NEXO (publicado em 17/06/2021)
ENQUANTO NOS APROXIMAMOS DE MEIO MILHÃO DE MORTES PELA COVID-19, ACUMULAM-SE EVIDÊNCIAS DE RETROCESSOS INSTITUCIONAIS GRAVES, DILIGENTEMENTE URDIDOS E ARMADOS PARA MINAR AS BASES DA DEMOCRACIA
Há intrincada inter-relação entre o surto pandêmico descontrolado que
estamos vivendo e os ataques contínuos às instituições democráticas no país.
Enquanto nos aproximamos de meio milhão de mortes pela covid-19, com morosidade
inaceitável na vacinação da população, acumulam-se evidências de retrocessos
institucionais graves, diligentemente urdidos (e armados) para minar as bases
da democracia e garantir a permanência de Bolsonaro no poder.
A epidemia dificulta a reação da sociedade e gera grandes contingentes
de perdedores, que vão desde os pequenos e médios empresários de setores mais
afetados pelo afastamento social, até os mais de 27 milhões que estão
desempregados, ou desalentados, ou subocupados. Manipular esse descontentamento
através da insistência em mentiras, do estímulo à desobediência às regras e do
incitamento à maior polarização, escancara o uso político da tragédia sanitária
que nos assola.
Não há dúvida sobre o tamanho do desafio que temos à nossa frente para
defender a democracia, mas desistir não é opção. Não é a primeira vez, e nem
será a última, que um país é colocado diante de situações dramáticas como a
nossa, e o avanço sobre as forças obscurantistas do passado se consolida tanto
através de ações individuais como coletivas.
A propósito, foi enriquecedor revisitar a história da longeva médica e cientista
italiana Rita Levi-Montalcini (1909-2012), um exemplo de resistência, sucesso e
lucidez. Passou pelos momentos mais monstruosos do século passado e, sendo
judia, foi perseguida pelas leis raciais (1938) de Mussolini e, durante a
Segunda Guerra, pelos nazistas. Salvou-se trocando de esconderijos em cidades e
vilas da Itália, mas nunca abandonou a sua paixão pela pesquisa científica,
tendo transformado seus sucessivos quartos, ou cozinhas, em laboratórios
improvisados.
A partir de ovos de galinha, mesmo escassos durante a guerra,
investigava a substância que controlava o crescimento de fibras nervosas em
embriões, pesquisa que nunca abandonou e que abriu o caminho para a compreensão
de doenças degenerativas, como o mal de Alzheimer e o câncer. Pelo seu trabalho
recebeu em 1986 o prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina junto com o bioquímico
Stanley Cohen. Foi nomeada senadora vitalícia da Itália em 2001, pela sua
atividade científica e social.
Ao fazer 100 anos, em entrevista, relatada no livro “Le italiane – Il
paese salvato dalle donne” (“As italianas – O país salvo pelas
mulheres”, em tradução livre) disse, em tom de brincadeira, que se a
política de Mussolini não a tivesse obrigado a ficar trancada em uma pequena
sala estudando, não teria ganhado o Nobel. Dizia que, mesmo tendo sido
considerada pelo Estado como pertencente a uma raça inferior, não guardava
rancor dos fascistas e nazistas, mas sim daquilo que eles haviam feito: o
extermínio dos judeus, a destruição da Alemanha e o despedaçamento da Itália.
Um belo exemplo de compaixão, tão necessária à superação da polarização e de
cancelamentos da nossa época.
Mesmo centenária, sua lucidez era invejável. Considerava positivo que as
crianças aprendessem a usar computador antes de ir à escola, mas se dizia
preocupada com o niilismo e a ausência de valores. “Não importa se alguém é
católico, judeu ou islâmico. Importa se tem noção dos valores e age de acordo
com eles.” Solteira a vida toda, usava uma aliança, que fora da sua mãe,
simbolizando seu casamento com a ciência. Um exemplo que fala por si em época
de negacionismo.
É importante lembrar, também, uma das conquistas que veio ao lado dos
horrores e da destruição da Segunda Guerra: as mulheres foram obrigadas a
substituir os homens na tarefa de fazer os países envolvidos funcionarem. Além
de cuidar dos filhos e das casas, algumas delas pegaram em armas na resistência
contra os nazistas, muitas dirigiram tratores nas fazendas, fizeram funcionar
as fábricas e o correio, e conduziram os trens. Conquistaram, assim, o direito
de participar do mercado de trabalho e de atuar na vida pública após a guerra.
Não está claro o que a pandemia e o pandemônio político que vivemos nos
ensinarão, mas é pernicioso imaginar que o sofrimento será eterno. Para
amadurecer como nação e avançar no processo civilizatório, precisamos cuidar
das nossas instituições democráticas e enfrentar nossas contradições culturais,
estas tão bem exploradas pelo professor Roberto DaMatta no livro “Você sabe com
quem está falando?” (Rocco, 2020).
De que modo promover justiça e igualdade em uma sociedade avessa ao
cumprimento das leis – quem manda não obedece – e que, na prática, se comporta
como se castas existissem – você sabe com quem está falando? Mostramos ao
mundo, com orgulho, o nosso lado cordial, alegre, acolhedor. Mas apesar dos
beijinhos distribuídos com generosidade, o comportamento autoritário não é
reconhecido, vai para baixo do tapete. Emerge sempre que surge uma fila, uma
estrada congestionada, alguém que não entende o código e trata de maneira igual
quem se sente superior. Meritocracia em cargos públicos? Não, a ambiguidade
ética corrói o princípio da impessoalidade. Políticos presos? Só por acaso!
Para evitar acidentes existe o foro privilegiado (o nome diz tudo), e as quatro
instâncias de julgamento, oferecendo “justiça sob medida” através de labirintos
só acessíveis a quem pode pagar bons advogados. Enquanto houver essa alergia à
igualdade a democracia corre risco.
No passado acreditava-se que traços culturais teriam grande persistência
entre gerações, sendo quase impossível alterá-los. No entanto, a literatura
mais recente indica não haver subordinação e sim interação entre cultura e
instituições. Em trabalho recente, Daron Acemoglu e James Robinson mostram que
a cultura pode ser mais fluida, adaptando-se mais do que pensava a novas
realidades e a alterações institucionais. Pode mudar por influência de
movimentos migratórios, de mudanças tecnológicas, econômicas, políticas, etc.
É provável que uma pandemia como a que vivemos também provoque alterações em hábitos e crenças, mas é preciso cuidado para não regredirmos aos tempos das cavernas. Como observou a centenária Dama das Células, Rita Levi-Montalcini: “nos momentos de progresso, as pessoas usam mais a componente racional do cérebro. Nos momentos mais sombrios, como os de ditaduras, prevalece a componente arcaica, límbica, que não evoluiu e permaneceu a mesma do período australopiteco. Cabe a cada um de nós decidir qual parte do cérebro utilizar, e quais oportunidades escolher entre tantas que nos são oferecidas”. Só o fortalecimento da ética democrática nos livrará das sombras do autoritarismo.
Link da publicação: https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2021/Brasil-entre-castas-e-beijos-o-autoritarismo-segue-ignorado
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