Ensino médio ou ensino superior?

Naercio Menezes Filho

Valor

Uma parcela significativa dos nossos jovens continua sem perspectivas na vida. Muitos já saíram da escola, não encontram empregos que atendam suas expectativas e irão passar grande parte da sua vida passando do emprego informal para o desemprego, quando não acabam na criminalidade. Para conseguirmos aumentar o crescimento do PIB per capita e reduzir a desigualdade precisamos aumentar a qualificação dos jovens, para que eles possam trabalhar no setor formal da economia ou empreender gerando empregos.

A única maneira de transformar a vida dos jovens é através da educação, compreendida de forma ampla, englobando desde os estímulos na primeira infância, passando pelo desenvolvimento de habilidades cognitivas e socioemocionais e chegando ao processo educativo formal. Mas, qual deve ser a etapa final desse deste processo educativo para os jovens mais pobres: o ensino médio ou superior? Muitos argumentam que há excesso de formados no ensino superior, que acabam desempregados, defendendo que o ensino médio técnico seria suficiente para a maioria dos nossos jovens. Será verdade?

Para sabermos a resposta precisamos analisar os diferenciais de salários entre trabalhadores com diferentes níveis educacionais, que refletem a lei da oferta e da procura, que também funciona com a educação. O diferencial de salários depende do número de pessoas com cada nível educacional e da demanda da economia por estas pessoas. Se muitas pessoas atingem determinando nível, o diferencial de salários declina, pois o empregador tem muitas pessoas para escolher para cada função e pode pagar salários mais baixos. E quando a economia precisa de muitas pessoas com determinada qualificação, o salário destas pessoas aumenta para estimular a formação de um contingente maior.

A ideia de que o jovem de família pobre deve se contentar com o ensino técnico é elitista e está equivocada

A figura ao lado mostra o que ocorreu com estes diferenciais nos últimos 40 anos. Podemos notar que em 1981 o maior diferencial estava no ensino fundamental completo. Como mais da metade da população adulta brasileira ficava menos do que quatro anos na escola, os que completavam o ensino fundamental ganhavam em média 250% a mais do que os analfabetos. Naquela época, saber ler e escrever corretamente fazia toda a diferença e quem tinha essas habilidades (apenas 18% dos adultos) conseguia um bom emprego formal. Ao longo do tempo, como a maioria das crianças e jovens passaram a frequentar a escola até o ensino fundamental, esse diferencial foi declinando, chegando a 53% em 2021.

Interessante notar que o ensino médio nunca fez tanta diferença salarial com relação ao ensino fundamental completo, permanecendo ao redor de 30% desde 1981 até 2001 (9% por cada ano). E quando o número de pessoas com ensino médio aumentou, porque os jovens passaram a ficar mais tempo na escola, este diferencial começou a cair, chegando a 15% hoje em dia. Ou seja, o jovem que ficar três anos a mais na escola, aprendendo as cerca de 17 disciplinas e adiando a entrada no mercado de trabalho, vai ganhar em média apenas 15% a mais do que aquele que abandonou a escola no ensino fundamental (R$ 1.900,00 versus R$ 1.650,00).

A grande vantagem de concluir o ensino médio está na opção que o jovem ganha de fazer o ensino superior, que, aí sim, traz um grande diferencial de salários. Desde 2001, quem tem ensino superior completo ganha 2 vezes e meia o salário de quem tem apenas ensino médio (R$ 4.900 versus R$ 1.900). Interessante notar que este diferencial continuou elevado mesmo após o grande aumento de formados no ensino superior ocorrido nos últimos 40 anos, que passou de 3% em 1981 (abrangendo somente os filhos da elite) para 18% em 2021. Isso significa que muito provavelmente a demanda por pessoas com faculdade aumentou nesse período, caso contrário o grande aumento de oferta teria reduzido o diferencial de salários. Ou seja, a economia precisa de mais pessoas com ensino superior.

Mais ainda, um diploma de pós-graduação está pagando R$ 9.500,00 em média. E a taxa de desemprego é bem menor para aqueles com diploma de ensino superior ou pós-graduação. Ou seja, para conseguir mudar de vida hoje em dia no Brasil, você tem que ter pelo menos o ensino superior. Neste sentido, a ideia de que apenas uma elite deve fazer ensino superior, ou que o jovem que nasce em família pobre deve se contentar com o ensino técnico, é elitista e está equivocada. Vale notar que na Coreia mais da metade da população adulta tem ensino superior, ao passo que nos EUA são 37%. Ou seja, teríamos que dobrar a parcela de adultos com faculdade para alcançarmos os EUA e triplicar para chegarmos na Coreia.

Isso não significa que não possamos melhorar o ensino médio, permitindo mais flexibilidade, como prevê a reforma que introduziu o novo ensino médio. Agora, além das matérias tradicionais, que continuam sendo oferecidas, os jovens podem se especializar em uma das trilhas de aprendizagem: matemática, linguagem, ciências humanas, ciências da natureza e formação técnica ou profissionalizante. Vale notar que quem faz ensino técnico ganha 15% a mais do que quem para no ensino médio normal. Assim, o ensino técnico é uma maneira válida de atrair os alunos que não se interessam pelo ensino médio tradicional e que podem sair da escola antes de se formar.

Mas, é preciso ficar claro que a reforma do ensino médio por si só não vai mudar a vida dos nossos jovens. Isso só será conseguido com investimentos nos mais pobres desde a primeira infância, passando por reformas na gestão do ensino fundamental 1 e 2 e fazendo com o ensino superior seja o caminho natural até mesmo para os jovens mais pobres. Essa é a única maneira de aumentar a mobilidade entre classes no Brasil.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/ensino-medio-ou-superior.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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