Brasil: entre castas e beijos, o autoritarismo segue ignorado

Cristina Pinotti

NEXO (publicado em 17/06/2021)

ENQUANTO NOS APROXIMAMOS DE MEIO MILHÃO DE MORTES PELA COVID-19, ACUMULAM-SE EVIDÊNCIAS DE RETROCESSOS INSTITUCIONAIS GRAVES, DILIGENTEMENTE URDIDOS E ARMADOS PARA MINAR AS BASES DA DEMOCRACIA

Há intrincada inter-relação entre o surto pandêmico descontrolado que

estamos vivendo e os ataques contínuos às instituições democráticas no país.

Enquanto nos aproximamos de meio milhão de mortes pela covid-19, com morosidade

inaceitável na vacinação da população, acumulam-se evidências de retrocessos

institucionais graves, diligentemente urdidos (e armados) para minar as bases

da democracia e garantir a permanência de Bolsonaro no poder.

A epidemia dificulta a reação da sociedade e gera grandes contingentes

de perdedores, que vão desde os pequenos e médios empresários de setores mais

afetados pelo afastamento social, até os mais de 27 milhões que estão

desempregados, ou desalentados, ou subocupados. Manipular esse descontentamento

através da insistência em mentiras, do estímulo à desobediência às regras e do

incitamento à maior polarização, escancara o uso político da tragédia sanitária

que nos assola.

Não há dúvida sobre o tamanho do desafio que temos à nossa frente para

defender a democracia, mas desistir não é opção. Não é a primeira vez, e nem

será a última, que um país é colocado diante de situações dramáticas como a

nossa, e o avanço sobre as forças obscurantistas do passado se consolida tanto

através de ações individuais como coletivas.

A propósito, foi enriquecedor revisitar a história da longeva médica e cientista

italiana Rita Levi-Montalcini (1909-2012), um exemplo de resistência, sucesso e

lucidez. Passou pelos momentos mais monstruosos do século passado e, sendo

judia, foi perseguida pelas leis raciais (1938) de Mussolini e, durante a

Segunda Guerra, pelos nazistas. Salvou-se trocando de esconderijos em cidades e

vilas da Itália, mas nunca abandonou a sua paixão pela pesquisa científica,

tendo transformado seus sucessivos quartos, ou cozinhas, em laboratórios

improvisados.

A partir de ovos de galinha, mesmo escassos durante a guerra,

investigava a substância que controlava o crescimento de fibras nervosas em

embriões, pesquisa que nunca abandonou e que abriu o caminho para a compreensão

de doenças degenerativas, como o mal de Alzheimer e o câncer. Pelo seu trabalho

recebeu em 1986 o prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina junto com o bioquímico

Stanley Cohen. Foi nomeada senadora vitalícia da Itália em 2001, pela sua

atividade científica e social.

Ao fazer 100 anos, em entrevista, relatada no livro “Le italiane – Il

paese salvato dalle donne” (“As italianas – O país salvo pelas

mulheres”, em tradução livre) disse, em tom de brincadeira, que se a

política de Mussolini não a tivesse obrigado a ficar trancada em uma pequena

sala estudando, não teria ganhado o Nobel. Dizia que, mesmo tendo sido

considerada pelo Estado como pertencente a uma raça inferior, não guardava

rancor dos fascistas e nazistas, mas sim daquilo que eles haviam feito: o

extermínio dos judeus, a destruição da Alemanha e o despedaçamento da Itália.

Um belo exemplo de compaixão, tão necessária à superação da polarização e de

cancelamentos da nossa época.

Mesmo centenária, sua lucidez era invejável. Considerava positivo que as

crianças aprendessem a usar computador antes de ir à escola, mas se dizia

preocupada com o niilismo e a ausência de valores. “Não importa se alguém é

católico, judeu ou islâmico. Importa se tem noção dos valores e age de acordo

com eles.” Solteira a vida toda, usava uma aliança, que fora da sua mãe,

simbolizando seu casamento com a ciência. Um exemplo que fala por si em época

de negacionismo.

É importante lembrar, também, uma das conquistas que veio ao lado dos

horrores e da destruição da Segunda Guerra: as mulheres foram obrigadas a

substituir os homens na tarefa de fazer os países envolvidos funcionarem. Além

de cuidar dos filhos e das casas, algumas delas pegaram em armas na resistência

contra os nazistas, muitas dirigiram tratores nas fazendas, fizeram funcionar

as fábricas e o correio, e conduziram os trens. Conquistaram, assim, o direito

de participar do mercado de trabalho e de atuar na vida pública após a guerra.

Não está claro o que a pandemia e o pandemônio político que vivemos nos

ensinarão, mas é pernicioso imaginar que o sofrimento será eterno. Para

amadurecer como nação e avançar no processo civilizatório, precisamos cuidar

das nossas instituições democráticas e enfrentar nossas contradições culturais,

estas tão bem exploradas pelo professor Roberto DaMatta no livro “Você sabe com

quem está falando?” (Rocco, 2020).

De que modo promover justiça e igualdade em uma sociedade avessa ao

cumprimento das leis – quem manda não obedece – e que, na prática, se comporta

como se castas existissem – você sabe com quem está falando? Mostramos ao

mundo, com orgulho, o nosso lado cordial, alegre, acolhedor. Mas apesar dos

beijinhos distribuídos com generosidade, o comportamento autoritário não é

reconhecido, vai para baixo do tapete. Emerge sempre que surge uma fila, uma

estrada congestionada, alguém que não entende o código e trata de maneira igual

quem se sente superior. Meritocracia em cargos públicos? Não, a ambiguidade

ética corrói o princípio da impessoalidade. Políticos presos? Só por acaso!

Para evitar acidentes existe o foro privilegiado (o nome diz tudo), e as quatro

instâncias de julgamento, oferecendo “justiça sob medida” através de labirintos

só acessíveis a quem pode pagar bons advogados. Enquanto houver essa alergia à

igualdade a democracia corre risco.

No passado acreditava-se que traços culturais teriam grande persistência

entre gerações, sendo quase impossível alterá-los. No entanto, a literatura

mais recente indica não haver subordinação e sim interação entre cultura e

instituições. Em trabalho recente, Daron Acemoglu e James Robinson mostram que

a cultura pode ser mais fluida, adaptando-se mais do que pensava a novas

realidades e a alterações institucionais. Pode mudar por influência de

movimentos migratórios, de mudanças tecnológicas, econômicas, políticas, etc.

É provável que uma pandemia como a que vivemos também provoque alterações em hábitos e crenças, mas é preciso cuidado para não regredirmos aos tempos das cavernas. Como observou a centenária Dama das Células, Rita Levi-Montalcini: “nos momentos de progresso, as pessoas usam mais a componente racional do cérebro. Nos momentos mais sombrios, como os de ditaduras, prevalece a componente arcaica, límbica, que não evoluiu e permaneceu a mesma do período australopiteco. Cabe a cada um de nós decidir qual parte do cérebro utilizar, e quais oportunidades escolher entre tantas que nos são oferecidas”. Só o fortalecimento da ética democrática nos livrará das sombras do autoritarismo.

Link da publicação: https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2021/Brasil-entre-castas-e-beijos-o-autoritarismo-segue-ignorado

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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