Familismo amoral e a 'res publica' em tempos de populistas

Cristina Pinotti

A falta de confiança

entre as pessoas cria um terreno fértil para governos autocráticos minarem

instituições democráticas e modificarem os valores da sociedade.

Fogos de artifício

lançados contra o Supremo Tribunal Federal e palavras de ordem a favor do seu

fechamento são ameaças facilmente identificáveis e, felizmente, a vigorosa

reação da sociedade tem sido eficaz na sua neutralização. Mais difícil é

interpretar e resistir ao estrago provocado pela disseminação sistemática do

ódio e da falta de respeito à vida humana, diligentemente manipulada para

provocar a polarização da sociedade, com o consequente aumento da desconfiança

entre as pessoas e nas instituições. Chegamos a mais de 100 mil mortos pela

covid-19 — o número poderia ser muito menor, mas “e daí”?

Tal quadro nos

obriga a destrinchar as ideias e os valores que sustentam esse movimento, para

conter o seu fortalecimento. Hoje olho para o papel da confiança nas interações

sociais, cuja presença favorece atitudes cooperativas e construtivas em favor

da “res publica”, a coisa pública, produzindo o desenvolvimento econômico,

político e social de um país. A ausência da confiança gera um terreno fértil

para o surgimento de populistas.

Um dos elementos

mais importantes do que se define como “capital social” de um país, a confiança

entre as pessoas é o principal alvo contra o qual atiram governos autocráticos.

Na defesa dos seus interesses, e na busca da perpetuação no poder, se dedicam

não só a reescrever as leis (as instituições formais), mas também a alterar os

valores e crenças das pessoas (as instituições informais). Precisam, ao mesmo

tempo, desacreditar a Justiça e mudar as leis, pois sabe-se que pessoas que

confiam mais umas nas outras são mais propensas a respeitar as leis, da mesma

maneira que pessoas que acreditam que o sistema legal é justo e imparcial têm

maior probabilidade de confiar nos outros indivíduos.

A ausência de

confiança entre as pessoas é encontrada em países, regiões ou grupos que

geralmente permanecem à margem do desenvolvimento econômico e social, onde

impera o que Edward Banfield nomeou de “familismo amoral”, cujo lema é: só

respeite e só confie na sua família, jamais em estranhos. Vale a pena olhar de

perto o que vem junto com esse fenômeno, cuja relevância resistiu ao tempo,

pois ele lança luz sobre a origem de alguns dos problemas mais agudos que hoje

enfrentamos no país.

Banfield, um

cientista político da Universidade de Chicago, decidiu estudar a causa do

excepcional atraso econômico do sul da Itália, conforme contam Alberto Alesina

e Andrea Ichino. E para lá foi Banfield, com a mulher e filhos, e durante um

ano entrevistou os moradores de “Chiaromonte”, nome fictício de uma pequena

cidade isolada e muito pobre na Basilicata. Das entrevistas feitas com os

habitantes surgiu o livro “Moral Basis of a Backward Society”, publicado em

1958, que não só desvendou as raízes do atraso do local, como criou um conceito

fundamental para explicar os efeitos da cultura nos resultados socioeconômicos

em geral.

As entrevistas

apontaram a existência de uma peculiar estrutura familiar condicionando as

relações sociais. Além da certeza de que só deviam confiar na própria família,

as pessoas esperavam que todas as outras assim se comportassem, restringindo a

existência de comportamentos colaborativos apenas ao interior de cada família.

O medo de serem enganadas levava as pessoas a enganar as outras, conduzindo a

sociedade a um péssimo equilíbrio, um pernicioso círculo vicioso baseado na

desconfiança.

Não por acaso os

grupos mafiosos se autodenominam “famílias”. Banfield demonstra que as

consequências do familismo amoral são devastadoras para a economia e para a

sociedade de Chiaromonte. A falta de coordenação social impede que as demandas

por estradas, hospitais, iluminação e transporte públicos se concretizem.

Banfield notou que as casas onde as famílias moram eram bem cuidadas; já os

lugares públicos, como praças, ruas e estradas, seguiam mal cuidados ou

abandonados, explicitando a diferença entre valor atribuído pelas pessoas aos

bens privados e aos bens públicos.

Outra faceta do

familismo amoral se manifesta na esfera política. Para os moradores de

Chiaromonte, participar da política não significa cuidar da res publica no interesse

da coletividade e sim desfrutar de um instrumento que dá acesso a vantagens

pessoais, estendidas aos familiares. A expectativa é que todos os que entram na

política são aproveitadores corruptos, pois predomina a crença de que ações que

visem o bem comum só podem ser motivadas por segundas intenções, que mais

adiante se manifestarão na busca do benefício privado. O interesse social não é

representado politicamente, criando-se outra faceta do círculo vicioso da perda

de credibilidade das instituições. Essas crenças e comportamentos conduzem a

uma visão pessimista sobre a possibilidade de as coisas melhorarem na sociedade

e a um profundo fatalismo, impedindo o desenvolvimento coletivo, asfixiando a

economia, e criando um terreno fértil para que populistas assumam e permaneçam

no poder.

A crise financeira

de 2007/08 abalou a confiança das pessoas nas instituições, formais e

informais, ao explicitar a crescente desigualdade na distribuição dos frutos do

desenvolvimento econômico. O florescimento das redes sociais se encarregou de

espalhar os fatos, antes apenas pressentidos, junto com os quais vieram versões

tóxicas da realidade, com objetivos específicos de disseminar ódio e rancor

entre as pessoas, dividindo-as. Conflitos, antes latentes, afloraram, abrindo o

caminho para que populistas alimentassem o descontentamento com mais

desconfiança, transformando países em “Chiaromonti”, agrupamentos de pessoas

que desconfiam de todas as demais, bolhas que não se comunicam, que se odeiam e

se acusam mutuamente.

Vítimas que somos de tantos anos de “nunca antes neste país”, “nós contra eles”, “pretendo beneficiar meu filho sim”, “e daí”, “vou intervir” e tantas outras pílulas diárias de venenos destilados e espalhados pelos extremos do espectro político, cabe a cada um de nós resgatar a confiança mútua e fortalecer os laços sociais. Só o exercício da tolerância, o respeito ao bem comum e a defesa dos princípios democráticos vão nos livrar do obscurantismo e do familismo amoral, que nos afasta da rota do desenvolvimento econômico, político e social do país.

Fonte: Nexo Jornal

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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