencial. Entre os entrevistados pela
Pnad-covid que recebem o auxílio, 16% estavam ocupados em 2019 e perderam o
emprego em 2020, 39% estavam ocupados no ano passado e continuaram ocupados
esse ano, 36% não trabalhavam nem antes nem agora e 10% conseguiram emprego
esse ano, apesar da crise. Assim, apenas uma pequena parte dos recursos gastos
com o auxílio emergencial cumpriu sua função inicial, que era de proteger as
pessoas que perderam emprego durante a crise.
Uma parte substancial do auxílio acabou “vazando” para
pessoas que não precisavam dele, que tinham emprego antes da crise, continuam
empregados e têm uma renda familiar maior do que R$ 3.200. E uma parte
substancial do programa está ajudando os que já eram pobres, já que o programa
bolsa-família é insuficiente para eliminar a pobreza, pois não alcança 1/3 das
famílias extremamente pobres e tem um valor muito pequeno. Assim, como já era
previsto, o governo Bolsonaro está recebendo os créditos por ter implementado o
programa e tirado milhões de famílias da pobreza, mesmo que não tenha sido
responsável pela ideia original.
Em suma, a duração dos impactos da pandemia sobre a economia
brasileira irá depender fundamentalmente de quando as pessoas retomarão seus
hábitos de consumo e lazer, o que só irá acontecer quando as mortes em virtude
da doença diminuírem de forma consistente. Como não tivemos uma ação coordenada
e incisiva no início da crise, a duração da pandemia no Brasil será maior do
que em outros países e, consequentemente, os efeitos sobre a economia também
serão maiores. E as políticas de auxílio terão que durar mais tempo, o que vai
deteriorar ainda mais as finanças públicas.
Por fim, é necessário redesenhar o programa bolsa-família, aumentando a sua cobertura e o valor transferido para as famílias com crianças, para tornarmos as oportunidades mais iguais a partir dessa geração e possamos aumentar nossa produtividade no futuro.
Fonte: Valor Econômico
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
