Se o BC está convencido da necessidade de parar o afrouxamento monetário, deveria compartilhar com os demais os motivos dessa convicção. A falta de transparência já se manifesta em sua incapacidade de ancorar as expectativas de inflação em 2021

Sigo ainda desconfortável com o que parece ser o
rumo da política monetária, em particular a gana do Banco Central em
definir a priori um limite para a redução da taxa básica de juros num
cenário marcado por elevada incerteza.
Porta-voz não oficial do BC
justifica a postura do Comitê, mesmo em face de projeções de inflação
bem abaixo da meta no ano que vem (3,20% versus 3,75%), afirmando, em
primeiro lugar, que “não existe relação mecânica entre a projeção de inflação e decisões de política monetária”, o que é de uma obviedade atroz.
Mas,
por outro lado, isso não exime o BC de explicar exatamente por que
parece se agarrar a um limite de redução de juros que não guarda
consistência com sua própria visão acerca da inflação futura.PUBLICIDADE
Pela ata da última reunião do Copom, a justificativa seria a hipotética existência de um limite inferior para a Selic.
Como explorei em artigo recente,
tal limite seria determinado como o ponto a partir do qual a redução da
taxa de juros não mais estimularia a atividade (e, portanto, a
inflação), por força dos efeitos da desvalorização da moeda sobre os
passivos das empresas com dívidas em dólares.
Neste caso, segue o
argumento, o dólar mais caro aumentaria o valor em reais da dívida,
levando as empresas a cortarem gastos para adequar seu balanço à nova
realidade, o que faria, paradoxalmente, a atividade e a inflação caírem
ainda mais.
Como também tive oportunidade de explicar, tal efeito não parece ser prevalecente no conjunto das empresas.
Isso
porque – no balanço de ativos e passivos externos – as empresas
brasileiras registram, em média, mais ativos do que passivos em dólares,
enquanto seu passivo externo líquido é denominado em reais. Vale dizer,
o encarecimento do dólar melhora a média dos balanços.
Obviamente, algumas empresas perdem, outras ganham e o impacto final para um lado ou para o outro depende provavelmente do tamanho das empresas afetadas.
Seria
possível, por exemplo, que algumas empresas de grande porte sofressem
muito, de modo que o efeito sobre o conjunto da economia poderia ser
negativo. Mas, vamos falar a verdade, trata-se ainda de conjectura longe
de ser provada.
Mesmo porque, nos últimos anos, não há relatos de
empresas acumulando grandes dívidas em moeda estrangeira sem que tenham
também fração relevante de suas receitas atreladas ao dólar.
De qualquer forma, porém, uma nova justificativa emergiu.
Segundo o porta-voz, “o
Copom olha (…) [para] a inflação esperada, que representa a média
ponderada pelas probabilidades das projeções no cenário básico [isto é,
aquele divulgado pelo BC em atas e no Relatório Trimestral de Inflação] e
alternativos [que não são divulgados]”. Entre esses, “se destaca o cenário em que as programas de renda do governo se traduzem em queda menos intensa da atividade.”
Já
isto é mais interessante, embora – como o leitor atento deve ter notado
– acabe reintroduzindo a mesma “relação mecânica entre a projeção de
inflação e as decisões de política monetária”.
As projeções,
bem-entendido, não são as mesmas (imaginamos, porque o BC não divulga
seus cenários alternativos), mas a reação de política monetária vem daí
do mesmo jeito.
O que realmente me incomoda, porém, é a falta de transparência.
Nos regimes monetários contemporâneos, em particular no regime de metas para a inflação, a transparência é parte essencial do processo.
Não é por outro motivo que as decisões dos bancos centrais – há não muito tempo um procedimento envolto em segredo
– são amplamente divulgadas e um esforço considerável é dedicado para
justificá-las à luz dos objetivos de cada autoridade monetária,
considerando – é bom deixar claro – os limites da informação disponível
em cada momento.
Isso não ocorreu por acaso, ou por súbito acesso
de boa vontade, mas porque o esforço de construção de credibilidade dos
bancos centrais – aqui entendida no sentido estrito de ancorar as
expectativas de inflação à meta – depende crucialmente da capacidade do
público interessado ser capaz de julgar criticamente suas ações.
Noutro
contexto, por exemplo, de redução da taxa de juros, se resulta de
convicção justificada sobre os riscos de a inflação ficar abaixo da
meta, ou se representa tentativa de acelerar a atividade por motivos
políticos.
A única forma de avaliarmos isso é por meio do exame
crítico das condições que ditaram a decisão, dentre as quais as
projeções de inflação são talvez o elemento mais importante.
Decisões
tomadas à luz de projeções desconhecidas, com premissas não reveladas e
modelos secretos violam os requerimentos mais básicos de qualquer
regime monetário atual.
Se o BC está convencido da necessidade de parar o afrouxamento monetário, deveria compartilhar com os demais os motivos dessa convicção. A falta de transparência é o principal motivo para que o BC perca a batalha pela ancoragem das expectativas de inflação, fato que até seu porta-voz conseguiu perceber.
Fonte: Infomoney
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
