A situação é extremamente dramática, diz o economista Edmar Bacha
A saída para a economia, no período pós- pandemia, é retomar a agenda de reformas com foco na solvência da dívida interna. A dívida bruta como proporção do PIB terá uma escalada, saindo de 75,5% para a casa dos 90% do PIB este ano. Os sinais já são inquietantes. A dívida mobiliária teve resgate líquido de R$ 240 bilhões nos primeiros quatro meses do ano e os prazos dos títulos estão se encurtando.
Essa preocupação ficou clara durante o debate ontem, na
Câmara, entre os economistas Arminio Fraga, Ilan Goldfajn, ambos ex-presidentes
do Banco Central, Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro Nacional, e Edmar
Bacha, um dos responsáveis pelo Plano Real.
A situação é extremamente dramática, diz Bacha
Será importante, também,
redesenhar os programas sociais para focá-los em quem realmente precisa da
ajuda do Estado. A crise da covid-19 mostrou que é necessário fazer o ajuste de
forma “justa”, salientou Vescovi.
O auxílio emergencial de R$ 600
que teria, segundo dados oficiais, atingido cerca de 38 milhões de brasileiros
que não tinham qualquer ajuda estatal, deverá ser prorrogado por mais um par de
meses, em menor valor. Em um novo formato, ele poderia transformar-se em um programa
de renda básica como resultado de mudanças, inclusive, no seguro-desemprego.
O presidente da Câmara, deputado
Rodrigo Maia (DEM-RJ), deixou, durante o debate, uma informação relevante: Hoje
a grande discussão que divide o governo é se a retomada da economia terá que
ser feita com base em investimentos públicos ou se deve-se priorizar o investimento
privado. Essa é uma divisão que sempre se apresenta nos momentos mais graves de
crise, a despeito da absoluta falta de recursos do Tesouro Nacional para
investir.
“A situação é extremamente
dramática”, disse Bacha, para quem o país enfrenta uma “depressão” econômica.
Ele chamou a atenção para pautas que devem ser evitadas tais como tabelamento
dos juros ou elevação impostos, conforme proposta que tramita no Senado, de
elevar para 50% a alíquota da CSLL cobrada dos bancos, para não se abrir a
porta para uma “crise bancária”. E assinalou a importância de se fazer uma
distribuição de renda no país sem que para isso tenha que haver “guerra ou
revolução”. Os demais participantes concordam com a premência de uma redução
das desigualdades e veem possibilidades de investimentos atrativos em
saneamento e em infraestrutura, desde que as regras do jogo sejam bem definidas
e respeitadas.
Para Ilan, já se sabe que a
pandemia da covid-19 será mais longa e terá maior custo do que se imaginou no
início da crise e, portanto, “não é hora de grandes gastos em obras públicas”.
Segundo ele, há duas questões que merecem atenção: o auxílio emergencial e que
a oferta de crédito chegue às pequenas empresas.
Ilan também condenou duas
propostas que circulam no governo: a emissão de moeda para financiar o aumento
do gasto decorrente da pandemia; e a venda de reservas cambiais com o mesmo
propósito. Não há emissão sem custo e se há 20% do PIB em reservas cambiais, do
lado do passivo há 20% do PIB em dívida, salientou.
Lembrou ainda que os depósitos
remunerados, que permitiriam a emissão de moeda remunerada, são parte de
propostas que tramitam no Congresso à espera de aprovação.
Arminio, avisou que olharia “o
copo meio cheio” e viu saídas a partir de um ajuste fiscal que ele calcula em
torno de 8 pontos percentuais do PIB, que não será feito da noite para o dia.
“O Brasil vai ter que fazer escolhas” que, se não forem bem feitas, o futuro
será a repetição “dos piores momentos do passado elevado ao cubo”.
Uma das reformas que todos os
participantes colocam como prioritária é a do Estado, ou administrativa, para
que o horizonte do gasto com pessoal corrija a despesa de cerca de 14% do PIB,
hoje menor apenas do que a da África do Sul. Há outras como a tributária e a
patrimonial e questões menos tangíveis, como confiança do investidor no país e
segurança jurídica dos contratos. Para recuperar a confiança é preciso
estabilidade institucional.
Ana Paula Vescovi mostrou a
situação das contas públicas antes e depois da pandemia. Fica claro que o país
estava em processo de ajuste fiscal, mas foi pego ainda em condições
extremamente frágeis. A pandemia vai elevar em 7 pontos percentuais o déficit
primário do governo central. As contas no critério nominal vão encerrar o ano
com déficit de 16,3% do PIB, ou R$ 1,12 trilhão, e a dívida bruta saltará para
94,2% do PIB este ano e para 102,8% do PIB em 2028. Os cálculos pressupõem
obediência à lei do teto de gastos.
Pequenas empresas
O governo espera que o Programa
de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Pronampe) esteja sendo oferecido pelo
sistema bancário a partir de segunda-feira. O programa destina às microempresas
cerca de R$ 15,9 bilhões com prazo de 36 meses e custo de taxa Selic mais
1,25%.
Os juros que foram aprovados pelo
Congresso são tabelados, portanto, em 4,25% ao ano. De antemão, assessores do
Ministério da Economia já vislumbram a contrariedade dos bancos privados em
operar com essa linha de crédito, pois alegam que 4,25% não seria suficiente
para cobrir os custos operacionais. Além do preço, o sistema privado também
deverá temer o risco de crédito. Para o dinheiro chegar nas microempresas é
bastante provável que a Caixa tenha que ser, mais uma vez, acionada.
Privatização
Começou a tramitar no Congresso Nacional o projeto de lei nº 2.715, que suspende qualquer privatização por 12 meses após o fim do período de calamidade pública. De autoria do depurado Enio Verri, (PT-PR), o projeto tem o apoio da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae) e de diversas outras entidades sindicais. A suspensão das privatizações até 2022 se justificaria pelas atuais condições de mercado, segundo argumentam os seus defensores. Para o presidente da Fenae, Sérgio Takemoto, porém, “a Caixa e as demais empresas públicas estão comprovando, especialmente nesta crise, o quanto elas são imprescindíveis para o país”. Está na fila da privatização a Caixa Seguridade e a empresa de Loterias.
Por Cláudia Safatle
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
