Desistência da Previdência dá mais responsabilidade para eleito

Alexandre Schwartsman

Folha de São Paulo


Enquanto esperamos pelos dados oficiais das contas nacionais, que serão divulgados pelo IBGE no começo de março, o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) sugere uma aceleração visível da economia no fim de 2017.

Segundo o IBC-Br, a atividade cresceu 1,3% no último trimestre do ano passado, seu quarto (e mais forte) trimestre consecutivo de crescimento, sinal de que a recuperação da economia vem se firmando com o passar do tempo.

Isso ainda não nos permite dizer com certeza o ritmo de expansão do PIB naquele momento, pois, sobretudo no que diz respeito aos dados trimestrais, não há uma relação tão precisa entre os dois indicadores.

No entanto, dada a força do IBC-Br no quarto trimestre, não seria surpreendente que o PIB também tenha crescido um pouco mais de 1% no mesmo período. Isso, se verdadeiro, não apenas traria o crescimento de 2017 para a casa de 1,2% mas também (e principalmente) indicaria uma expansão na casa de 3,0% para 2018, talvez até um pouco mais.

m que pese a divergência natural entre os números do IBC-Br e do PIB, o padrão de expansão ao longo de 2017 foi bastante similar: seguindo-se ao primeiro trimestre bastante forte, em razão da agricultura, a produção se expandiu a um ritmo mais modesto nos trimestres posteriores, mas voltou a se acelerar no fim do ano.

Isso também é visível nos dados de produção industrial (mais) e serviços (menos), indicando que a aceleração recente não parece ser um fenômeno localizado, como ocorrido no começo do ano passado, mas sim difundido, com repercussão inclusive sobre o emprego, expressa na adição de pouco mais de 3 milhões de postos de trabalho entre março e dezembro (2 milhões em termos dessazonalizados).

No conjunto da obra, portanto, é nítido que a economia voltou a crescer, ao que parece a uma velocidade média ao redor de 0,8% por trimestre, ou seja, na casa de 3,3% ao ano desde o trimestre final de 2016, o décimo primeiro (e último) da Grande Recessão de 2014.

Tal ritmo, de acordo com nossas estimativas, supera o crescimento potencial do país, ou seja, deve fazer com que a taxa de desemprego (dessazonalizada) siga a trajetória decrescente observada desde o primeiro trimestre de 2017. Apesar disso, como o desemprego ainda é alto, não deve haver tensões inflacionárias ao longo de 2018 e, possivelmente, também no começo de 2019.

Em razão disso, é pouco provável que o BC venha a subir a Selic neste ano depois dos mínimos históricos agora registrados, desenvolvimento que, diga-se, contraria a narrativa (sempre ela!) de que o impedimento da presidente Dilma teria como objetivo manter os juros altos…

Todavia, se as perspectivas de curto prazo têm melhorado, há muitos e bons motivos para preocupação quando se tenta elevar a vista para um horizonte mais distante.

Em particular, a desistência de aprovar a reforma previdenciária (não exatamente uma surpresa) sinaliza maiores responsabilidades para quem for eleito neste ano.

Caso essa reforma (e outras) não avance, o cenário razoavelmente positivo para 2018 dificilmente será sustentado em 2019 e 2020, quando o peso da Previdência se fará sentir ainda mais nas contas públicas.

Aproveitemos, pois, o momento, mas saiba que o principal ainda está por ser feito.

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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