Economia da pandemia

Mario Magalhães Carvalho Mesquita

No curto prazo a pandemia foi desinflacionária, com desaceleração dos núcleos de inflação

Com base nos dados disponíveis até aqui, parece que o PIB

brasileiro terá queda entre 4% e 5% em 2020, distante dos piores cenários

contemplados no início da pandemia, contração entre 9% e 11%. Considerando as

projeções para 2021, os fatores de incerteza são vários: a intensidade

remanescente da propagação do vírus, bem como o impacto da redução dos estímulos

fiscais, e em que medida isto poderá ser compensado por uma queda da taxa de

poupança das famílias.

Os efeitos da política fiscal sobre a evolução das condições

financeiras, bem como o ambiente global, terão também influência importante.

Nesse contexto, o cenário central é uma expansão do PIB entre 3% e 4% – nada

exuberante se levarmos em conta que o carrego estatístico de 2020 para 2021

deve ser elevado.

No curto prazo a pandemia foi desinflacionária, com

desaceleração dos núcleos de inflação

Em um primeiro trabalho, “Medindo a renda disponível para

famílias durante a crise da covid-19”, estimamos que esta (incluindo

transferências de renda) iria aumentar no 2T20, em razão do auxílio

emergencial, apesar da queda da massa de rendimentos do trabalho. Também

estimamos aumento da renda disponível no 3T20 com extensão desse programa e

alguma recuperação do mercado de trabalho. Concluímos que tal aumento de renda

disponível poderia se transformar em aumento do consumo e que a taxa de

poupança das famílias deveria aumentar temporariamente devido ao isolamento

social e motivos precaucionais.

Outro trabalho, “Atividade regional, mobilidade e Auxílio

Emergencial”, estimou como a pandemia e as transferências de renda diferem

entre as regiões do país, influenciando a velocidade da retomada econômica.

Neste texto, mostramos como o consumo de bens, em especial, está com

recuperação mais acentuada no Nordeste, já acima do nível pré-pandemia,

enquanto o consumo de serviços vem tendo uma retomada mais lenta em todas as

regiões, apesar de uma performance melhor no Norte e Nordeste.

Identificamos também que o controle da mortalidade por

covid-19 tem sido um fator decisivo para recuperação da atividade – o consumo

em municípios com menor repasse do auxílio emergencial, mas com menor

mortalidade, já estava acima do observado naqueles com maior repasse e maior

mortalidade, e regiões com menor taxa de óbitos já estavam com consumo próximo

ao nível pré-pandemia. O elo direto entre mortalidade e consumo ressalta a

importância da superação do vírus para termos uma recuperação consistente da

economia.

O choque da pandemia afetou também de forma importante o

processo inflacionário, no Brasil e no mundo. No material “Impactos da pandemia

na inflação no mundo e no Brasil”, mostramos que no curto prazo a pandemia foi

desinflacionária no Brasil e no mundo, com desaceleração dos núcleos de

inflação em praticamente todos os países, mas este foi um movimento que fez

piso em abril e maio. A inflação acelerou em itens cuja demanda durante a

pandemia foi mais forte, como alimentos, artigos para casa e itens de higiene

pessoal, e desacelerou, em alguns casos até com deflação, em itens mais

sensíveis à dinâmica do vírus/isolamento social, como alimentação fora do

domicílio, vestuário e turismo.

É interessante notar também que a pandemia alterou padrões

de gastos. No relatório “Dinâmica da inflação e gastos das famílias durante a

pandemia” identificamos aumento de gastos em supermercados e itens eletrônicos,

enquanto o dispêndio em outros itens, como restaurantes e vestuário, se

encontra ainda em patamar deprimido. Analisamos esta dinâmica sobre os sinais

de inflação medidos pelo IPCA: setores de bens e serviços que registraram

aumento (queda) nos gastos (online e presencial) estão entre aqueles que

apresentaram maior aceleração (desaceleração) na inflação ao longo deste ano.

Finalmente, estudamos também o comportamento dos diferentes

índices de inflação. Em “O que explica o descolamento recente entre o IGP e o

IPCA?” mostramos por quais razões acreditamos que a alta do IGP não irá se

transformar em alta do IPCA. Apesar do IGP sofrer pressões de commodities em

reais (que já incorpora a também intensa depreciação cambial durante o ano), o

repasse ao IPCA está mais concentrado em alimentos e alguns itens industriais

com dispersão setorial. Já o componente de serviços, com maior peso no IPCA,

segue com comportamento benigno na margem, contribuindo para uma leitura mais

comportada da inflação ao consumidor.

Escrevemos também sobre o desafio fiscal e o (relacionado) comportamento da taxa de câmbio, mas esses são temas para outra coluna. Caso tenham interesse em aprofundar as leituras sobre a economia da pandemia, nosso acervo de estudos está em nossa seção de relatórios no site do Itaú BBA.

Fonte: Valor Econômico

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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