Condições para a convergência

Mario Magalhães Carvalho Mesquita

Valor (publicado em 03/01/2022)

O aumento de gastos públicos tipicamente implementado no Brasil tende a apreciar a taxa de câmbio real

Em coluna anterior, registrei o pífio desempenho da economia

brasileira nos últimos 50 anos, que confirma um padrão histórico pouco

encorajador, que vem sendo observado desde a independência, com um interregno

dinâmico em parte do século passado.

O objetivo aqui é ampliar o foco, e considerar os casos de

sucesso, isto é, as economias que conseguiram, nas últimas décadas, sair da

renda média e alcançar patamar de ingresso mais próximo (em alguns casos

superior) ao observado nos EUA.

Política fiscal frouxa e monetária apertada contribui

para apreciar a moeda, e desincentiva o comércio exterior

É claro que classificar uma economia como “desenvolvida” ou

“avançada” é algo que abrange várias dimensões, mas para os propósitos desta

coluna, vou estabelecer, de forma arbitrária, que convergência significa

atingir um nível de renda per capita de pelo menos 60% daquele observado na

economia americana.

Utilizando os dados da Penn World Table (PWT), fica claro

que, desde 1950, houve duas ondas de convergência. A primeira foi caracterizada

pelo avanço de diversas economias europeias, que haviam sofrido as consequências

destrutivas da Segunda Guerra Mundial.

A segunda, desde 1980, foi centrada na Ásia, com a ascensão

de várias economias abertas – Cingapura, Coreia do Sul, Hong-Kong e Taiwan –

bem como economias europeias que se beneficiaram da entrada na então

Comunidade, nomeadamente Espanha e Irlanda. A América Latina não está

representada nesse clube.

A lista dos países que convergiram sugere o tamanho do

desafio enfrentado pela economia brasileira, se quisermos avançar efetivamente

na rota da convergência. Em primeiro lugar, geografia importa. As manchas de

riqueza se espalharam, nas últimas décadas, a partir do núcleo europeu, na

medida em que economias emergentes do continente foram integradas nos mercados

de bens, trabalho e capital da região. Esse processo beneficiou os países

ibéricos e a Irlanda, e poderá ter efeito semelhante nos países da Europa

central e do leste nas próximas décadas.

O enriquecimento por integração geográfica não parece ser

uma alternativa para o caso brasileiro. Nossos vizinhos não são tão afluentes,

e tampouco crescem muito, além de serem economias menores. Mas essa não é a

única possibilidade. O outro caminho é o enriquecimento através do comércio,

como as economias da Ásia. Para tanto, é preciso estar disposto a criar

condições para a inserção do país nas correntes de comércio e produção

internacionais, a partir da abertura econômica. Vale notar, que em 1980 as

citadas economias já eram mais abertas que o Brasil – na Coreia do Sul, por

exemplo, o comércio exterior equivalia a 66% do PIB, ante 20% no caso

brasileiro (ou 54% e 15%, respectivamente, se excluirmos combustíveis). Essas

economias puderam, assim, se beneficiar da globalização.

Enquanto isso, escolhas de política comercial levaram o

Brasil a se manter isolado, uma economia introvertida, com elos tênues com as

principais cadeias produtivas globais. Na década passada, o país optou por

“aprofundar” o Mercosul, em vez de apoiar a área de livre comércio das Américas

(Alca) – um mercado potencial várias vezes maior. Apenas recentemente chegamos

a um acordo de livre comércio com a Comunidade Europeia, mas sua ratificação

por certos países europeus é duvidosa.

Além da política comercial, aspectos da política econômica

doméstica também contribuíram para manter nossa economia introvertida. A

combinação de gastos públicos em crescimento forte e praticamente ininterrupto

(ao ritmo de 6% ao ano além da inflação entre 1997 e 2016), com segmentação do

mercado de crédito, caracterizado por amplos subsídios a setores e empresas

selecionadas, obrigou a autoridade monetária a manter taxas de juros elevadas

para o padrão internacional, com vistas a tentar, nem sempre com sucesso,

atingir as metas para a inflação. Todo o resto constante, o mix de política

fiscal frouxa e monetária apertada contribui para a apreciação da moeda,

desincentivando o comércio exterior.

Vale notar que a política fiscal pode afetar o preço

relativo dos itens comercializáveis sobre os não comercializáveis diretamente.

Um resultado geralmente aceito na literatura econômica é que aumento de gasto

público, notadamente consumo e transferências, tende a elevar o preço relativo

dos itens não transacionáveis, o que atrai recursos para essas atividades e,

consequentemente, contribui para atrofiar o setor comercializável. O resultado

é menos claro se o aumento for apenas no investimento, mas investimento do

setor público não tem sido a prioridade nas últimas décadas. Em suma, o aumento

de gastos públicos tipicamente implementado por aqui tende a apreciar a taxa de

câmbio real.

A abertura da economia não é garantia de aceleração de crescimento, mas parece ser condição necessária para tanto. Uma política comercial historicamente defensiva e tímida, e políticas econômicas domésticas que geram viés de apreciação do câmbio real, são obstáculos que o país em tese precisaria superar, se quiser voltar a crescer de forma sustentada.

Link da publicação. https://valor.globo.com/opiniao/coluna/condicoes-para-a-convergencia.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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