Corredor estreito, tempo curto

Pedro Malan

Podemos estar escrevendo a crônica de um fim de linha preanunciado

“A função intelectual exercita-se sempre por

antecipação (sobre

o que poderia

acontecer) ou 

com atraso (sobre o

que ocorreu); 

raramente sobre o que

está 

acontecendo, por

razões de ritmo, pois os eventos são sempre 

mais rápidos e

prementes do que 

as reflexões sobre os

mesmos”

Umberto Eco

As palavras de Eco

retêm especial relevância e atualidade à luz do que está a acontecer no mundo e

no Brasil da pandemia. Estamos em meio ao mais severo choque global dos últimos

75 anos. Os impactos, diretos e indiretos, da covid-19 estarão conosco muito

além deste dramático ano de 2020, e não ficarão restritos a questões de saúde

pública.

A pandemia criou

problemas econômicos e sociais, derivados de choques negativos simultâneos da

oferta e da demanda que se reforçaram mutuamente em infernal círculo vicioso.

Perderam-se dezenas de milhões de empregos, é inédita a contração da atividade

econômica, elevaram-se em escala global os níveis de pobreza, vulnerabilidade e

desigualdade.

“Quando chegaremos ao

pós-covid?” é a pergunta que se ouve com frequência. Não é, lamentavelmente,

pergunta muito apropriada. Não há “novo normal” no horizonte. O curso da

História nada tem de normal, sempre esteve pleno de peripécias, instabilidades

e surpresas. Quando medicamentos eficazes tiverem surgido, vacinas aprovadas e

aplicadas em bilhões de pessoas – mesmo então, e muito além, estaremos a falar

do “mundo pós-covid” para designar o que se tenha seguido a 2020. Ano em que,

além da pandemia, e por causa dela, se exacerbaram tendências preexistentes.

Em particular no que

diz respeito ao crescente descontentamento com a globalização, que a crise de

2008-2009 fez eclodir de forma contundente. Descontentamento com os efeitos dos

avanços tecnológicos sobre o mercado de trabalho e o consequente agravamento da

percepção de excessiva desigualdade na distribuição de oportunidades. Essa tendência

é duradoura e continuará a exigir respostas econômicas e políticas dos governos

e, paradoxalmente, inescapável cooperação internacional. O mundo já é outro no

pós-2020 – e o Brasil também.

Nesta mesma página, o

sempre sereno Fernando Gabeira publicou artigo intitulado Beco sem saída

(2/10), no qual registra que “o que o Brasil precisa (…) os economistas do

governo não conseguem oferecer”. Cabe talvez acrescentar: o que o Brasil

precisa o governo, na sua disfuncionalidade, não consegue oferecer – a saber,

articulação e coordenação não só dentro do Executivo, como também deste com

lideranças do Congresso Nacional, para fazer avançar a agenda de interesse do

País; com uma visão que não contemple, sobretudo, a próxima eleição, mas as

próximas gerações. Estamos, neste outubro de 2020, em rota absolutamente

insustentável quanto à nossa situação fiscal, da qual a maioria ainda não

parece ter-se dado conta. Podemos estar escrevendo a crônica de um fim de linha

preanunciado, como num coro de tragédias de antanho.

A necessária correção

de rumos exige enorme esforço – que envolve análise de evidências, pensamentos

e ações coordenadas e que será preciso empreender ao longo dos próximos dois

anos. A interação da política com a economia, que sempre foi relevante, é particularmente

importante em crises graves como a que atravessamos. É preciso, com grande

sentido de urgência, conectar o presente com narrativa crível sobre o passado

e, mais importante ainda, com sinalização honesta sobre caminhos futuros. Há

escolhas difíceis a fazer, tão sérias quanto inescapáveis. 

É estreito, cada vez

mais estreito, o corredor para opções e saídas. Exemplos alentadores do que

seria possível fazer para alargá-lo nos trouxe o debate (6/10) que reuniu Paulo

Hartung, Arminio Fraga e Marcelo Trindade, por ocasião do lançamento do

excelente livro de Trindade O Caminho do Centro: memórias de uma aventura

eleitoral. Imperdível conversa sobre o que aconteceu, o que poderia acontecer e

o que está acontecendo no Brasil de hoje. 

As palavras de Eco em

epígrafe neste artigo vêm de um texto do livro Cinco Escritos Morais, no qual o

autor nota que a reflexão sobre os eventos não pode servir de escape “ao dever

intelectual de entender o próprio tempo e dele participar melhor”. Segundo Eco,

“mesmo quando escolhe espaços de silêncio, o exercício da reflexão não exime de

assumir responsabilidades individuais”. Na introdução desse livro, Umberto Eco

diz, a propósito de características comuns aos Cinco Escritos: “Apesar da

variedade, os temas são de caráter ético, ou seja, referem-se àquilo que seria

justo fazer, àquilo que não se deveria fazer e àquilo que não se pode fazer em

hipótese alguma”.

Os sinais, posturas e

exemplos emitidos pelas lideranças políticas de um país, em particular por seus

chefes de Estado ou de governo, são fundamentais nesse sentido. Para o bem como

para o mal, e disso não faltam exemplos no mundo de hoje. Resta lembrar que

apenas em democracias é possível ao eleitorado corrigir, pela via pacífica,

eventuais erros cometidos em escolhas passadas. Sempre que haja um mínimo de

reflexão e debate sobre o presente, sobre como a ele chegamos e, obviamente,

sobre o futuro.

Fonte: Estadão

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados

ESCRITO POR

Pedro Malan

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