Crescimento e inovação

Mario Magalhães Carvalho Mesquita

Valor (publicado em 11/06/2021)

Ignorar a destruição criativa levará o Brasil a continuar na trilha de mediocridade

A pandemia de covid-19, e seu impacto econômico-social, tem

suscitado muitos debates sobre o futuro da economia brasileira. Se o desempenho

relativo do PIB brasileiro, nos anos da pandemia, 2020 e 2021, deve ser

razoável, no contexto regional, a performance acumulada desde 1980 é bastante

sofrível.

É forçoso enfrentar nossos problemas sociais, que pioraram

com a pandemia, mas não podemos descuidar da geração de riqueza. Nesse

contexto, é extremamente bem-vinda a publicação de um livro que traz

contribuições fundamentais para repensarmos o crescimento, sob o paradigma da

inovação. Trata-se da obra “Le Pouvoir de la destruction creátrice” (O poder da

destruição criativa), publicada na França em 2020 e traduzida para o inglês no

ano corrente.

Ignorar a destruição criativa levará o Brasil a continuar

na trilha de mediocridade em que se encontra desde 1970

O trabalho, escrito por Philippe Aghion (professor do

Collège de France e da London School of Economics), Céline Antonin (Collège de

France e Sciences Po em Paris) e Simon Bunel (INSEE e Banque de France), oferece

uma visão otimista e criativa sobre o futuro do capitalismo, e discute temas

que deveriam ter alta relevância em nosso debate.

A proposição central dos autores é que o motor do

crescimento capitalista está no processo de destruição criativa, no qual novas

inovações surgem e tornam as tecnologias existentes obsoletas, novas firmas

entram em cena e competem com firmas existentes, novos empregos e atividades

emergem e substituem os existentes. Essa observação, que remete à contribuição

fundamental de Schumpeter, indica que a renovação e reprodução do capitalismo,

que têm gerado uma prosperidade sem precedentes nos últimos 250 anos, não vai

ocorrer sem riscos, convulsões e transformações. Cabe ao Estado atuar para

mitigar o desconforto social causado pelo processo de destruição criativa – mas

não para sufocá-lo.

Aghion e os coautores apresentam uma enfática defesa da

sociedade aberta – na qual o Legislativo e o Judiciário são independentes do

Executivo, e todos são ativamente monitorados pela sociedade civil organizada –

como o ambiente que viabiliza as inovações e favorece o crescimento, em

especial aquele que se dá na fronteira tecnológica, e não na absorção de

tecnologias já existentes. É o ambiente arejado da democracia que impede que

governos sejam capturados por interesses específicos.

O trabalho merece atenção na íntegra, mas três capítulos

parecem especialmente relevantes para a atual conjuntura brasileira, e tratam

da armadilha da renda média, do papel da industrialização e da inovação verde.

A experiência econômica mundial nos últimos 50-100 anos

mostra diversas economias que saíram de situação de pobreza, cresceram muito

rapidamente, até atingirem um patamar de renda média na escala global, e depois

entraram em estagnação – a renda per capita brasileira, por exemplo, era 11% da

americana em 1950, cresceu rapidamente por um quarto de século, mas tem

oscilado entre 20% e 30% desde meados dos anos 1970. Caem na armadilha aquelas

economias que não conseguem, ou não tentam, fazer a transição do crescimento

por emulação para o crescimento por inovação.

A causa é o poder e influência das indústrias existentes,

que conseguem bloquear a entrada de novas firmas em seus mercados, bem como

frear reformas que permitam o aumento da competição – nossa secular e deletéria

predileção pelo protecionismo comercial, que continua nos dias de hoje, tem

desempenhado esse papel.

Outra provocação de Aghion e seus coautores, é refletir se

faz sentido, para o estágio atual do desenvolvimento mundial, esperar que todos

os países que logrem escapar da armadilha da renda média o façam através da

industrialização. A emergência da economia digital tende a viabilizar

estratégias de desenvolvimento menos dependentes da indústria pesada. Tais

estratégias devem, por sua vez, permitir que se concilie crescimento econômico

acelerado com proteção do meio ambiente. Crescimento liderado pelo setor de

serviços tende a ser menos poluente do que processos de desenvolvimento em que

a indústria pesada tem maior relevância.

Além de ser o motor do crescimento, a inovação, na visão dos

autores, vai permitir conciliar continuidade do crescimento da economia mundial

com preservação do meio ambiente. A “inovação verde” merece um capítulo do

livro. Tal inovação verde, conquanto desejável do ponto de vista da sociedade,

pode não ser o caminho natural para empresas que têm trajetória de sucesso em

outras tecnologias – não é à toa que a inovação dos carros elétricos não partiu

das grandes montadoras estabelecidas (o efeito que os economistas chamam de

path dependence) e sim de start-ups. Da mesma forma, a grande pioneira no

desenvolvimento da vacina para covid-19, com tecnologia inovadora, foi a

farmacêutica alemã BioNTech, fundada em 2008.

Para corrigir essa tendência natural, o Estado pode atuar,

no caso da inovação verde, por meio de taxas de carbono e subsídios para

pesquisa e desenvolvimento em tecnologias sustentáveis. Aghion e seus coautores

defendem um Estado atuante, que apoie a inovação, em especial em empresas

novas, e não a política industrial defensiva e voltada para a preservação de

indústrias tradicionais, que tem, com poucas exceções, caracterizado esse tipo

de esforço no Brasil.

O livro de Aghion tende a desagradar tanto aqueles que

acreditam em um laissez-faire puro e duro, que nunca chegou a ser implementado

por aqui, quanto aqueles, muito mais numerosos em nosso país, que ainda se

apegam a estratégias de desenvolvimento centradas no Estado e no protecionismo,

que vêm dando errado há algumas gerações. Nem por isso suas propostas devem ser

desconsideradas. Ao contrário, ignorar o poder da destruição criativa levará o

Brasil, no que se refere ao crescimento econômico, a continuar na trilha de

mediocridade em que se encontra desde 1970. Esse pode ser até o caminho mais

fácil e conveniente, do ponto de vista político, mas muito pouco inspirador

para quem almeja viver um dia em um país mais próspero.

Esta coluna não é sobre o seu tema preferido, os dilemas e dificuldades da política fiscal brasileira, mas é dedicada a Ribamar Oliveira, grande repórter do Valor e um dos expoentes de nosso jornalismo econômico.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/crescimento-e-inovacao.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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