E daí?

Alexandre Schwartsman

E se a dívida sair de controle? O resultado mais provável será o retorno da inflação elevada em conjunto com repressão financeira

Hoje, quero aproveitar “ganchos” de dois ótimos

artigos publicados nos últimos dias, juntamente com a conclusão a que

cheguei na coluna da semana passada, a saber, que o teto de gastos, sem

reformas profundas e rápidas (cujas chances são mínimas), se tornará

insustentável num horizonte de poucos anos, talvez já em 2022.

O primeiro é o excelente texto de Persio Arida na Folha de S. Paulo,

que reforça o nunca suficientemente enfatizado ponto de que o

fundamental é gerar uma trajetória de endividamento que não seja

explosiva.

Posto de outra forma, o crucial é garantir que a

dívida, mesmo alta, não cresça indefinidamente a uma velocidade superior

à do produto.

Como a capacidade de pagamento do governo está de alguma forma ligada

à renda, por meio da arrecadação de impostos, uma dívida que cresça

mais rapidamente do que o PIB por um período longo implica risco

crescente de que ela não seja paga, ao menos nas condições nas quais foi

originalmente contratada.

Vimos este fenômeno ocorrendo em tempo real na Grécia e na Argentina, para não ter que recuar mais que uns poucos anos no tempo.

Interessados podem encontrar um catálogo com todos os calotes de dívida pública, sob diferentes formatos, no essencial This Time is Different, de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff (que aprendeu tudo

sobre crises econômicas com uma economista brasileira!). O livro cobre

nada menos do que oito séculos de “totós” mais ou menos explícitos em

dívidas soberanas.

É bem verdade que a maior parte desses eventos

se verificou em um cenário no qual o grosso de endividamento era

“externo”, muitas vezes em ambos os sentidos da palavra: eram dívidas

contratadas em jurisdições estrangeiras, denominadas em moeda

internacional, e os credores eram, em sua maioria, não residentes.

Já a dívida pública no Brasil é denominada majoritariamente em moeda nacional e detida também por brasileiros.

No caso, para quem ainda crê nas lorotas de Ciro Gomes e assemelhados, os números do Tesouro Nacional mostram que os bancos detêm algo como 22% da dívida, enquanto fundos de investimento (seu fundo DI, caro leitor) têm 25% dela.

Os fundos de pensão também têm essa mesma proporção, enquanto não-residentes detinham cerca de metade disso (12,5%). Os 15% restantes ficam nas mãos de órgãos do próprio governo, seguradoras e demais investidores (por exemplo, o Tesouro Direto).

Há quem acredite

que, já que devemos para nós mesmos e numa moeda que controlamos, não

deveríamos nos preocupar com a dívida, porque jamais chegaríamos à

situação de não ter como pagá-la.

Há também quem, como a Rainha

Vermelha das histórias de Alice, acredite em seis coisas impossíveis

antes do café da manhã, então isso não deveria nos espantar.

De

qualquer forma, Reinhart e Rogoff (no capítulo 7 da obra citada acima)

documentam também algumas dezenas de episódios de calotes envolvendo

dívidas domésticas, incluindo, para orgulho nacional, o Plano Collor em

1990, que curiosamente fica esquecido nesse recente debate.

Há, é

claro, a possibilidade de “monetização” da dívida, isto é, da criação de

reservas bancárias por meio do BC para pagamento tanto do seu serviço

quanto do principal.

A possibilidade é defendida pelos discípulos

da Rainha Vermelha em texto recente, que foi devidamente rebatido por

Samuel Pessôa, autor do segundo dos artigos em que me apoio, e também por Ilan Goldfajn.

Como

lembrado pelo Samuel, mesmo se resolvida a restrição legal ao

financiamento do Tesouro Nacional pelo BC, esta “estratégia” implicaria

no abandono do regime de metas para a inflação. A bem da verdade, ela

implicaria o abandono de qualquer âncora nominal para o nível de preços,

que se tornaria indeterminado.

A âncora, no caso do regime de

metas, é a regra de política monetária, que, muito simplificadamente,

envolve elevação mais que proporcional da taxa de juros em resposta ao

aumento da inflação esperada e vice-versa.

É possível demonstrar que qualquer regra que obedece a este princípio (conhecido como Princípio de Taylor) tem a propriedade de estabilizar a inflação; já sua violação implica perder o controle inflacionário.

O

que poderia, portanto, ocorrer caso a dívida, denominada em moeda

nacional e detida principalmente por residentes, continuasse a crescer

mais rápido do que o PIB, sem indicações de reformas que possam

estabilizá-la em horizonte razoável?

Dado que o crescimento da

dívida relativamente ao PIB depende da diferença entre a taxa de juros e

o crescimento nominal do PIB (ou seja, o crescimento real do produto

acrescido da inflação), uma alternativa seria fixar a taxa de juros

abaixo da inflação, ou seja, uma taxa real de juros negativa,

presumivelmente negativa o suficiente para compensar a existência de

déficits primários que continuariam requerendo a emissão de dívida nova.

Obviamente,

isto requereria, além de considerável encurtamento do prazo e duração

da dívida (por meio de LFTs), também algum grau de repressão financeira

para forçar goela abaixo de poupadores rendimentos inferiores à inflação

(seria mais vantajoso gastar o dinheiro ou comprar bens reais, como

imóveis, para se proteger da alta de preços).

Todavia, mesmo sob

repressão financeira, caso a taxa de juros não seja congruente com a

manutenção da inflação na meta (o que só ocorreria por coincidência mais

que improvável) esta última sairia de controle.

Colocada de outra

forma, a estabilização da dívida e seu eventual encolhimento

relativamente ao PIB se daria pela corrosão de seu valor mediante

inflação elevada, não reposta pela remuneração dos títulos públicos.

As

projeções de endividamento público que emergem do cenário explorado na

minha coluna da semana passada (algumas das quais estão resumidas no

gráfico acima) apontam para evolução preocupante da dívida.

A

estabilização ali aventada (apenas a partir de meados da próxima

década!) decorre da suposição de manutenção do teto de gastos públicos,

que, por sua vez, depende da capacidade de reformar rapidamente a

estrutura de gastos no país.

Face à incapacidade de promover

reformas profundas e rápidas, estamos nos encaminhando para uma

“solução” inflacionária de nosso endividamento. A tinta em que este

destino está escrito ainda não secou completamente, mas falta pouco para

que esteja definitivamente selado.

E nem precisamos da Rainha Vermelha para acreditar nisso…

Fonte: Infomoney

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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