Dedo no gatilho

Alexandre Schwartsman

A combinação da segunda onda com o fim do auxílio emergencial sugere fraqueza da atividade econômica no começo de 2021. Apesar disso e das expectativas controladas, o BC parece disposto a antecipar o início do ciclo de normalização da taxa de juros do terceiro trimestre para março ou maio.

INFOMONEY

taxa juros % $ selic copom

O agravamento da epidemia e o fim do auxílio-emergencial são bons

motivos para repensarmos a evolução da atividade econômica ao longo de

2021 e suas implicações para a determinação da Selic nesse período.

Muito

embora haja, eu diria, consenso acerca de um número ao redor de 3,5%

para a expansão do PIB esse ano, boa parte dele não vem do desempenho em

2021 propriamente dito, mas da comparação de um ano (mais ou menos)

normal, no caso 2021, contra um que registrou inédito colapso da

atividade no trimestre março-maio.

O IBC-Br, por exemplo, índice estimado pelo Banco Central como aproximação do comportamento do PIB em base mensal, revela que, mesmo que o nível de atividade ficasse rigorosamente inalterado de novembro de 2020 (última observação disponível) a dezembro de 2021, ou seja, sem qualquer crescimento nos meses desse ano, a comparação da média de 2021 com a média de 2020 já garantiria crescimento de 3,7%, o maior desse indicador desde 2010, o chamado “carregamento estatístico”.

Crescer em 2021, portanto, não parece precisar de muita força. A

menos, é claro, que a atividade não permaneça inalterada ao longo de

2021.

Há temores sobre o possível impacto da combinação da segunda onda de infecções no país com a retirada do auxílio.

Novos

casos de Covid no Brasil têm rodado em torno de 350 mil/semana,

superando os 315 mil/semana observados há cerca de seis meses. Morrem

pouco mais de 7 mil pessoas a cada semana, patamar similar ao registrado

em meados de 2020.

É bem verdade que há vacinas agora, mas,

falemos sério, no ritmo que o processo se afigura no país, onde sequer

há seringas suficientes, para não falar da vacina propriamente dita,

quem imagina uma reversão no quadro sanitário vai se decepcionar

amargamente.

Desde o início da imunização (16/janeiro) até a

última segunda-feira (25/janeiro) 700 mil pessoas tinham sido atendidas,

cerca de 0,3% da nossa população.

Simultaneamente, o auxílio-emergencial, que chegou a atender 68 milhões de pessoas, não mais existe.

Estima-se que perto de 18 milhões retornem aos braços do

Bolsa-Família, o que deixaria 40 milhões de pessoas desassistidas.

Colocando de outra forma, em novembro o auxílio-emergencial representou

transferência de R$ 18 bilhões; já o valor total do Bolsa-Família é

inferior a R$ 3 bilhões/mês.

Por mais que famílias tenham

aparentemente poupado parte do auxílio, tais recursos dificilmente

manterão o ritmo de consumo registrado na segunda metade do ano passado.

Poderão, no máximo, moderar a redução ao longo do primeiro trimestre do

ano.

Junte agora os dois lados da equação. O agravamento da

epidemia deve levar ao maior distanciamento social, não só por força das

medidas oficiais, mas do próprio receio, com impacto mais severo sobre o

setor de serviços e, portanto, sobre o emprego. Já a redução da renda

efetiva deve afetar o consumo de bens, cuja recuperação em 2020 foi bem

mais vigorosa.

É difícil, para dizer o mínimo, que a atividade se

sustente no começo de 2021, pelo menos o que diz respeito à demanda

interna, em particular o consumo.

Conclui-se daí que, se tal

cenário de fato se materializar, não haveria motivos para temer pressões

inflacionárias, ao menos não pelo lado da atividade econômica.

Apesar

dos números irremediavelmente ruins do final do ano passado,

expectativas de inflação seguem pouco abaixo da meta em 2021 e perto

dela em 2022.

O Banco Central (BC) parece a par de tais preocupações, notando na última Ata do Copom

que “os riscos associados tanto à evolução da pandemia como ao esperado

arrefecimento dos efeitos dos auxílios emergenciais podem implicar um

cenário doméstico caracterizado por mais gradualismo ou até uma reversão

temporária da retomada econômica”.

Apesar disso, deixa claro que pode antecipar a primeira rodada de elevação da taxa Selic do terceiro trimestre para março ou maio. Ainda me parece precipitado, mas o gatilho é de responsabilidade do BC.

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Ouvir conteúdo

0 palavras · ~1 min de leitura

Publicações Recentes

Avanço do crime na economia formal nos leva para a várzea, onde não sabemos jogar, diz ex-presidente da Febraban

CDPP
·

Perigos, externos e internos

Giuliano Guandalini
·

Questão de impeachment de ministro do Supremo é pertinente nos casos Toffoli e Moraes, diz Giannetti

Giuliano Guandalini
·

'Brasil crescer 2,3% com juro a 15% é surpreendente', avalia Giannetti

Giuliano Guandalini
·
Podcast

Podcast do CDPP