A combinação da segunda onda com o fim do auxílio emergencial sugere fraqueza da atividade econômica no começo de 2021. Apesar disso e das expectativas controladas, o BC parece disposto a antecipar o início do ciclo de normalização da taxa de juros do terceiro trimestre para março ou maio.
INFOMONEY

O agravamento da epidemia e o fim do auxílio-emergencial são bons
motivos para repensarmos a evolução da atividade econômica ao longo de
2021 e suas implicações para a determinação da Selic nesse período.
Muito
embora haja, eu diria, consenso acerca de um número ao redor de 3,5%
para a expansão do PIB esse ano, boa parte dele não vem do desempenho em
2021 propriamente dito, mas da comparação de um ano (mais ou menos)
normal, no caso 2021, contra um que registrou inédito colapso da
atividade no trimestre março-maio.
O IBC-Br, por exemplo, índice estimado pelo Banco Central como aproximação do comportamento do PIB em base mensal, revela que, mesmo que o nível de atividade ficasse rigorosamente inalterado de novembro de 2020 (última observação disponível) a dezembro de 2021, ou seja, sem qualquer crescimento nos meses desse ano, a comparação da média de 2021 com a média de 2020 já garantiria crescimento de 3,7%, o maior desse indicador desde 2010, o chamado “carregamento estatístico”.
Crescer em 2021, portanto, não parece precisar de muita força. A
menos, é claro, que a atividade não permaneça inalterada ao longo de
2021.
Há temores sobre o possível impacto da combinação da segunda onda de infecções no país com a retirada do auxílio.
Novos
casos de Covid no Brasil têm rodado em torno de 350 mil/semana,
superando os 315 mil/semana observados há cerca de seis meses. Morrem
pouco mais de 7 mil pessoas a cada semana, patamar similar ao registrado
em meados de 2020.
É bem verdade que há vacinas agora, mas,
falemos sério, no ritmo que o processo se afigura no país, onde sequer
há seringas suficientes, para não falar da vacina propriamente dita,
quem imagina uma reversão no quadro sanitário vai se decepcionar
amargamente.
Desde o início da imunização (16/janeiro) até a
última segunda-feira (25/janeiro) 700 mil pessoas tinham sido atendidas,
cerca de 0,3% da nossa população.
Simultaneamente, o auxílio-emergencial, que chegou a atender 68 milhões de pessoas, não mais existe.
Estima-se que perto de 18 milhões retornem aos braços do
Bolsa-Família, o que deixaria 40 milhões de pessoas desassistidas.
Colocando de outra forma, em novembro o auxílio-emergencial representou
transferência de R$ 18 bilhões; já o valor total do Bolsa-Família é
inferior a R$ 3 bilhões/mês.
Por mais que famílias tenham
aparentemente poupado parte do auxílio, tais recursos dificilmente
manterão o ritmo de consumo registrado na segunda metade do ano passado.
Poderão, no máximo, moderar a redução ao longo do primeiro trimestre do
ano.
Junte agora os dois lados da equação. O agravamento da
epidemia deve levar ao maior distanciamento social, não só por força das
medidas oficiais, mas do próprio receio, com impacto mais severo sobre o
setor de serviços e, portanto, sobre o emprego. Já a redução da renda
efetiva deve afetar o consumo de bens, cuja recuperação em 2020 foi bem
mais vigorosa.
É difícil, para dizer o mínimo, que a atividade se
sustente no começo de 2021, pelo menos o que diz respeito à demanda
interna, em particular o consumo.
Conclui-se daí que, se tal
cenário de fato se materializar, não haveria motivos para temer pressões
inflacionárias, ao menos não pelo lado da atividade econômica.
Apesar
dos números irremediavelmente ruins do final do ano passado,
expectativas de inflação seguem pouco abaixo da meta em 2021 e perto
dela em 2022.
O Banco Central (BC) parece a par de tais preocupações, notando na última Ata do Copom
que “os riscos associados tanto à evolução da pandemia como ao esperado
arrefecimento dos efeitos dos auxílios emergenciais podem implicar um
cenário doméstico caracterizado por mais gradualismo ou até uma reversão
temporária da retomada econômica”.
Apesar disso, deixa claro que pode antecipar a primeira rodada de elevação da taxa Selic do terceiro trimestre para março ou maio. Ainda me parece precipitado, mas o gatilho é de responsabilidade do BC.
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
