Como aumentar os custos de uma pandemia

Cristina Pinotti

Ao ignorar as

recomendações da ciência, o governo brasileiro trabalha sistematicamente para

agravar o impacto humano e financeiro da crise

Não há pandemia sem

mortes assim como não há pandemia sem custos econômicos. O papel de um bom

governo é reduzir tanto o número de mortes como o tamanho da recessão que

acompanha a tragédia sanitária. Infelizmente, ao ignorar as recomendações da

ciência e defenestrar dois ministros da Saúde em meio à pandemia, o governo

brasileiro está caminhando para aumentar o número de mortes e a profundidade e

a duração da recessão. É o pior dos dois mundos. A insistência em testar

continuamente os limites das instituições democráticas, que levou à demissão de

Sergio Moro, e a guinada em busca de apoio a qualquer preço nas figuras mais

sombrias do Congresso indicam que o custo político de tamanha incompetência

pode se tornar insuportável.

Primeiro, olhando a

evolução das mortes provocadas pelo novo coronavírus no mundo é possível

identificar alguns padrões. Em um extremo estão os Estados Unidos, onde o pico,

com 2.100 mortes por dia, foi atingido em 40 dias a partir dos primeiros casos

(os números citados no texto referem-se a médias móveis de 7 dias calculadas

pelo jornal Financial Times). Depois de 25 dias em desaceleração, a média ainda

está em torno de 1.400 mortes por dia.

Um segundo grupo é formado pela Itália, França, Espanha e Reino Unido, em que o pico de mortes variou entre 820 pessoas por dia na Itália e 940 no Reino Unido, atingidos em torno de 30 dias a contar dos primeiros registros. No momento, depois de dois meses, o número de mortes na Itália já caiu 80%, e no Reino Unido, passado pouco mais de um mês a partir do pico, a queda é de 40%. Até agora, todos os demais países, exceto o Brasil, tiveram picos de mortes diárias inferiores a 250 por dia, sendo que a Coreia do Sul, a Nova Zelândia e a Austrália despontam como os países com menor número de óbitos, fruto de medidas de isolamento social precoce.

Infelizmente, o caso brasileiro se destaca como uma anomalia entre mais de meia centena de países analisados. Em torno de 21 de abril, 30 dias depois dos primeiros óbitos, a curva parecia estar se estabilizando com cerca de 170 óbitos por dia — um desempenho melhor que o ocorrido na Bélgica ou na Alemanha, e próximo do observado na China, no Canadá e na Holanda. A partir de então o número de mortes por dia voltou a crescer, chegando a 816 no dia 19 de maio, sem sinais de estabilização. Há indícios de que o México, a Índia e a África do Sul estejam seguindo um padrão semelhante, embora com ritmos mais lentos de crescimento. É notável o desempenho da Argentina, que vem mantendo a média de 5 a 10 mortes por dia, e o do Chile, com mortes oscilando entre 10 e 20 por dia.

Em vários países, erros foram cometidos nos primeiros meses da pandemia,

mas a grande maioria deles foi corrigida com rapidez. Boris Johnson,

inicialmente contrário às medidas de afastamento social, curvou-se às

evidências e mudou a estratégia. Na Itália, o prefeito de Milão se desculpou

publicamente por haver apoiado manifesto feito pela associação de bares e

restaurantes da região cujo tema era “Milão não para”. Não foi esta a razão que

levou a Lombardia a registrar a metade das mortes pela covid-19 no país, mas

sem dúvida ajudou a reduzir o apoio público às regras de distanciamento,

levando o sistema de saúde ao colapso. O governador do estado e o prefeito de

Nova York também se desculparam por terem menosprezado a gravidade do fenômeno

e desde então vêm tendo importante papel na gestão da crise.

O Brasil começou a enfrentar bem a pandemia, mas perdeu o rumo com a

saída do ministro Luiz Henrique Mandetta, vítima da sua elevada popularidade e

competência. Ainda era cedo para relaxar as medidas de distanciamento social,

como defende Bolsonaro, e com a confusão criada vamos demorar mais para atingir

o pico de contágio e para adotar estratégias de saída. O esgotamento da

capacidade do sistema de saúde no Amazonas, Pará, Santa Catarina, Rio de Janeiro

e São Paulo indica que regras mais rígidas de isolamento terão de ser adotadas.

O resultado será mais mortes e maior tempo em isolamento, o que piora a

situação econômica.

As medidas de restrição ao funcionamento de setores não essenciais

provocam custos econômicos gigantescos, como evidenciam as projeções do tamanho

da recessão que já estamos vivendo. A rápida evolução da pandemia tornou

otimistas as projeções feitas há poucas semanas pelo FMI (Fundo Monetário

Internacional), e hoje parece mais razoável esperar no Brasil uma queda do PIB

da ordem de 8%. No caso do Reino Unido, a estimativa era de queda de 6,5% no

PIB neste ano, mas o Bank of England divulgou, há poucos dias, previsão de

queda de 14%, a maior em três séculos. São todos números precários, alguns dos

países mais afetados estão agora em meio a programas de normalização da

atividade, como a Itália, mas ainda há muita incerteza pela frente.

Apesar do tamanho da crise econômica e social, a popularidade da grande

maioria dos chefes de Estado aumentou durante os esforços para combater a

pandemia. Entre janeiro e maio, os aumentos mais expressivos ocorreram nos

índices de popularidade dos primeiros ministros do Reino Unido, Boris Johnson

(de 42% para 66%), da Alemanha, Angela Merkel (de 69% para 83%), da Itália,

Giuseppe Conte (de 39% para 50%). Efeito semelhante ocorreu na América Latina,

com os presidentes da Argentina, Alberto Fernández (de 50% para 67%), e do

Chile, Sebastián Piñera (de 11% a 25%). A atitude comum a todos esses chefes de

Estado foi assumir a liderança do programa de isolamento social para reduzir o

contágio e garantir que empresas e indivíduos recebam assistência do governo. A

popularidade de Donald Trump permaneceu estável em 43%, fruto da sua atitude

errática, e a de Bolsonaro caiu (de 35% para 27%).

A pandemia atingiu o país em meio a uma situação fiscal frágil, com crescimento lento e enorme desigualdade de renda. O esforço fiscal adotado para enfrentá-la é significativo, da ordem de 5% do PIB, que aliado à queda das receitas deve levar a um aumento da dívida pública de 76% em 2019 para 90% em 2020. Devido à ausência de liderança no enfrentamento da crise, no lugar de se sentirem amparadas pelo governo, as pessoas são insistentemente alertadas pelo presidente de que o caos está próximo se todos não voltarem a trabalhar, mesmo que isso lhes custe a vida. Impossível saber qual será o custo desse erro, tanto em relação ao número de vidas perdidas, quanto do ponto de vista da capacidade de governar de um presidente cada vez mais isolado, cercado de militares e apoiado apenas por seus seguidores mais radicais. Isto eleva as incertezas sobre a capacidade de Paulo Guedes ter sucesso em manter a agenda de reformas, retornando ao teto de gastos após o fim da emergência sanitária. O centrão, cada vez com mais poder, anula os esforços fiscais. Confunde gastos necessários para combater a pandemia com corrupção e irresponsabilidade fiscal. É inevitável perguntar: quem investiria no Brasil, cujo governo atua sistematicamente para aumentar os custos de uma pandemia?

Fonte: Nexo Jornal

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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