Epidemia, ação coletiva e civilidade

Daniel Gleizer

É preciso resistir à pressão dos que buscam aproveitar o

embalo da crise sanitária para aumentar gastos e socializar dívidas

O combate à covid-19 exige que os membros da sociedade se comportem

de modo a promover o bem comum, neste caso, a debelação da pandemia. Mas a

conduta de cada indivíduo tende a privilegiar os seus interesses particulares e

deixar para os outros as iniciativas necessárias para que se alcance o objetivo

da coletividade. Este problema é conhecido pelos cientistas sociais como o

problema da ação coletiva. São situações nas quais a busca de cada indivíduo em

satisfazer seus interesses privados torna a coletividade incapaz de prover os bens

e serviços que são do interesse de todos.

Em geral este tipo de problema ocorre quando lidamos com

bens públicos. Bens públicos são aqueles que não podem ser oferecidos

exclusivamente a quem paga por eles e bens cujo consumo por uma pessoa não

reduz a habilidade de outra pessoa em usufrui-lo. Exemplos de bens públicos são

a justiça, defesa nacional, policiamento e assistência à população em situações

catastróficas.

É preciso resistir à pressão dos que buscam aproveitar a

crise da saúde para aumentar gastos e socializar dívidas

Diferentemente dos bens privados, em que o consumo de uma

unidade por um indivíduo, que paga por ele, elimina a possibilidade de consumo

desta mesma unidade por outro indivíduo, bens públicos podem ser usufruídos por

indivíduos que optam por não pagar pelo seu consumo. São os chamados “caronas”

(free-riders). O resultado é redução na oferta destes bens, frequentemente

acompanhados de sistemas de monitoramento e de imposição de custos aos

dissidentes. No limite, somente o Estado pode supri-los adequadamente,

custeando-os por meio de impostos.

Entre estes dois extremos há um contínuo de tipos de bens

onde outras considerações sociais e políticas determinam qual a combinação de

oferta pública e privada que prevalece numa determinada sociedade. Os serviços

de educação e saúde fazem parte deste grupo e há fortes razões para que sejam

oferecidos pela ação conjunta da iniciativa privada e do e do setor público.

O combate a uma pandemia é um bem público pois trata-se de

uma questão de saúde de proporções potencialmente catastróficas. Quanto mais

elevados forem os graus de contágio e de letalidade, maior o risco para a

população e o impacto sobre o sistema de saúde do país. No caso do novo

coronavírus estamos testemunhando o colapso no sistema de saúde de vários

países e de várias regiões do Brasil.

Como não há vacina contra a doença, nem protocolos

firmemente estabelecidos para a sua cura, a estratégia que resta para evitar um

efeito devastador sobre o sistema de saúde e, consequentemente, sobre o número

de vítimas na população, é o distanciamento social. Ele visa espalhar no tempo

o recurso ao sistema de saúde, possibilitando a ampliação do número de leitos e

demais meios de tratamento, assim como do estabelecimento de protocolos e

desenvolvimento de medicamentos.

Neste caso o problema de ação coletiva deriva daqueles que

acreditam que seu benefício em desrespeitar as regras de distanciamento social são

superiores aos de segui-las. Esta percepção pode resultar da desinformação, da

sensação de imunidade por não fazer parte de grupos de risco, de já ter

contraído a doença e dela ter se curado, ou de uma avaliação de que o risco econômico

do afastamento da atividade produtiva supera o risco de contrair a doença ou de

vir a falecer. Quanto maior o grupo de pessoas que agem desta forma, menor a

eficácia do afastamento e maior o risco para a coletividade. A situação é

agravada pela campanha de desinformação capitaneada pelo presidente da República,

que faz pouco caso da pandemia, contradiz seus ministros da Saúde e mina a

adesão ao distanciamento social.

É evidente que a opção pelo afastamento social resulta numa

parada súbita da atividade econômica. Permanecem em funcionamento apenas os

serviços essenciais para assegurar a sobrevivência durante o período de

distanciamento. É absolutamente crucial, portanto, que esta medida seja

acompanhada por ações de política econômica que permitam que as pessoas que se

encontram sem trabalhar possam sobreviver com dignidade e que as empresas que

se encontram em dificuldades devido ao distanciamento social temporário sejam

preservadas.

Simultaneamente, é crucial ampliar o sistema de saúde para

atender a população contaminada, que continuará a crescer, assim como os que padecem

de outras doenças.

A comparação entre as medidas de auxílio econômico adotadas

pelos diversos países mostra semelhança de diagnóstico, mas variações nos

modelos de implementação. Estes refletem suas características socioeconômicas e

sua capacidade de manejo dos instrumentos de política econômica, notadamente

sua situação fiscal. Mas estas iniciativas são muito mais fáceis de conceber do

que de executar. É preciso coordenação, capacidade de gestão e inovação.

No Brasil, assim como no resto do mundo, a contração da

demanda privada não reflete uma diminuição cíclica ou estrutural, mas sim uma

decisão administrativa temporária, com o objetivo de preservar vidas. A

expansão do gasto público dever focar na expansão do sistema de saúde e na

ampliação das medidas de sustentação social e empresarial, para minimizar o

custo da crise. É preciso resistir à pressão dos que buscam aproveitar o embalo

da crise sanitária para aumentar gastos e socializar dívidas que nada têm a ver

com a situação emergencial que estamos vivendo. Não podemos tornar permanentes

medidas que somente se justificam temporariamente.

Mas prevalece a desorganização e o oportunismo: “caronas”,

grupos de interesse, entes subnacionais e lideranças políticas inconsequentes

se unem para tirar proveito do pandemônio criado pela conjunção das crises

sanitária, econômica e política. O resultado é o pior dos mundos:

distanciamento social pouco eficaz, paralisação da atividade econômica presente

e o aprofundamento das dificuldades econômicas futuras que decorrerão da

epidemia.

O tempo é uma variável crucial quando lidamos com um processo que cresce de forma exponencial. Mas estamos jogando tempo fora. Ao tratar a pandemia sem uma abordagem coerente, coordenada e com o foco no bem comum, sacrifica-se a vida de milhares de brasileiros e o futuro dos que a ela sobreviverem. É preciso, urgentemente, restaurar o critério de civilidade na condução do país.

Fonte: Valor Econômico

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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Daniel Gleizer

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