Estadistas, populistas e a pandemia

Affonso Pastore

No início do ano, foi publicada uma

excelente biografia de Frank Ramsey, um cientista ligado à Universidade de

Cambridge, que em sua curta vida de apenas 27 anos deixou contribuições

marcantes nos campos da filosofia, da matemática e da teoria econômica. Na

economia, uma de suas contribuições foi uma modelagem matemática que permitiu

responder à pergunta: “Quanto a sociedade deve poupar para favorecer as

próximas gerações?”. Quanto mais deixarmos de consumir no presente, mais

investiremos elevando o produto, o consumo e o bem-estar das populações no

futuro. Para responder qual é a distribuição ótima entre as gerações, os

economistas contemporâneos incluem uma taxa de desconto para trazer a valor

presente o consumo das gerações futuras. Taxas de desconto mais elevadas

favorecem um consumo maior da geração presente, e planejadores que dão um peso

elevado ao bem-estar das gerações futuras preferem taxas de desconto mais

baixas. Ramsey tinha um profundo senso ético e grande apreço pelo bem-estar das

próximas gerações, o que o levou a utilizar uma taxa de desconto nula, dando

peso igual a todas as gerações.

Em um horizonte bem mais curto do que o

de uma geração, a pandemia impõe aos governos uma escolha semelhante. A adoção

do afastamento social poupa vidas à custa de uma recessão no presente, cujos

efeitos são parcialmente atenuados por medidas que impeçam a quebra de empresas

e compensem a queda de renda dos menos favorecidos, em troca de um crescimento

mais vigoroso adiante. No outro extremo, o afastamento social é abolido na

esperança de evitar uma recessão no presente, porém à custa de um enorme número

de mortes e de menor crescimento futuro. Se o governante responsável pela

decisão tiver respeito pelo futuro do país, decidirá como se tivesse uma taxa

de desconto baixa ou mesmo nula, respeitando as recomendações dos cientistas e

optando por um isolamento social mais rígido. Mas se o objetivo for manter sua

popularidade elevada no curto prazo para favorecer sua reeleição, atirará às

urtigas o futuro do país usando uma taxa de desconto muito alta.

Sempre acreditei que os estadistas têm

taxas de desconto bem menores do que populistas, e minha convicção cresceu

ainda mais ao ouvir o discurso de Boris Johnson quando deixou o hospital curado

do coronavírus. Tendo inicialmente manifestado dúvidas com relação à eficácia

do afastamento social e sido criticado fortemente por esse erro, não hesitou em

curvar-se humildemente às evidências dos cientistas do Imperial College of

London, voltando atrás em sua posição e decretando a continuidade do

afastamento social em todo o território inglês. Como um excelente biógrafo de

Churchill, não pode ser surpresa que tenha feito o discurso típico de um

estadista, conclamando o povo à união na guerra contra o vírus. Boris Johnson

viu a cara da morte e reduziu sua taxa de desconto para um nível muito mais

baixo do que a de populistas de direita, dos quais Trump é um exemplo que é

imitado por Bolsonaro.

Em um momento difícil como este, é

natural que no Brasil haja divergências. Empresários que construíram suas

empresas com o duro trabalho de décadas temem perdê-las ou a duras penas ter de

reconstruí-las. Pessoas humildes em cujas casas pobres vivem inúmeros

familiares perderam sua renda, passando a viver de transferências do governo.

Nos dois casos, a tentação é atribuir a culpa ao distanciamento social e,

quando cai o número de mortes, ambos lutam para que este acabe, sem se dar

conta que a queda do número de mortes é a consequência do afastamento ocorrido

anteriormente. A experiência do Japão e de Cingapura mostraram que é um erro

abandonar precocemente a quarentena. Caberia ao governo explicar à sociedade a

inevitabilidade da quarentena, trabalhando em um protocolo de saída que evite

um aumento do contágio, e não se acovardando em tomar as medidas compensatórias

que reduzam o custo durante o período de isolamento.

Mas não temos na Presidência um estadista, e sim um populista que, obcecado pelo objetivo de reeleger-se, tem uma taxa de desconto muito elevada, desprezando as consequências de seus atos sobre o futuro do País. Em vez de seguir o exemplo de Boris Johnson, reconhecendo humildemente seus erros e buscando unir os cidadãos, a intolerância e o radicalismo de Bolsonaro o levam a agredir todos os que divergem de suas ideias. Em vez de unir o País, ele o divide, com consequências muito negativas para o presente e para o futuro.

Fonte: Estado de SP

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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