ENTREVISTA: Intervenção na Petrobras mostra 'mão pesada' do controlador, diz Arminio

CDPP

Economista não vê mais espaço para venda de estatais na gestão Bolsonaro: “Esse governo privatizou zero até agora, zero”

Por Francisco Goés, Valor

O episódio de intervenção do presidente Jair Bolsonaro na

Petrobras demonstra a “mão pesada” do controlador em companhia estatal, e

sugere que o mesmo pode ocorrer com outras empresas governamentais e com concessionárias

de serviços públicos, diz o economista Arminio Fraga, sócio da Gávea

Investimentos e ex-presidente do Banco Central (BC). Em entrevista ao Valor,

Arminio afirma que, considerando a experiência brasileira, seria recomendável a

privatização de todas as estatais.

“O Estado como empresário tem sempre muitas dificuldades”,

diz. Mas ele não vê condições para privatizações de empresas públicas neste

governo. “Esse governo privatizou zero até agora, zero.”

Arminio vê o Banco do Brasil como estatal com boa

governança, um caso que pode ser replicado e aprofundado inclusive no próprio

banco público. No caso específico de Petrobras, considera “positiva” uma

possível recondução do conselho da Petrobras, hipótese sugerida pelo próprio

controlador.

O economista também acredita que a repercussão do caso

Petrobras deve ser suficiente para impedir que a petroleira arque com os custos

de um eventual subsídio para os caminhoneiros, base de apoio de Bolsonaro que

tem pressionado o presidente no tema dos combustíveis.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Qual é a sua percepção sobre a intervenção do

governo na Petrobras?

Arminio Fraga – A Petrobras é uma empresa. A mão

pesada do controlador, como agora, sugere que o mesmo pode ocorrer com outras

estatais e também com concessionárias. O Brasil é um país carente de

investimentos, que como um todo investe pouco e há muito tempo. E tanto do

ponto de vista do volume de investimento quanto da qualidade do investimento

esse tipo de atitude assusta muito. Um exemplo que me vem à cabeça: um avanço

importante nos últimos tempos foi a lei do saneamento, área em que as carências

no Brasil são imensas. É preciso que quem for investir nessa área se sinta

seguro e não tenha medo de que em algum momento algum prefeito diga: ‘vamos

segurar o reajuste, a população não está aguentando.’ Voltando às estatais,

penso que a nossa experiência recomenda a privatização de todas. O Estado como empresário

tem sempre muitas dificuldades. O modelo híbrido [da Petrobras] nem resolve as

questões públicas, nem se aproveita do que o modelo empresarial tem a oferecer.

Mesmo em uma empresa estruturada como a Petrobras, aconteceu o Petrolão, que

beira o inacreditável, mas aconteceu. E não faz muito tempo outro governo

segurou aumentos de preços de combustíveis, com custos enormes para a Petrobras

e seus acionistas, inclusive o Estado.

Valor: Ainda vê espaço nesse governo para

privatizações?

Fraga: Não vejo. Esse governo privatizou zero até

agora, zero. Seria delírio de minha parte imaginar que isso fosse acontecer.

Mas esses assuntos precisam ser debatidos. Nessas horas se constroem opiniões

fundamentadas sobre o tema. As pessoas começam a entender o que quer dizer de

fato privatizar. Foi bom no setor de telefonia, onde a população usufrui de

grandes benefícios. Vamos fazer o raciocínio inverso. Por que o governo haveria

de querer ser dono de uma empresa? Resposta: para desviar do modelo privado de

busca de eficiência. Então estamos falando de gastos públicos implícitos que

não estão no orçamento. Isso é inaceitável tanto do ponto de vista econômico

como político. Se eu fosse um parlamentar, pensaria duas vezes antes de dar

esse espaço para o executivo, a não ser que eu fosse parlamentar que estivesse

na ‘boquinha’. Será que isso é bom? Claro que não. Então tenho dificuldade com

o modelo de estatal. Entendo que possa ter empresa listada, com governança,

controles e transparência. Mas a governança tem que ser blindada.

Valor: De que forma?

Fraga: Tem que começar tirando o controle do governo,

não vejo razão para o governo ter controle de empresa alguma. O governo pode

até ter, para certos setores, como mencionei, algum tipo de veto estratégico, uma

‘golden share’, algo assim. ‘Não quero vender a Petrobras para a Petrobras da

China’. Ok, eu também não quero, me considero bem liberal, mas não faria isso.

Eu diria que o Banco do Brasil é o que temos de mais próximo nessa linha e

funciona bem, é um bom exemplo. Tem alçadas, tem controles, comitês,

transparência e clara cadeia de responsabilidade. Se esse caminho for seguido,

o ‘brinquedo’ orçamentário [do governo], opaco, deixa de ter graça e,

provavelmente, o governo acaba privatizando tudo. Cabe lembrar que o governo

sempre vai ser o regulador, sempre vai ter poder de polícia, de fiscalização.

Não há que temer.

Valor: A Lei das Estatais impede que o meio político

queira fazer indicações para o conselho de administração da Petrobras?

Fraga: Li que o governo quer reconduzir os atuais

conselheiros, o que seria positivo. Esse conselho tem muita gente boa, deixa a

turma trabalhar. Ali há resistências a abusos de poder. Se for isso está bom.

Mas se o governo aparecer com uma chapa que tenha por objetivo se apossar da

empresa para atingir objetivos políticos, aí seria grave. A lei requer um rito:

existe um comitê de nomeação onde se define perfil e se avaliam candidatos. O

controlador pode encaminhar sua proposta, mas passa por escrutínio e tem que

ser levado ao conselho. É verdade que o governo controla o conselho, então

volta a questão maior do controle. Mas no mínimo o processo de eventual

substituição do atual presidente passa por um filtro, o que não é irrelevante

porque as pessoas envolvidas aprovando nomes vão adquirir o peso da

responsabilidade.

Valor: Quais são as suas expectativas em relação à

Petrobras depois dessa intervenção?

Fraga: Tenho dificuldade em fazer grandes previsões,

mas acho que o assunto ficou público o suficiente para impedir que a Petrobras

arque com os custo de um eventual subsídio para esse setor [dos caminhoneiros].

Aliás, subsídio ao combustível fóssil é considerado em quase todo o mundo como

algo criminoso do ponto de vista ambiental. Se não houvesse estatal, não sei se

haveria greve. Eles [os caminhoneiros] poderiam ir pedir ao governo. Mas aí

caberia pensar: por que não um subsídio ao feijão, por exemplo? A coisa ia

ficar mais óbvia.

Essa [a dos caminhoneiros] é uma área em que o presidente tem uma base político-eleitoral forte e tem do outro lado, na mão dele, uma estatal, então ele fica meio refém dessa estória. O presidente também não é uma pessoa que quer privatizar, é o oposto. É curioso ter escolhido um ministro que queria privatizar. Suspeito que a Petrobras vai manter alguma regra razoável de paridade [de preços]. Não tenho a menor ideia o que vai acontecer com o subsídio, mas o que nós todos sabemos é que o orçamento [da União] está com espaço zero e se o governo esticar muito a corda o ambiente econômico-financeiro vai piorar, em função do estado frágil das finanças públicas do país. Não quer dizer que a ação da Petrobras vá voltar rapidamente porque quando se quebra a confiança a volta é lenta. Mas existem defesas armadas na forma de regras e políticas e não vai ser fácil para o novo presidente da Petrobras mudar isso. Essa é minha leitura, talvez um pouco otimista dessa situação.

Link da publicação: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2021/02/21/entrevista-interveno-na-petrobras-mostra-mo-pesada-do-controlador-diz-arminio.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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