Mudança no Bolsa Família deveria esperar eleição

CDPP

Valor (publicado em 08/07/2021)

A reestruturação do

Bolsa Família ou a criação de um novo programa social, como quer o governo,

deveria ser deixada para depois das eleições de 2022 e, enquanto isso, o

programa poderia ser otimizado, com melhoria no Cadastro Único e elevação dos

valores pagos, afirmaram os economistas Marcos Mendes e Vinícius Botelho,

durante Live do Valor, ontem.

A

pandemia revelou milhões dos chamados “invisíveis”, trabalhadores informais que

não fazem parte de nenhum programa social e mostrou ser necessário uma iniciativa

mais bem focalizada para atender toda a parcela da população que está na linha

de pobreza e abaixo dela.

Esta, contudo, não é tarefa para este governo, avaliam Mendes, pesquisador

associado do Insper ,e Vinícius Botelho, ex-secretário dos ministérios da

Cidadania e Desenvolvimento Social. Junto a Fernando Veloso, do Instituto

Brasileiro de Economia (FGV Ibre), eles são os autores do Programa de

Responsabilidade Social, projeto que propõe um redesenho dos programas sociais

no Brasil.

Mendes

pondera que uma eventual reformulação no Bolsa Família deveria ser feita “na

margem”, ou seja, sem alterações estruturais. Estas, seriam realizadas pelo

governo que tomar posse em 2023. “O governo deveria ver o que pode fazer em

termos administrativos. Há um gargalo importante que é a atualização do

Cadastro Único.”

Já Botelho reforça que o Bolsa Família é reconhecido como uma das políticas

sociais de melhor focalização no mundo, mas há melhoria a serem feitas. “É

preciso cuidado. O sistema atual tem características boas e corre-se risco de,

ao fazer uma reforma estrutural, de se perder o que de bem foi feito nas

últimas décadas.”

Para

o momento, ele defende uma atualização dos valores pagos, que estão muito

defasados. A linha de pobreza definida no plano, de R$ 89 mensais, está mais

próxima de R$ 125, diz. “Precisa de reajuste e recomposição de benefícios.

Algumas regras que deveriam ser ajustadas para terem potência maior de combate

à pobreza.” A mudança de valor colocaria muitas pessoas dentro do programa.

Os

economistas avaliam como correta a extensão do auxílio emergencial até outubro,

anunciada nesta semana, já que a economia ainda sofre as consequências da

pandemia e há muitas pessoas entrando em situação de pobreza. Estudo feito por

Botelho no fim de 2020 estimava crescimento de 1 milhão de famílias em situação

de pobreza. “É considerável.”

Para

Marcos Mendes, a prorrogação do auxílio é interessante porque o país vive um

momento difícil para avançar em reformas estruturais. “Se tivéssemos feito [a

reforma dos programas sociais] em 2020, não seria necessário um auxílio

emergencial agora. Neste momento, o governo está muito frágil e qualquer

proposta corre o risco sério de ser distorcida, como ocorreu com a MP da

Eletrobras.”

Mendes

observa que, além da dotação inicial do auxílio este ano, de R$ 44 bilhões, o

governo vai colocar mais R$ 20 bilhões para prorrogá-lo. “Sobrecarrega as

contas públicas, mas talvez seja melhor isso que fazer uma reforma ruim,

sujeita a muito populismo, que seja difícil de consertar mais à frente.”

Entre outros pontos, o programa criado pelos economistas, com o patrocínio do Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), propõe a fusão do Bolsa Família com o abono salarial, seguro-defeso e salário-família, ampliando o público coberto, sem orçamento adicional. Cerca de 95% das famílias fora da estrutura de proteção social seriam atendidas.

Link da publicação: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/07/08/mudanca-no-bolsa-familia-deveria-esperar-eleicao.ghtml

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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