Geração “coronavírus” provavelmente será menos produtiva e mais desigual em relação às anteriores e posteriores
A educação foi um dos setores mais afetados pelas medidas de distanciamento social em todos os países que sofreram com uma pandemia. Como as escolas foram fechadas, as crianças estão tendo que aprender à distância, o que está prejudicando a aprendizagem e a saúde mental dos alunos, especialmente nas famílias mais pobres.
Ao mesmo tempo, os prefeitos receiam decretar a volta
imediata às aulas sem que o vírus esteja controlado, o que poderia provocar um
novo surto de casos nas cidades. Muitas perguntas permanecem sem resposta.
Quais os efeitos da pandemia na desigualdade futura? O aprendizado perdido
poderá ser recuperado? Deve haver reprovação em 2020? As aulas presenciais
deveriam voltar imediatamente?
Geração “coronavírus” provavelmente será menos produtiva e mais desigual em relação às anteriores e posteriores
A pandemia está aumentando as desigualdades educacionais e
de desenvolvimento infantil. As crianças mais pobres vivem em casas lotadas,
não têm acesso à internet e não têm quem as ajude a entender as aulas e fazer a
lição de casa, pois seus pais não chegaram ao ensino médio e estão tendo que
sair de casa para trabalhar, pois não podem fazer “home office”. As crianças
nas famílias mais ricas não têm essas dificuldades, mas também estão sofrendo
com o isolamento, que está prejudicando sua saúde mental. Assim, a geração
“coronavírus” provavelmente será menos produtiva e mais desigual com relação às
gerações anteriores e posteriores.
Mas esses efeitos serão muito diferentes entre os Estados
brasileiros. Segundo as informações coletadas pela Pnad-Covid, apenas 30% dos alunos
da rede pública no Pará receberam e estão fazendo atividades escolares
regularmente durante a pandemia, por exemplo, comparados com 76% dos alunos na
rede privada. Na Bahia, essas parcelas são de 56% na rede pública e 86% na rede
privada e no Rio de Janeiro 71% e 86%, respectivamente.
Por outro lado, nos Estados que têm um sistema público de
ensino mais organizado, como Ceará, São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, por
exemplo, a parcela de alunos com atividades escolares é alta e similar nas
redes públicas e privadas, chegando a atingir 94% dos alunos da rede pública no
Paraná. Assim, o aumento da desigualdade educacional será diferente entre os
Estados, o que provavelmente ampliará a desigualdade regional no futuro.
Mas, o que acontecerá com os jovens que não estão recebendo
atividades escolares à distância? Muitos provavelmente abandonarão a escola,
especialmente os mais velhos, que já repetiram de ano, assim que o mercado de
trabalho ou o crime organizado oferecerem mais oportunidades. Por exemplo, um
estudo que examinou os efeitos da pandemia de pólio em 1916 nos Estados Unidos,
que também provocou o fechamento das escolas americanas naquele ano, mostra que
muitos alunos não mais retornaram às escolas quando elas reabriram.
Além disso, os efeitos sobre o aprendizado nesse ano serão
grandes. O primeiro estudo a avaliar os efeitos do fechamento das escolas
devido à covid no aprendizado acabou de ser realizado na Bélgica, mostrando que
os alunos que concluíram o ensino primário esse ano tiveram grande perda de
aprendizado em matemática em relação aos alunos de gerações anteriores nas
mesmas escolas.1 Além disso, a desigualdade de aprendizado de matemática entre
os alunos aumentou 17% e os que já tinham mais dificuldades foram os que
sofreram as maiores perdas. Se isso está acontecendo na Bélgica, imagine o que
deve estar ocorrendo no Brasil?
Apesar disso, as escolas não deveriam reprovar nenhum aluno
em 2020, dadas as condições a que os alunos foram submetidos durante a
pandemia. Muitos alunos não receberam nenhuma atividade escolar de suas
escolas, não têm acesso à internet e muitos outros tiveram sua saúde mental
bastante afetada pelo isolamento social, medo da doença e estresse entre os
familiares. Aliás, deveríamos aproveitar e acabar de vez com a reprovação no
Brasil, que é uma das piores práticas educacionais existentes por aqui,
produtora de desigualdade e evasão escolar.
E a volta às aulas? Apesar de todos os efeitos deletérios
associados ao fechamento das escolas, acredito que as aulas presenciais só
deveriam retornar agora nas cidades em que a pandemia já está totalmente
controlada. A maior parte das escolas brasileiras não têm condições de fazer um
controle adequado dos casos entre os alunos e, portanto, os pais, professores e
funcionários teriam medo de contrair a doença. Assim, o ganho de aprendizado
nesses dois meses que restam até o final do ano seriam pequenos e provavelmente
não compensariam os riscos de aumento do número de casos, ainda mais porque não
sabemos ainda os efeitos de longo prazo da doença em quem é contaminado,
incluindo as crianças.
Assim, os municípios deveriam usar esse período até o final
do ano para avaliar o aprendizado perdido por cada aluno, oferecer atividades
de recreação, exercícios físicos e aconselhamento psicológico com rodízio de
alunos e planejar detalhadamente o reinício das aulas em 2021. É possível
recuperar grande parte das perdas de aprendizado ocorridas esse ano, desde que
esse planejamento inclua muitas aulas de reforço no contra-turno e através de
atividades on-line, com fornecimento de tablets e chips de acesso à internet
para os alunos mais pobres.
É importante destacar também que a longa duração do
fechamento de escolas e seu efeitos sobre o aprendizado decorrem em grande
parte da falta de uma política de saúde coordenada pelo governo federal para
lidar com a pandemia no Brasil. Se o governo tivesse mantido o ministro da
Saúde, coordenado um esforço nacional de produção de testes e usado as equipes
do programa Saúde da Família, provavelmente já estaríamos numa situação bem
mais tranquila e os alunos já teriam voltado às aulas normalmente, tal como
ocorre na China.
Em suma, os alunos estão sofrendo muito com o isolamento, as
perdas de aprendizado serão grandes no curto prazo e a desigualdade entre
alunos pobres e ricos e entre Estados deverá aumentar mesmo no longo prazo. Mas
é possível atenuar grande parte desses efeitos com um planejamento cuidadoso
para a volta às aulas, que só deverá ocorrer quando o vírus permitir.
1 Maldonado e De Witt, The Effect of School Closures on Standardised Student Test Outcomes.
Fonte: O Globo
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
