Depois da Mãos Limpas: a Lava Jato chega à Itália

Cristina Pinotti

Há um

ano foi lançado o livro “Corrupção: Lava Jato e Mãos Limpas”, que organizei e

para o qual escrevi um capítulo introdutório salientando algumas diferenças

entre a operação brasileira e a italiana, a importância da qualidade das

instituições na determinação do volume de corrupção nos países, e os custos

econômicos que a corrupção acarreta.

Nos

demais capítulos, protagonistas das duas operações — Sergio Moro, Deltan

Dallagnol e Roberson Pozzobon, da Lava Jato, e Piercamillo Davigo e Gherardo

Colombo, da Mãos Limpas — relataram suas experiências e avaliaram as operações.

O caso italiano continua provocando curiosidade por aqui, além de alguns

vaticínios, que considero descabidos. Não há inexorabilidade histórica, há

apenas uma dinâmica comum no comportamento daqueles que cometem crimes de

corrupção e querem continuar cometendo: usar todo o poder e influência

disponíveis para tentar abrandar as leis e dificultar as punições. Foi o que

ocorreu, com sucesso, na Itália, mas, entre nós, apesar das tentativas do

sistema político de seguir a mesma cartilha, o apoio da população ao combate à

corrupção permanece e faz enorme diferença.

Outra

peculiaridade da grande corrupção brasileira foi a rapidez e a intensidade com

as quais ela se espalhou pelo mundo afora, tornando-a mais visível e, portanto,

vulnerável. A chegada da Lava Jato à Itália é mais um capítulo dessa história.

A partir de informações coletadas no Brasil e enviadas à Itália, investigações

foram feitas e os sócios da San Faustin, holding de uma empresa

ítalo-argentina (a Techint), foram denunciados pelo suposto pagamento de

propinas a Roberto Duque, ex-diretor da Petrobras. Entre 2009 e 2014, Duque

teria favorecido a empresa em contratos da Petrobras, recebendo em troca

propinas a serem depositadas no exterior. O executivo já foi condenado no

âmbito da Lava Jato a 124 anos de prisão, e cumpre pena desde 2015. Mais uma

curiosidade: a Techint também havia sido investigada na operação Mãos Limpas no

início dos anos 90 por pagamento de propinas na Itália. O CEO da empresa à

época admitiu pagamentos ilícitos, fez um acordo, e foi condenado a 16 meses de

prisão. Sem mudanças nas leis e regras, a história se repete…

A

Itália acaba de chegar a uma já longa lista de países que tiveram empresas ou

políticos envolvidos com a Lava Jato, que tem por objetivo investigar as

operações de corrupção e lavagem de dinheiro ocorridas em contratos da

Petrobras com suas maiores fornecedoras, sobretudo empreiteiras. No caso, uma

empresa italiana está sendo responsabilizada pelo pagamento de propinas a um

funcionário da Petrobras. Em outros, o pagamento de propinas era feito por

empresas brasileiras a políticos de outros países. Podemos ter uma ideia deste

procedimento, ainda que parcial, seguindo os passos da Odebrecht.

Embora

tenha sido revelada a existência no Brasil de um cartel formado pelas maiores

empreiteiras, a Odebrecht, a maior delas, liderou o processo de

internacionalização da nossa corrupção. Ao que tudo indica, tal liderança foi

conquistada pela introdução de métodos gerenciais sofisticados no pagamento das

propinas por meio da criação, em 2006, do “Departamento de Operações

Estruturadas”, que lhe garantiu grande vantagem com relação às parceiras de

cartel, como sugerem Nicolas Campos, Eduardo Engel, Ronald Fischer e Alexander

Galetovic no artigo “Renegotiations and corruption in infrastructure: the

Odebrecht case” (ou “Renegociações e corrupção em infraestrutura: o caso Odebrecht”),

de novembro de 2019. Em vez de chegarem apenas na forma de pagamentos em

espécie — nas famosas malas de dinheiro — as propinas passaram a ser

depositadas em contas offshore, utilizando um sistema paralelo, fora da

contabilidade da empresa, e oculto por uma rede de alta segurança para não

deixar pistas das operações e dos participantes, que utilizavam codinomes e

senhas complexas nas comunicações.

Por haver utilizado bancos norte-americanos nas transações ilícitas, a Odebrecht também foi indiciada nos Estados Unidos, tendo fechado um acordo de leniência e pagando multa de US$ 2,6 bilhões, a maior já imposta nesse tipo de acordo nos EUA. Já no acordo de colaboração a Odebrecht admitiu haver pagado US$ 788 milhões em propinas, entre 2001 e 2016, associadas a mais de 100 projetos em 12 países, e o Departamento de Justiça estima que o pagamento de propinas aumentou o lucro da empresa em US$ 3,3 bilhões. A Odebrecht também fez acordos de colaboração com República Dominicana, Panamá, Guatemala, Colômbia Equador, e Peru.

Gráfico 2 - Propinas pagas e benefícios auferidos pela Odebrecht em alguns países

É

importante notar que outras grandes empreiteiras também participaram de obras e

pagaram propinas no exterior, replicando a cartelização que aqui funcionava. Ao

todo, além de vários políticos, quase uma dezena de ex-presidentes latino-americanos

foram envolvidos nas propinas pagas pela Odebrecht e outras empreiteiras

brasileiras, e cumpriram ou cumprem pena de prisão: dois ex-presidentes de El

Salvador (Mauricio Funes e Francisco Flores); um do Panamá (Ricardo

Martinelli); quatro do Peru (Ollanta Humala, Alexandro Toledo, Pedro Pablo

Kuczynski e Alan García, que se suicidou antes da chegada da polícia) e um do

Brasil (Lula).

Operações

como a Lava Jato e a Mãos Limpas são indispensáveis para revelar a abrangência

e os métodos da corrupção, e aplicar penas que desincentivem tal comportamento.

No entanto, a redução permanente da grande corrupção depende de alterações nas

instituições que permitiram o seu crescimento. É um projeto ambicioso,

suprapartidário, que no Brasil e em outros países da América Latina tem contado

com amplo apoio da população, fundamental para superar as resistências impostas

pelos que se beneficiam com a corrupção.

Colaborou Lucas Gomes com o gráfico

Fonte: Nexo Jornal

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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