Desemprego de pais e filhos

Naercio Menezes Filho

Valor (publicado em 17/09/2021)

Para termos um maior engajamento dos jovens no mercado de trabalho, temos que cuidar das crianças agora

O crescimento econômico inclusivo depende muito da educação,

da saúde e das habilidades socioemocionais dos trabalhadores. Essas condições são

desenvolvidas ao longo da vida, especialmente nos primeiros anos de vida.

Assim, se não investirmos nas nossas crianças hoje, ficará mais difícil termos

crescimento com redução de desemprego no futuro. E nossas crianças estão sendo

muito afetadas pela crise econômica e pela pandemia. Como podemos atenuar os

efeitos da crise econômica e sanitária para termos redução de desemprego e

pobreza no futuro?

A transmissão da pobreza entre gerações é um processo

bastante complexo. Por exemplo, o desemprego dos adultos nos dias de hoje

afetará o desemprego dos seus filhos no futuro, pois a falta de renda afeta o

desenvolvimento das habilidades cognitivas e sócios emocionais das crianças. E

se não desenvolverem essas habilidades plenamente, as crianças não conseguirão

completar com sucesso o ensino médio, entrar no ensino superior e conseguir um

emprego com carteira assinada ou empreender.

Para obter maior engajamento dos jovens no mercado de

trabalho no futuro, há que cuidar das crianças agora

E a situação no mercado de trabalho não está nada boa

atualmente. Por exemplo, a figura descreve a taxa de ocupação dos pais de

crianças de 0/6 anos de idade nos últimos 10 anos, sempre no segundo trimestre

de cada ano, comparando os mais escolarizados (que completaram o ensino médio

ou superior) com os que não chegaram a completar o ensino médio. A figura

mostra, em primeiro lugar, que os pais (homens e mulheres) mais educados têm

uma taxa de emprego bem mais alta do que os menos educados, desde o início da

série. A diferença era de 13 pontos percentuais e está relacionada com a falta

de oportunidades para educação que esses próprios pais tiveram no passado.

Interessante notar como a falta de oportunidades se

transfere entre as gerações e faz com que haja uma grande diferença de renda

entre os dois tipos de famílias.

Além disso, a figura mostra que essa diferença foi

aumentando desde 2012, até atingir 16 pontos percentuais atualmente. A pandemia

agravou a tendência de falta de emprego entre os pais menos educados, que

resulta da sua baixa participação, alto desemprego e desalento. A taxa de desemprego,

que era muito parecida nos dois grupos em 2012, agora é de 16% entre os menos

educados e de 13% entre os mais educados. Além disso, a dificuldade para

encontrar emprego fez com 8% dos trabalhadores menos escolarizados desistissem

de procurar trabalho, elevando o total de desempregados e desalentados nesse

grupo para 9 milhões.

Parte desses empregos não voltará mais. Estudos mostram que

uma parcela considerável dos trabalhadores mais escolarizados que estão em home

office não vai mais voltar para o trabalho presencial após o fim da pandemia,

deixando de comprar produtos e frequentar restaurantes em grandes centros

comerciais urbanos, usando mais as compras on-line. Assim, uma parcela dos

trabalhadores menos qualificados não terá para quem vender nesses grandes

centros, nem poderão trabalhar em casa, pois não têm a qualificação necessária

para realizar as tarefas complexas no computador.

Além disso, a queda de renda entre as famílias mais pobres

está sendo agravada pelos problemas com o nosso principal programa de

transferência de renda, o Bolsa Família. A fila para entrar no programa não

para de aumentar, devido à redução do emprego entre os mais pobres, e o valor

da transferência não é reajustado há bastante tempo, ao passo que a inflação

para os mais pobres aumentou 10% somente no último ano. As indefinições com

relação ao orçamento para o novo programa social do governo federal e o fim do

auxílio emergencial deverão levar milhares de famílias de volta à extrema

pobreza nesse final de ano, algo que não acontecia desde o início deste século.

Assim, quando vemos uma grande parcela de jovens que não

estuda nem trabalha, que muitas vezes são atraídos pelo crime e que acabam

presos por pequenos delitos, temos que ter em mente que isso é resultado de um

processo que foi acontecendo paulatinamente ao longo de suas vidas, desde muito

cedo. Para termos um maior engajamento dos jovens no mercado de trabalho no

futuro, com menos desemprego e pobreza, temos que cuidar das crianças agora. O

que podemos fazer para remediar a situação atual?

A primeira providência é solucionar os problemas com o Bolsa

Família. O programa proposto pelo governo (Auxílio Brasil) tem pontos

positivos, como o foco nas famílias com crianças pequenas, nos jovens e nas

famílias extremamente pobres. Mas também tem muitas falhas, como os vários

“penduricalhos” que poderiam ser usados para aumentar o valor das

transferências. E parece que não haverá recursos para ampliar o programa, dado

o que tem sido feito com recursos públicos nos últimos meses. Não há nem mesmo

previsão orçamentária para isso.

E para aumentar a empregabilidade dos trabalhadores em tempos de trabalho remoto é necessário aumentar a qualificação do trabalhador e o acesso ao ensino superior. Após sucessivas reformas trabalhistas, não houve a desejada expansão do emprego formal, indicando que a principal restrição para aumento da empregabilidade está no capital humano dos trabalhadores. Em suma, sem aumentar a educação, a saúde e as demais habilidades dos trabalhadores, não haverá redução sustentada do desemprego no futuro próximo.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/desemprego-de-pais-e-filhos.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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