Auxílio, populismo e a falácia do 10 x 0

CDPP

Luis Stuhlberger e Daniel Leichsenring

Brazil Journal (publicado em 26/10/2021)

“Entre a desonra e a guerra, escolha a desonra, e terá a guerra.”

A frase, que Churchill cunhou para comentar o Acordo de Munique, poderia

ser empregada agora para descrever a disputa entre as alas política e econômica

do governo Bolsonaro.

O Ministro da Economia subscreveu o acordo político de acabar com o Teto

de Gastos, o que levou a uma debandada de técnicos sérios e comprometidos com o

equilíbrio fiscal, desejosos de preservar sua honra.

Já o ministro escolheu a desonra, e ainda enfrentará a guerra contra a

ala política, ela mesma responsável por negociar a PEC do Fim do Teto (isto é,

dos Precatórios) no Congresso, que pressionará por mais auxílios, mais emendas

parlamentares, mais desoneração, mais fundo eleitoral… sempre adicionando um

novo e ‘inadiável’ vagão à caravana da gastança desenfreada.


Instado a se justificar, o Ministro contrapôs o Teto à Política Social e

sugeriu que o primeiro é a antítese da segunda — uma tese para lá de falaciosa

e que atenta contra o bom senso.

Cumpre-nos o dever de resgatar um pouco o histórico (e a racionalidade), e enumerar as consequências nefastas da desconstrução do Teto proposta pelo Ministério da Economia.

Como se sabe, o Teto foi uma das maiores reformas econômicas dos últimos 20 anos, promulgado em 2016 pelo Governo Temer como uma resposta à catástrofe econômica e social que resultou da total irresponsabilidade fiscal (e corrupção) do governo petista, gestada nos anos Lula e levada ao extremo no governo Dilma.

Como se vê no gráfico abaixo, a recessão do governo Dilma foi simplesmente a pior de que se tem registro nos 120 anos de dados.

Nos dois anos que durou, a recessão fez a economia contrair 6,7%, praticamente o dobro de qualquer outra recessão pela qual o País passara, só semelhante à crise de 1929. Do 4º trimestre de 2014 ao 4º trimestre de 2016, o PIB caiu 7,2%. Para comparar o tamanho dos desastres: na pandemia, tomando os anos de 2020 e 2021, o PIB terá crescimento próximo de zero.

Fontes: IPEA, Verde Asset


No mercado de trabalho, saímos de uma taxa de desemprego de 6,7% em meados de 2014 para 13% em meados de 2017. Fazendo um exercício simples, concluímos que a recessão subtraiu R$ 780 bilhões (algo como R$ 135 bi/ano) da renda do trabalho recebida pela sociedade.

Fontes: IBGE, Verde Asset

Esse exercício simples parece suficiente para comprovar que a

irresponsabilidade fiscal teve, tem e sempre terá efeitos brutais sobre a renda

das famílias, jogando-as na pobreza.

Foi neste contexto que surgiu o Teto de Gastos, para evitar que o

populismo voltasse a impactar os brasileiros com suas consequências perversas.

Medidas populistas são aquelas tomadas para dar algum benefício localizado,

momentâneo — em geral eleitoral e claramente insustentável — que terá de ser

corrigido adiante, usualmente da pior maneira possível, com efeito desproporcional

sobre os mais pobres.


Entendemos quão dramática é a situação social do país.

A pandemia custou muito mais vidas do que seria razoável e jogou muita

gente na miséria. Para completar o quadro, as medidas fiscais tomadas desde

2020 aumentaram a insegurança sobre a sustentabilidade da dívida, fazendo com

que o câmbio tivesse uma desvalorização acentuada no período.

De janeiro de 2020 até hoje, o Real perdeu 38% do seu valor diante do

Dólar, enquanto as moedas do México, África do Sul e Índia, por exemplo,

perderam em média apenas 5,7%.

Com isso, tivemos uma aceleração brutal da inflação de alimentos. Sim, a

inflação tem sido um fenômeno global, mas aqui a intensidade é muito agravada

pelos nossos problemas. Se o País não tivesse gastado tanto antes, certamente

teria mais espaço agora.


O auxílio emergencial foi pensado para compensar a queda de renda das famílias

em consequência da pandemia e do fechamento de diversos setores da economia.

Passamos períodos duríssimos, mas, felizmente, todas as métricas relacionadas à

covid estão muito melhores agora, com o avanço da vacinação. Novos casos,

hospitalizações e positividade dos testes estão em queda. Apesar do atraso

inacreditável no contrato das vacinas (e das fake news patrocinadas pelo

Planalto), o brasileiro abraçou a vacinação.


Restam poucas restrições sobre a atividade econômica no Brasil. Os indicadores

de mobilidade mostram que o comportamento das pessoas voltou a algo próximo do

pré-pandemia. Com isso, a justificativa para a renovação do auxílio emergencial

ficou mais difícil, apesar do legado negativo da pandemia, porque não é

objetivo do auxílio emergencial acabar com a pobreza estrutural, mas sim atuar

de maneira temporária enquanto os efeitos da pandemia eram muito fortes. Não

obstante, o momento é de extrema angústia social, e, portanto, concordamos com

a necessidade de se estender uma assistência maior por mais tempo, dado que

vários aspectos da vida seguem ainda distantes do normal.

Mas solapar o Teto de Gastos é a pior maneira de fazê-lo.

No final, o Teto não é um instrumento que se opõe ao gasto social. Pelo

contrário. O Teto força o Congresso e o Executivo a avaliarem onde faz sentido

gastar mais, garantindo que políticas populistas não venham a ser implementadas

em larga escala, reduzindo o risco de catástrofes como a Depressão de

2014-2016.

Dito de outra maneira, essa história de “fiscal nota 10” contra “social

nota 0” é falaciosa e, pior, apenas dá justificativa para qualquer populismo

feito em nome do social, ainda que a conta acabe muito mais salgada do que o

benefício, como de costume.


O benefício médio do Bolsa Família está próximo de R$ 190, e não vê reajuste

desde junho de 2018. Do último reajuste do BF até o fim de 2021, o IPCA

acumulado deve ficar pouco acima de 20%. A reposição da inflação deveria levar

o benefício para perto de R$ 225.

Porém, a cesta básica teve aumento de 56% entre junho/18 e set/21, e

provavelmente terminará o ano com um aumento próximo a 60%. A correção dos

valores para acompanhar a cesta básica deveria levar o Bolsa Família a algo

como R$ 290.


A solução correta para o problema estrutural da extrema pobreza teria sido

focalizar os gastos públicos em favor do Bolsa Família, mas o governo abandonou

qualquer proposta neste sentido. A triste realidade é que, do orçamento federal

de R$ 1,646 trilhão para 2022, não se consegue remanejar R$ 50 bi para

incrementar o gasto social.

Ao mesmo tempo, diversos segmentos da sociedade recebem R$ 370 bilhões

ao ano de subsídios (gastos tributários). Há um orçamento de trilhão e um

volume inacreditavelmente grande de subsídios e desonerações para grupos

específicos, mas nenhuma vontade política de fazer reformas que permitiriam um

gasto social muito mais robusto e sustentável.


A regra no Brasil é: grupos de interesse com mobilização política no Congresso

conseguem obter para si uma soma vultosa de recursos — que é paga por todos

(proporcionalmente mais pelos mais pobres).

Dentre esses grupos, um dos que mais extrai recursos é a classe

política, que agora comanda um pedaço relevante do orçamento via emendas

parlamentares, fundos partidário e eleitoral, e advoga por mais gastos sociais

— válidos apenas para o ano eleitoral.

Para eles, é melhor mesmo que seja temporário, a ser renovado apenas em

caso de reeleição. Para esses políticos, sempre de olho em extrair recursos e

“narrativas” para reeleições sucessivas, não importa que a irresponsabilidade

fiscal vá custar às famílias milhões de empregos e perda de renda.

Em seu cálculo político, talvez seja até melhor que a sociedade

permaneça paupérrima, de forma que possam garantir suas reeleições com

infinitos programas de auxílio.


Infelizmente, a memória brasileira é curtíssima.

A irresponsabilidade fiscal causou a maior recessão de que se tem

registro no Brasil há apenas cinco anos, mas já foi devidamente

esquecida (como também parecem ter sido esquecidos os maiores esquemas de

corrupção que o País já testemunhou).

Acabar com o Teto agora é o primeiro passo para retornarmos a esse

caminho. Diante dessa situação, pressionado pela “ala política”, o governo

resolveu jogar na lata do lixo a Emenda do Teto.

A ala econômica, representada pelos técnicos demissionários, se retirou,

mas a ala política ganhou um integrante na chefia do ministério da Economia,

que agora justifica e aprova o fim do Teto. A consequência será desastrosa para

o país: teremos inflação e taxas de juros mais altas, crescimento mais baixo,

trajetória de dívida pior, e aumento de impostos adiante para pagar pelas

escolhas de hoje.

Será um ciclo vicioso: mais inflação, menor crescimento e juros mais

altos, levando à “necessidade” de mais gasto público…


O correto teria sido aprovar a extensão de um Auxílio Emergencial menor para

2022, na linha da menor necessidade dada pelo controle da pandemia. Em 2020, o

Tesouro gastou R$ 293 bilhões com o Auxílio Emergencial, num total de medidas extra-teto

de R$ 524 bi efetivamente desembolsados.

Em 2021, até hoje, foram pagos R$ 60,5 bilhões de AE e um total de R$

107 bi relacionados à covid. Se gastássemos R$ 50 bi a mais em 2022, desde que

temporário e sem mexer no arcabouço fiscal, seria muito menos danoso.

Não jogaríamos fora as instituições fiscais que nos custaram tanto para

construir, manteríamos o Teto, e evitaríamos esse desequilíbrio geral a que

assistimos agora.

Ainda dá tempo de tentar voltar atrás e evitar essa mudança do Teto. Não será fácil, mas talvez a pasta de dente volte para dentro do tubo.

Link da publicação: https://braziljournal.com/opiniao-auxilio-populismo-e-a-falacia-do-10-x-0

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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