No curto prazo a pandemia foi desinflacionária, com desaceleração dos núcleos de inflação
Com base nos dados disponíveis até aqui, parece que o PIB
brasileiro terá queda entre 4% e 5% em 2020, distante dos piores cenários
contemplados no início da pandemia, contração entre 9% e 11%. Considerando as
projeções para 2021, os fatores de incerteza são vários: a intensidade
remanescente da propagação do vírus, bem como o impacto da redução dos estímulos
fiscais, e em que medida isto poderá ser compensado por uma queda da taxa de
poupança das famílias.
Os efeitos da política fiscal sobre a evolução das condições
financeiras, bem como o ambiente global, terão também influência importante.
Nesse contexto, o cenário central é uma expansão do PIB entre 3% e 4% – nada
exuberante se levarmos em conta que o carrego estatístico de 2020 para 2021
deve ser elevado.
No curto prazo a pandemia foi desinflacionária, com
desaceleração dos núcleos de inflação
Em um primeiro trabalho, “Medindo a renda disponível para
famílias durante a crise da covid-19”, estimamos que esta (incluindo
transferências de renda) iria aumentar no 2T20, em razão do auxílio
emergencial, apesar da queda da massa de rendimentos do trabalho. Também
estimamos aumento da renda disponível no 3T20 com extensão desse programa e
alguma recuperação do mercado de trabalho. Concluímos que tal aumento de renda
disponível poderia se transformar em aumento do consumo e que a taxa de
poupança das famílias deveria aumentar temporariamente devido ao isolamento
social e motivos precaucionais.
Outro trabalho, “Atividade regional, mobilidade e Auxílio
Emergencial”, estimou como a pandemia e as transferências de renda diferem
entre as regiões do país, influenciando a velocidade da retomada econômica.
Neste texto, mostramos como o consumo de bens, em especial, está com
recuperação mais acentuada no Nordeste, já acima do nível pré-pandemia,
enquanto o consumo de serviços vem tendo uma retomada mais lenta em todas as
regiões, apesar de uma performance melhor no Norte e Nordeste.
Identificamos também que o controle da mortalidade por
covid-19 tem sido um fator decisivo para recuperação da atividade – o consumo
em municípios com menor repasse do auxílio emergencial, mas com menor
mortalidade, já estava acima do observado naqueles com maior repasse e maior
mortalidade, e regiões com menor taxa de óbitos já estavam com consumo próximo
ao nível pré-pandemia. O elo direto entre mortalidade e consumo ressalta a
importância da superação do vírus para termos uma recuperação consistente da
economia.
O choque da pandemia afetou também de forma importante o
processo inflacionário, no Brasil e no mundo. No material “Impactos da pandemia
na inflação no mundo e no Brasil”, mostramos que no curto prazo a pandemia foi
desinflacionária no Brasil e no mundo, com desaceleração dos núcleos de
inflação em praticamente todos os países, mas este foi um movimento que fez
piso em abril e maio. A inflação acelerou em itens cuja demanda durante a
pandemia foi mais forte, como alimentos, artigos para casa e itens de higiene
pessoal, e desacelerou, em alguns casos até com deflação, em itens mais
sensíveis à dinâmica do vírus/isolamento social, como alimentação fora do
domicílio, vestuário e turismo.
É interessante notar também que a pandemia alterou padrões
de gastos. No relatório “Dinâmica da inflação e gastos das famílias durante a
pandemia” identificamos aumento de gastos em supermercados e itens eletrônicos,
enquanto o dispêndio em outros itens, como restaurantes e vestuário, se
encontra ainda em patamar deprimido. Analisamos esta dinâmica sobre os sinais
de inflação medidos pelo IPCA: setores de bens e serviços que registraram
aumento (queda) nos gastos (online e presencial) estão entre aqueles que
apresentaram maior aceleração (desaceleração) na inflação ao longo deste ano.
Finalmente, estudamos também o comportamento dos diferentes
índices de inflação. Em “O que explica o descolamento recente entre o IGP e o
IPCA?” mostramos por quais razões acreditamos que a alta do IGP não irá se
transformar em alta do IPCA. Apesar do IGP sofrer pressões de commodities em
reais (que já incorpora a também intensa depreciação cambial durante o ano), o
repasse ao IPCA está mais concentrado em alimentos e alguns itens industriais
com dispersão setorial. Já o componente de serviços, com maior peso no IPCA,
segue com comportamento benigno na margem, contribuindo para uma leitura mais
comportada da inflação ao consumidor.
Escrevemos também sobre o desafio fiscal e o (relacionado) comportamento da taxa de câmbio, mas esses são temas para outra coluna. Caso tenham interesse em aprofundar as leituras sobre a economia da pandemia, nosso acervo de estudos está em nossa seção de relatórios no site do Itaú BBA.
Fonte: Valor Econômico
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
