Valor (publicado em 21/06/2021)
Os partidos do campo democrático progressista precisam se organizar para construir uma candidatura competitiva a presidente da República para a campanha do próximo ano ou o Brasil corre o risco de ter que conviver com o bolsonarismo revigorado. A decisão do PSDB e do PT de se aliarem a forças – “sinistras” – enquanto estavam no poder em vez de trabalharem em conjunto em favor de princípios que lhes são comuns, como a defesa da democracia e de políticas de redução da desigualdade e de valorização do meio ambiente e da cultura, já causou estragos, tendo sido fator importante na eleição de Jair Bolsonaro.
As afirmações são de Eduardo Giannetti, economista com
doutorado em Cambridge e autor de uma série de livros, o mais recente “O Anel
de Giges”. Nesta entrevista, ele traça um cenário perturbador para o país com a
possibilidade de polarização na campanha de 2022 entre Bolsonaro e o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Giannetti imagina que a maioria dos
brasileiros, inclusive ele, rejeita a possibilidade hoje mais provável para o
segundo turno – Bolsonaro versus Luiz Inácio Lula da Silva. Ele teme que a
polarização entre os dois volte a dividir o país ao meio. “Acho que corremos um
risco institucional se esticarmos essa corda até o limite com dois candidatos
que despertam sentimentos muito violentos a favor e contra.”
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Valor: Como o senhor analisa a atual situação do
Brasil, especialmente o cenário político?
Eduardo Giannetti: O Brasil está diante de uma
encruzilhada em 2022. Olhando em retrospecto a experiência da redemocratização,
é possível constatar que houve um caminho bastante coerente de experimentação
das forças democráticas que foram gestadas durante o regime militar.
Primeiro, tivemos a grande força oposicionista ao regime
militar que foi o MDB de Ulysses Guimarães e [José] Sarney; depois o PSDB,
liderado pelo Fernando Henrique Cardoso, viabilizado pelo sucesso do Plano
Real, e, por fim, a última grande força democrática de oposição ao regime militar,
o PT, com a eleição do Lula, que teve sequência com o governo da Dilma
[Rousseff]. A única peça que não se encaixa nesse enredo foi o [Fernando]
Collor, rapidamente expelido da cena pelo impeachment. É curioso que as grandes
forças democráticas surgidas durante o governo militar tiveram sua chance de
exercer o poder e mostrar a que vieram. O impeachment da Dilma e a eleição do
Bolsonaro demarcam o fim desse ciclo, com a interrupção violenta de um mandato,
no caso da Dilma, e a eleição de um “outsider”, Bolsonaro, que mergulhou o país
numa aventura muito perigosa. E agora estamos diante de uma encruzilhada porque
a eleição do Bolsonaro fratura o Brasil. Acredito que se as forças de oposição
do campo democrático progressiva não conseguirem construir uma candidatura real,
competitiva, corremos o risco de ter um bolsonarismo revigorado em 2022.
Valor: Como o senhor explica a eleição do Bolsonaro?
Giannetti: É lógico que há um grande número de
variáveis que influenciaram a eleição, inclusive fatores aleatórios, como a
facada. Mas acredito que um fator que todos nós do campo democrático deveríamos
considerar é que o fato de não se ter conseguido trabalhar cooperativamente
durante a redemocratização abriu o caminho para a ascensão de um candidato
populista de direita radical. Tanto o PSDB como o PT, quando estiveram no
poder, preferiram se aliar ao que há de mais sinistro na política do que
trabalhar de forma conjunta e cooperativa. O que é muito estranho porque na
essência programática – é claro que há muitas divergências entre eles – há
forte sobreposição de valores e propostas. Mas acabou prevalecendo um certo sectarismo
que impediu as forças democráticas, quando foram situação, de unir forças para
avançar num projeto comum de redução da desigualdade, de preservação do meio
ambiente, de aperfeiçoamento da democracia.
Lula teve uma postura de estadista no primeiro mandato.
Mas com o mensalão, essa postura se perdeu”
Valor: Qual o peso do sentimento antipetismo na
vitória do Bolsonaro?
Giannetti: Acho que o momento mais belo da
redemocratização no Brasil foi a alternância de poder na transição do segundo
mandato do FHC para Lula. E a redemocratização teve propriedades até
surpreendentes para muitos analistas, como a extrema responsabilidade com que o
Lula e seu governo no seu primeiro mandato fizeram essa transição. No campo da
política econômica, foi absolutamente exemplar o modo como ele, tendo herdado
uma situação difícil – em grande parte provocada pela ameaça que um governo
petista e Lula representava por tudo que tinham dito antes – mostraram na
prática um compromisso com a racionalidade econômica, com superávits fiscais
até maiores do que tinham sido praticados no segundo mandato do FHC. Isso
plantou a semente de esperança de que o Brasil tinha amadurecido e que
estávamos de fato avançando. Foi também uma grande conquista do primeiro
mandato do Lula a ampliação dos programas sociais. E uma presença no ministério
de líderes nas suas respectivas áreas que não eram parte do mundo fechado do
PT. O Lula teve uma postura de estadista no primeiro mandato. Mas com o
mensalão e a situação precária que se estabeleceu com a ameaça ao mandato, essa
postura infelizmente se perdeu. Ele acabou se entregando às forças mais
sinistras da política. E a partir daí houve um retrocesso na política econômica
e uma escolha tremendamente equivocada da Dilma como candidata a presidente, que
se revelou um descalabro épico na gestão econômica. Acrescente-se a isso a
leniência com a corrupção. Por mais que sejam condenáveis práticas depois
apuradas do então juiz Sergio Moro e membros do Ministério Público, o que se
levantou na Lava-Jato é uma realidade, que nós, brasileiros, precisávamos
conhecer. Não atribuo a responsabilidade disso diretamente a governantes que
queriam enriquecimento pessoal, mas eles fizeram vistas grossas por muito tempo.
Valor: Esse quadro ajudou no surgimento de uma
candidatura como a do Bolsonaro?
Giannetti: O eleitorado brasileiro já estava em busca
de um “outsider” porque houve uma desmoralização de todo status quo político.
Há uma crise de representação. Junho de 2013 explicitou de maneira inequívoca a
perda de credibilidade da política institucionalizada no país. E o anti-PT é
parte disto. Não foi só o PT que foi derrotado em 2018. Foi todo o campo
democrático progressista e toda a política institucionalizada. Quando a Marina
[Silva], depois da morte do Eduardo Campos, teve uma ascensão vertiginosa, e
foi muito violentamente atacada pelo governo Dilma na campanha, o crescimento
dela já era o eleitorado em busca de um “outsider”. Eu acredito que a violência
na campanha de 2014 deixou uma cicatriz na oposição e no campo democrático
porque o grau de virulência ali quase que interditou a possibilidade de
cooperação e diálogo. O antipetismo é parte desse desmoronamento do
“establishment” político.
Valor: Hoje continua forte esse sentimento, a busca
pelo “outsider”?
Giannetti: Bolsonaro se apresentou como “outsider”,
mas, no fundo, ele sempre foi o pior “insider” e acabou se jogando nos braços
do Centrão para impedir o impeachment em meados de 2020. Acredito que no campo
bolsonarista há uma frustração e desilusão em relação ao que se revelou da
pessoa e do governo Bolsonaro. A inépcia, o oportunismo que prevaleceram nas
políticas em relação à saúde, por exemplo, mostraram o obscurantismo e a
gravidade e a extensão da irresponsabilidade do governo que o Brasil
desafortunadamente escolheu.
Valor: E na área econômica?
Giannetti: Acho que o desapontamento aí também é
grande porque as bravatas da campanha mostraram o engodo e as mentiras que se
praticaram. Paulo Guedes dizia que iria zerar o déficit primário no primeiro
ano de mandato, que iria privatizar R$ 1 trilhão, que faria as reformas
tributária e administrativa. A medida mais importante que aconteceu, a reforma
da Previdência, saiu muito mais por causa da iniciativa do Congresso. O caso da
reforma tributária é gritante. Até hoje, o governo nem sequer mandou sua
proposta – apenas a sugestão de fusão de dois impostos federais. Há uma
frustração, mas o apelo do Bolsonaro, pelo seu populismo de direita, é muito
emocional para o brasileiro comum, que está cansado de tudo isso, que está
farto de corrupção. Tudo isso tem um apelo que não pode ser subestimado.
Bolsonaro já indicou que não vai aceitar o resultado da
eleição se for derrotado. É um quadro muito preocupante”
Valor: Como o senhor analisa o papel do Lula como
candidato a presidente?
Giannetti: A figura do Lula me preocupa muito. Por
tudo o que aconteceu no segundo mandato, no governo Dilma, na Lava-Jato, na
prisão, ele se tornou uma figura altamente divisiva. Como Bolsonaro, ele divide
o país ao meio. Temos dois candidatos a presidente que dividem o país. Os
brasileiros têm sentimentos muito polarizados em relação aos dois.
Valor: Como é o mapa das possibilidades que o senhor
desenha para as eleições então?
Giannetti: A primeira pergunta é se haverá segundo
turno. Eu creio fortemente que sim. O mais provável hoje é Bolsonaro versus
Lula. O menos provável são dois outros candidatos no segundo turno que não os
dois. Mas vale lembrar um ditado que ouvia sempre na Inglaterra: “a week is a
long time in politics” [uma semana é um longo tempo em política]. Acontecem
facadas, prisões, meteoros.
Valor: Nesse quadro de possibilidades, o que seria
desejável do ponto de vista ético?
Giannetti: Tem duas maneiras de ordenar as
preferências. Quais são as preferências hoje do eleitorado brasileiro e as
preferências individuais, o que seria melhor para o Brasil no segundo turno,
ponderando os prós e contras de cada possibilidade. Minha intuição diz que a
grande maioria dos brasileiros prefere evitar a polarização entre Bolsonaro e
Lula. Eu particularmente preferiria isso. Porque essa polarização divide o país
ao meio e não vamos caminhar bem com um país rachado, fraturado.
Valor: Pesquisas recentes mostram que algo como 65%
dos brasileiros não apoiam o governo Bolsonaro. Isso significaria uma
possibilidade maior de um segundo turno com Lula em vez do Bolsonaro?
Giannetti: Não acho que as pessoas que desaprovam o
Bolsonaro votariam no Lula. É uma premissa complicada. O que eu gostaria de ver
é uma pesquisa sobre a possibilidade de repetição do cenário de 2018, Bolsonaro
versus PT, em 2022. Agora, eticamente, se chegarmos a Lula e Bolsonaro, não há
a menor dúvida de que a opção será Lula. Mas se a lógica dá o mapa das
possibilidades e a ética é a bússola, a política mostra o caminho, mas o
cenário ainda é fluido. Se houver um grande número de candidatos, dificilmente
outro candidato que não Lula e Bolsonaro chegará ao segundo turno porque os
dois têm um eleitorado fiel. Para quem quer evitar a polarização entre os dois,
não é interessante a pulverização de muitas candidaturas.
Valor: Como o senhor vê outros candidatos que não Lula
e Bolsonaro?
Giannetti: Entre os presidenciáveis hoje, só existem
dois que, quando falam, o brasileiro comum ouve como se essa pessoa estivesse
falando diretamente com ele, e são Lula e Bolsonaro. Os outros candidatos quando
falam parecem que estão se dirigindo para os Jardins, para o Leblon, para os
universitários. Os brasileiros comuns não os ouvem, não os recebem como pessoas
que tiveram experiências de vidas parecidas com eles. A postura deles, a
linguagem, a postura passam por cima do brasileiro comum. O PSDB em toda sua
trajetória, nunca criou uma liderança com o dom de falar diretamente com o
povo. Um terceiro candidato contra Lula e Bolsonaro tem que ter forte apelo
popular, tem que ter acesso ao coração do brasileiro comum. Esse candidato
poderia atrair eleitores do Lula e do Bolsonaro, mas o difícil é encontrar uma
liderança com o talento, a disposição, a capacidade de enfrentar figuras tão
astuciosas e tão capazes de se comunicar, com retórica e carisma.
Valor: O senhor mencionou a possibilidade de graves
conflitos se houver um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. O que teme
exatamente?
Giannetti: Um duelo entre os dois divide e interdita
o país. E a campanha pode caminhar para um conflito violento. Bolsonaro já indicou
que não vai aceitar o resultado da eleição se for derrotado. E temos militantes
muito aguerridos dos dois lados. É um quadro muito preocupante.
Valor: Muitos acham possível que Bolsonaro tente um
golpe. O senhor concorda? E haveria uma reação muito forte da sociedade civil?
Giannetti: Acredito que haveria uma reação muito
violenta da sociedade – e necessária. Agora, os indícios de que há projeto
autoritário são inequívocos. São dois riscos. O primeiro é um confronto entre
Poderes, como uma decisão do Supremo [Tribunal Federal] que o presidente, o Executivo
não acate. Nós já estivemos perto de situações desse tipo. O outro caminho com
o qual Bolsonaro às vezes flerta é excitar o caos, a anarquia que justifique
uma ruptura autoritária para restabelecer a ordem. Se o país entrar em
convulsão, ele teria o prato cheio para realizar seu desejo de imposição de
ordem policial.
Valor: Como o senhor vê as manifestações de rua
contra o presidente?
Giannetti: Eu apoio todas as manifestações contra o
Bolsonaro, mas temo que elas possam inadvertidamente servir, se houver
violência, para alimentar essa tese sobre a anarquia.
Valor: O que poderia ajudar a amenizar esse cenário
de polarização na campanha de 2022?
Giannetti: Acho que ajudaria muito se o candidato
Lula fizesse um balanço do que deu errado na democracia para termos chegado ao
Bolsonaro, incluindo gestões petistas e fizesse um gesto de que se ele ganhar
as eleições será o Lula do primeiro mandato, com um ministério que não
represente apenas seu agrupamento político, mas sim a nação. Como foi no
primeiro mandato, que teve Gilberto Gil, Marina Silva, Luiz Fernando Furlan,
Cristovam Buarque, Roberto Rodrigues e Henrique Meirelles. O próprio [Antonio]
Palocci teve a capacidade de levar técnicos sérios como Ricardo Paes de Barros,
Joaquim Levy, Marcos Lisboa. Não eram quadros sectários. O Lula pode achar que
o centro já é dele e vai jogar para a esquerda, mas isso pode ser uma ilusão.
Todos os governos de líderes democráticos tiveram erros e acertos desde a redemocratização.
Está faltando esse balanço do que passamos – de erros e acertos que abriram
caminho para a eleição do Bolsonaro. Por outro lado, prospectivamente, teremos
que caminhar para compartilhamento de poder se quisermos superar os equívocos
que nos trouxeram até aqui. Não há por que os políticos que defendem o
essencial – defesa da democracia, medidas para redução da desigualdade,
preservação do patrimônio ambiental e cultural – não se unam. Se não, corremos
o risco de perder tudo o que conquistamos. Estamos diante de um perigo maior do
que o regime militar que é o bolsonarismo revigorado.
Valor: Com quais países o senhor traçaria um paralelo
com o que ocorre com o Brasil?
Giannetti: Um paralelo positivo é com os EUA, que se livrou de Donald Trump. Isso é um alento. O paralelo tenebroso é a trajetória que permitiu a vitória de [Adolf] Hitler no país mais educado e culto da Europa, a Alemanha. Social-democratas e comunistas brigaram entre si como se fossem os piores inimigos. Os social-democratas chamando os comunistas de bolcheviques e os comunistas chamando os social-democratas de social fascistas. Isso foi a tragédia alemã. Se compararmos o PSDB com a social-democracia e o PT com os comunistas… Disputaram 30 anos como se fossem inimigos mortais e abriram caminho para a direita populista.
Link da publicação: https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/06/21/temos-dois-candidatos-que-dividem-o-pais.ghtml
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