Educação na pandemia

Naercio Menezes Filho

Geração “coronavírus” provavelmente será menos produtiva e mais desigual em relação às anteriores e posteriores

A educação foi um dos setores mais afetados pelas medidas de distanciamento social em todos os países que sofreram com uma pandemia. Como as escolas foram fechadas, as crianças estão tendo que aprender à distância, o que está prejudicando a aprendizagem e a saúde mental dos alunos, especialmente nas famílias mais pobres.

Ao mesmo tempo, os prefeitos receiam decretar a volta

imediata às aulas sem que o vírus esteja controlado, o que poderia provocar um

novo surto de casos nas cidades. Muitas perguntas permanecem sem resposta.

Quais os efeitos da pandemia na desigualdade futura? O aprendizado perdido

poderá ser recuperado? Deve haver reprovação em 2020? As aulas presenciais

deveriam voltar imediatamente?

Geração “coronavírus” provavelmente será menos produtiva e mais desigual em relação às anteriores e posteriores

A pandemia está aumentando as desigualdades educacionais e

de desenvolvimento infantil. As crianças mais pobres vivem em casas lotadas,

não têm acesso à internet e não têm quem as ajude a entender as aulas e fazer a

lição de casa, pois seus pais não chegaram ao ensino médio e estão tendo que

sair de casa para trabalhar, pois não podem fazer “home office”. As crianças

nas famílias mais ricas não têm essas dificuldades, mas também estão sofrendo

com o isolamento, que está prejudicando sua saúde mental. Assim, a geração

“coronavírus” provavelmente será menos produtiva e mais desigual com relação às

gerações anteriores e posteriores.

Mas esses efeitos serão muito diferentes entre os Estados

brasileiros. Segundo as informações coletadas pela Pnad-Covid, apenas 30% dos alunos

da rede pública no Pará receberam e estão fazendo atividades escolares

regularmente durante a pandemia, por exemplo, comparados com 76% dos alunos na

rede privada. Na Bahia, essas parcelas são de 56% na rede pública e 86% na rede

privada e no Rio de Janeiro 71% e 86%, respectivamente.

Por outro lado, nos Estados que têm um sistema público de

ensino mais organizado, como Ceará, São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, por

exemplo, a parcela de alunos com atividades escolares é alta e similar nas

redes públicas e privadas, chegando a atingir 94% dos alunos da rede pública no

Paraná. Assim, o aumento da desigualdade educacional será diferente entre os

Estados, o que provavelmente ampliará a desigualdade regional no futuro.

Mas, o que acontecerá com os jovens que não estão recebendo

atividades escolares à distância? Muitos provavelmente abandonarão a escola,

especialmente os mais velhos, que já repetiram de ano, assim que o mercado de

trabalho ou o crime organizado oferecerem mais oportunidades. Por exemplo, um

estudo que examinou os efeitos da pandemia de pólio em 1916 nos Estados Unidos,

que também provocou o fechamento das escolas americanas naquele ano, mostra que

muitos alunos não mais retornaram às escolas quando elas reabriram.

Além disso, os efeitos sobre o aprendizado nesse ano serão

grandes. O primeiro estudo a avaliar os efeitos do fechamento das escolas

devido à covid no aprendizado acabou de ser realizado na Bélgica, mostrando que

os alunos que concluíram o ensino primário esse ano tiveram grande perda de

aprendizado em matemática em relação aos alunos de gerações anteriores nas

mesmas escolas.1 Além disso, a desigualdade de aprendizado de matemática entre

os alunos aumentou 17% e os que já tinham mais dificuldades foram os que

sofreram as maiores perdas. Se isso está acontecendo na Bélgica, imagine o que

deve estar ocorrendo no Brasil?

Apesar disso, as escolas não deveriam reprovar nenhum aluno

em 2020, dadas as condições a que os alunos foram submetidos durante a

pandemia. Muitos alunos não receberam nenhuma atividade escolar de suas

escolas, não têm acesso à internet e muitos outros tiveram sua saúde mental

bastante afetada pelo isolamento social, medo da doença e estresse entre os

familiares. Aliás, deveríamos aproveitar e acabar de vez com a reprovação no

Brasil, que é uma das piores práticas educacionais existentes por aqui,

produtora de desigualdade e evasão escolar.

E a volta às aulas? Apesar de todos os efeitos deletérios

associados ao fechamento das escolas, acredito que as aulas presenciais só

deveriam retornar agora nas cidades em que a pandemia já está totalmente

controlada. A maior parte das escolas brasileiras não têm condições de fazer um

controle adequado dos casos entre os alunos e, portanto, os pais, professores e

funcionários teriam medo de contrair a doença. Assim, o ganho de aprendizado

nesses dois meses que restam até o final do ano seriam pequenos e provavelmente

não compensariam os riscos de aumento do número de casos, ainda mais porque não

sabemos ainda os efeitos de longo prazo da doença em quem é contaminado,

incluindo as crianças.

Assim, os municípios deveriam usar esse período até o final

do ano para avaliar o aprendizado perdido por cada aluno, oferecer atividades

de recreação, exercícios físicos e aconselhamento psicológico com rodízio de

alunos e planejar detalhadamente o reinício das aulas em 2021. É possível

recuperar grande parte das perdas de aprendizado ocorridas esse ano, desde que

esse planejamento inclua muitas aulas de reforço no contra-turno e através de

atividades on-line, com fornecimento de tablets e chips de acesso à internet

para os alunos mais pobres.

É importante destacar também que a longa duração do

fechamento de escolas e seu efeitos sobre o aprendizado decorrem em grande

parte da falta de uma política de saúde coordenada pelo governo federal para

lidar com a pandemia no Brasil. Se o governo tivesse mantido o ministro da

Saúde, coordenado um esforço nacional de produção de testes e usado as equipes

do programa Saúde da Família, provavelmente já estaríamos numa situação bem

mais tranquila e os alunos já teriam voltado às aulas normalmente, tal como

ocorre na China.

Em suma, os alunos estão sofrendo muito com o isolamento, as

perdas de aprendizado serão grandes no curto prazo e a desigualdade entre

alunos pobres e ricos e entre Estados deverá aumentar mesmo no longo prazo. Mas

é possível atenuar grande parte desses efeitos com um planejamento cuidadoso

para a volta às aulas, que só deverá ocorrer quando o vírus permitir.

1 Maldonado e De Witt, The Effect of School Closures on Standardised Student Test Outcomes.

Fonte: O Globo

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Ouvir conteúdo

0 palavras · ~1 min de leitura

Publicações Recentes

Avanço do crime na economia formal nos leva para a várzea, onde não sabemos jogar, diz ex-presidente da Febraban

CDPP
·

Perigos, externos e internos

Giuliano Guandalini
·

Questão de impeachment de ministro do Supremo é pertinente nos casos Toffoli e Moraes, diz Giannetti

Giuliano Guandalini
·

'Brasil crescer 2,3% com juro a 15% é surpreendente', avalia Giannetti

Giuliano Guandalini
·
Podcast

Podcast do CDPP