'Dólar afeta preços como no início do regime de metas' , diz Mesquita

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VALOR

A inflação brasileira voltou ao padrão dos primórdios do regime de

metas, quando a economia operava com ociosidade, mas os preços se moviam para

cima junto com a cotação do dólar, afirma o ex-diretor do Banco Central e

economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita.

“Acho que agora voltamos um pouco àquele regime”, argumenta. “O fator

que tem impulsionado a inflação é o câmbio.” É uma mudança em relação a um

longo período em que fatores domésticos, como a taxa de desemprego, ditavam o

ritmo de alta de preços.

Essa transformação começou um pouco antes de o próprio Mesquita assumir

a diretoria de Política Econômica do BC, há 15 anos, quando o ajuste fiscal e

uma rígida política monetária reforçaram a credibilidade do real. Até então, o

mercado tinha dúvidas recorrentes se o BC operava num regime puro de metas de

inflação ou se, na verdade, mirava uma taxa de câmbio, tal a sua importância

para determinar a dinâmica da inflação.

Recentemente, essas dúvidas ressurgiram, num momento em que o Banco Central se prepara para subir os juros, apesar do alto nível de ociosidade da economia. Mesquita discorda que o Banco Central esteja mirando o câmbio. “Não é isso. A meta continua sendo a meta de inflação, mas o câmbio é um determinante, talvez o mais importante da dinâmica inflacionária”, afirma. “Se fosse para fazer movimento para estabilizar o real ou para trazer o real de volta para baixo de R$ 5, deveria ser um movimento de juros mais intenso.”

A projeção do Itaú é que o BC faça uma retirada parcial dos estímulos

monetários a partir de março, levando-os dos atuais 2% ao ano para 3,5% ao ano.

Nesse patamar, as taxas estariam abaixo dos juros neutros, que o Itaú Unibanco

estima em cerca de 6%.

A normalização completa poderia ocorrer em 2022 ou 2023, dependendo de

como o Federal Reserve (Fed) vai reagir aos estímulos fiscais do governo Joe

Biden. “A minha preocupação mais intensa nas últimas semanas tem sido com os

efeitos do super estímulo fiscal sobre a economia americana e com a própria

política monetária nos EUA.”

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Como

fica o Brasil no início do ano, com a retirada dos estímulos fiscais?

Mario

Mesquita: Desde o início da pandemia temos usado muito

o nosso indicador diário de atividade econômica, que leva em conta gastos em

compras de bens e serviços e o consumo de energia elétrica usando cartão de

débito e crédito. Faz alguns meses, desde o final do terceiro trimestre do ano

passado, ele tem rodado em torno de 90. 100 é a atividade na primeira quinzena

de março de 2020, que é o pré-covid. Pelo nosso indicador, a atividade está de

lado, está estável. Se você levar em conta que estamos vivendo uma segunda onda

da covid, e a retirada do auxílio emergencial, não é tão ruim você ver a

atividade andando de lado. O PIB do primeiro trimestre provavelmente deve ficar

diria entre queda de 0,5% ou alta de 0,5%, é cedo para dizer. Diria que o PIB

do primeiro trimestre com pequena variação, em torno de zero, é bem plausível.

Valor: Qual é sua visão sobre o ajuste fiscal com as nova configuração política no Congresso?

Mesquita: Entendo que tem parte do governo achando que agora a articulação

com o Congresso, com a nova configuração na Câmara e no Senado, vai ser mais

fácil. Pode acontecer. Mas, por ora, estamos do lado mais conservador, mais

cauteloso, de que não acontecerá muita coisa diferente. Ou seja, nem passa

reformas profundas nem estoura o teto de gastos ou faz um auxílio emergencial

sem compensação. Pode ser que a gente se surpreenda aí para o outro lado

positivo.

Valor: Existe uma controvérsia do BC sobre o grau de

ociosidade da economia, com o mercado de trabalho formal mais forte. Qual é sua

visão sobre o assunto?

Mesquita: A gente vê uma taxa de desemprego ainda bastante elevada por

bastante tempo. Um desemprego em torno de 14% no final deste ano e em torno de

13% no final do ano que vem. Qualquer estimativa de taxa neutra de desemprego

provavelmente será bem abaixo disso.

Valor: Por que o Itaú antecipou para março sua previsão

para o início da alta de juro pelo BC?

Mesquita: Estávamos contando com um certo arrefecimento da inflação na

virada do ano e início do ano, que não aconteceu. Não na intensidade que a

gente gostaria de ver. E o Banco Central, por meio de seus documentos, passou a

expressar um desconforto em relação à trajetória da inflação e também citando

especificamente o comportamento das medidas de núcleo.

Valor: O estímulo extraordinário cumpriu o papel esperado?

Mesquita: Ele ajudou sim e está ajudando a mitigar o impacto desse ciclo da

covid. Basta ver o setor imobiliário, por exemplo, o setor de construção,

crédito para compra de veículos. O que acontece é que o comportamento da taxa

de câmbio, que é parte da transmissão da política monetária, aliada aos preços

de commodities, contribuiu para um processo inflacionário que surpreendeu. Acho

que 2020 e 2021 são um quadro inflacionário parecido com o quadro inflacionário

que tínhamos nos primeiros anos do regime de metas, em que a economia operava

com ociosidade, mas tinha oscilações de taxa de câmbio que geravam também

oscilações da inflação. Durante muito tempo tínhamos uma inflação que respondia

predominantemente a fatores domésticos, hiato etc. Acho que agora voltamos um

pouco àquele regime. O fator que tem impulsionado a inflação é o câmbio. O

movimento do câmbio provavelmente incorpora também incertezas sobre política

fiscal, sustentabilidade do teto [de gastos].

Valor: Não estaríamos nos afastando do regime de metas ao

colocar mais ênfase na inflação de curto prazo e menos ênfase na ociosidade e

na tendência de médio prazo da inflação?

Mesquita: Acho que não. O regime de metas funciona bem quando a gente não complica. Focar nisso, na trajetória prospectiva de inflação. O que acontece é que o movimento da taxa de câmbio tem consequências inflacionárias. Eu sempre me posiciono contra o “exchange rate targeting” [meta de taxa de câmbio] disfarçado. Não é isso. A meta continua sendo a meta de inflação, mas o câmbio é um determinante, talvez o mais importante, da dinâmica inflacionária. Se fosse para fazer movimento para estabilizar o real ou para trazer o real de volta para baixo de R$ 5, deveria ser um movimento de juros mais intenso do que esse que projetamos [que leva a taxa Selic a 3,5% ao ano]. O que temos em mente é uma remoção parcial do estímulo para conter a pressão inflacionária da combinação do câmbio com matérias primas. A moral da história nos últimos meses é que, dada a incerteza e a fragilidade fiscal, [juros de] 2% não são consistentes com manter a ancoragem da inflação e atingir a meta ao longo do tempo. Em outras configurações de política fiscal, poderia ser.

Valor: Semana passada foi boa para moedas emergentes, mas

não para o real. Procedem acusações frequentes do mercado de que a culpa é dos

juros baixos?

Mesquita: É juro junto com incerteza fiscal. Na região, tem muitos países que

cortaram as taxas de juros, mas não estão observando o tipo de pressão e

volatilidade como no Brasil. Acho que aprendemos que 2% ao ano, dada a nossa

fragilidade fiscal, leva a um comportamento da taxa de câmbio que tem

consequências inflacionárias que complicam a gestão do regime de metas, da

política monetária.

Valor: Quando os juros poderão ser normalizados, chegando

à taxa neutra no país?

Mesquita: Provavelmente ao longo de 2022, talvez no início de 2023. O vício

do brasileiro, que vive num país continental, é não olhar muito para os lados.

Depende muito do que os outros bancos centrais fizerem. A minha preocupação

mais intensa nas últimas semanas tem sido com os efeitos do super estímulo

fiscal sobre a economia americana e com a própria política monetária nos

Estados Unidos. O Fed tem sinalizado várias vezes que quer uma inflação mais

alta, quer compensar o período que passou com inflação abaixo da meta. A

verdade é que já está começando o caminho de colher isso, e o governo vai jogar

mais estímulo. Então é plausível que o debate sobre normalização monetária nos

Estados Unidos seja antecipado de 2023 para 2022. Se o Fed começa a subir a

taxa de juros no ano que vem, vai fazer devagar, não vai querer causar muito

estresse no mercado. Mas, se começar a subir, tem implicações para os mercados

emergentes. Então pode ser que tenhamos que caminhar para lá também no ano que

vem. Não é o nosso cenário [central] atual, mas estamos nos preocupando mais

intensamente com ele nas últimas semanas.

Valor: O Banco Central deveria se preocupar com as

eleições do ano que vem ao executar a sua estratégia monetária?

Mesquita: Acho que não. Para ajudar a enterrar essa discussão, seria fantástico se o Congresso nesta semana finalmente aprovasse a autonomia do Banco Central. Dito isso, volto ao que falei: o regime funciona bem quando ele é implementado de forma simples, sem se preocupar muito com o calendário político. Do ponto de vista eleitoral, inflação baixa gera dividendos. É difícil achar alguma correlação entre o nível de Selic e intenção de voto.

Link da publicação: https://valor.globo.com/financas/noticia/2021/02/07/dolar-afeta-precos-como-no-inicio-do-regime-de-metas-diz-mesquita.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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