Não com um estrondo, mas um gemido

Alexandre Schwartsman

INFOMONEY

O orçamento imaginário recentemente aprovado representa mais um passo na desconstrução institucional do país

SÃO PAULO – Não bastasse a demora em sua aprovação, já no fim de

março, quase às vésperas da apresentação da Lei de Diretrizes

Orçamentárias para 2022, o orçamento do governo federal – que sempre

flertou com a ficção – virou agora uma peça de literatura fantástica.

se sabia que o projeto inicial, enviado em agosto do ano passado, havia

se tornado obsoleto, à luz, por exemplo, da elevação do salário mínimo

bem maior que a originalmente proposta (R$ 1.100,00 contra R$ 1.067,00).

No conjunto da obra, estimava-se defasagem de R$ 17,6 bilhões no

conjunto das despesas.

A tal montante, soma-se agora a subestimação dos gastos obrigatórios (benefícios previdenciários, abono salarial, seguro desemprego, dentre outros) de R$ 26,5 bilhões, ou seja, um total de R$ 44 bilhões.

Obviamente, dada a “folga” orçamentária assim criada, parlamentares

cuidaram de ocupar o espaço na forma de emendas para atender suas bases

políticas, cuja execução, a propósito, passou a ser obrigatória.

A

moral da história é que o volume de gastos, se executado de acordo com o

projeto aprovado, deve extrapolar o teto de gastos em R$ 44 bilhões,

lembrando que o auxílio emergencial recriado há pouco não está incluído

neste limite.

Para evitar tal resultado, sem alterar a lei

orçamentária, a alternativa restante seria o corte dos gastos

discricionários, ligados ao funcionamento da máquina pública e ao cada

vez mais esquálido investimento federal (exceto, claro, na área

militar), cuja consequência seria o risco de paralisia das operações do

governo (apesar da tentação, não, não é uma boa ideia).

O

interessante no caso é que, do ponto de vista formal, o teto de gastos

continua respeitado, seja pela exclusão do auxílio emergencial (o que é

correto), seja pela subestimação das despesas, que, na falta de melhor

expressão, é uma brincadeira de péssimo gosto.

Com isso, sem

medidas compensatórias, o déficit primário, orçado em cerca de R$ 250

bilhões (3,1% do PIB), atingiria quase R$ 300 bilhões (3,8% do PIB), o

segundo maior da série histórica, inferior apenas ao registrado no ano

passado.

Apesar da retórica, seja de governo, seja da oposição, o tal “austericídio” também deve ser classificado como literatura fantástica, merecendo talvez um dos capítulos do Livro de Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero, ao lado da Banshee e do A Bao a Qu.

O teto de gastos está, portanto, sendo comido pelas bordas. É bem

verdade que o IPCA medido em 12 meses até junho deste ano deve ficar bem

alto, ao redor de 7,5%, o que permitirá aumento do teto de gastos para

2022 na mesma proporção, dando fôlego adicional à medida.
É clara,

porém, a fadiga política com o instrumento, mesmo notando que, desde sua

criação, só tenha sido integralmente respeitado nos seus dois primeiros

anos, 2017 e 2018.

A “tecnologia” para driblar os limites

orçamentários sempre foi uma área de pesquisa de ponta no país, como

aprendemos com as pedaladas de Guido Mantega, Arno Augustin e sequazes.

Não é diferente agora.

Sempre soubemos que, na ausência de medidas que limitem o aumento do gasto obrigatório, o teto seria inviável.

Não digo isso agora; ao contrário, ainda antes de sua aprovação no final de 2016, já escrevia que “[ele] apenas explicita limites à despesa pública, que, na ausência de uma discussão adicional e mais profunda sobre a rigidez do gasto, condenam própria existência”.

O Congresso ainda não ousa revogar o

mecanismo, talvez receoso da reação negativa do dólar e dos juros, como

pudemos brevemente observar quando do balão de ensaio sobre a retirada do Bolsa-Família do teto.

Todavia,

a cada dia, como uma criança pequena, testa seus limites, lentamente

desconstruindo – como já foi feito com a Lei de Responsabilidade Fiscal,

ou com a reestruturação das dívidas estaduais no final dos anos 90 –

todo arcabouço institucional que limite a voracidade do poder público.

O teto não acabará com um estrondo, mas com um gemido.

Link da publicação: https://www.infomoney.com.br/colunistas/alexandre-schwartsman/nao-com-um-estrondo-mas-um-gemido/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newsletter-diaria

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Ouvir conteúdo

0 palavras · ~1 min de leitura

Publicações Recentes

Avanço do crime na economia formal nos leva para a várzea, onde não sabemos jogar, diz ex-presidente da Febraban

CDPP
·

Perigos, externos e internos

Giuliano Guandalini
·

Questão de impeachment de ministro do Supremo é pertinente nos casos Toffoli e Moraes, diz Giannetti

Giuliano Guandalini
·

'Brasil crescer 2,3% com juro a 15% é surpreendente', avalia Giannetti

Giuliano Guandalini
·
Podcast

Podcast do CDPP