O coronavírus e a economia

Affonso Pastore

O

coronavírus (covid-19) impôs à economia mundial um choque de oferta. A defesa

contra a propagação do vírus consiste em colocar em quarentena áreas

geográficas extensas, como na China, ou a totalidade do país, como na Itália, e

como a produção industrial dos países está integrada nas cadeias globais de

suprimento, ela se contrai. Contrariamente ao que ocorria em crises de balanço

de pagamentos ou na crise bancária e na recessão mundial de 2008/09, contudo,

há pouco que os bancos centrais possam fazer. A política monetária pode amainar

a propagação desse choque sobre a demanda, porém ela é impotente para reduzir a

intensidade de choques de oferta e, em adição, as taxas de juros de curto e de

longo prazos nos EUA, Europa e Japão estão muito próximas de zero.

Taxas

de juros próximas de zero ao redor do mundo produziram efeitos. Um deles foi o

aumento do endividamento e da alavancagem das empresas, o que eleva o risco de

crédito, que cresce quando a economia é submetida a um choque. Esse é o caso

dos EUA. Talvez, por isso, mesmo sabendo que a política monetária não é o

instrumento adequado para corrigir choques de oferta, o Federal Reserve tenha

decidido baixar em 50 pontos a taxa dos fed-funds. Pode ser que ajude a manter

as condições financeiras, mas a reação das Bolsas logo em seguida ao anúncio é

uma evidência clara da percepção de que o Fed não tem munição suficiente para

evitar o pânico.

Com as

taxas reais de juros permanecendo baixas por extenso período, ocorreu forte

alteração na composição da carteira de ativos, elevando a demanda por ações,

com o S&P500 tendo atingido os níveis mais elevados dos últimos 50 anos.

Inflada pelas taxas reais de juros persistentemente baixas, havia uma bolha que

se desinflou com a ocorrência da crise desencadeada pela covid-19.

Com o

aumento da aversão ao risco, capitais saem de todos os países dirigindo-se aos

EUA, levando à queda das taxas das treasuries e à valorização do dólar. No

Brasil, também havia na Bolsa uma valorização distante dos fundamentos e ela

desabou, mas a maior reação veio através da taxa cambial, que se depreciou bem

mais do que nos demais países, incluindo as commodity currencies que, por isso,

são mais afetadas pela desaceleração da China. O aumento da demanda por hedge e

das saídas de capitais é um atestado de que há uma percepção de risco que

deriva da gravidade da crise combinada à nossa fragilidade fiscal e ao precário

apoio político às reformas. Como as intervenções no mercado de câmbio têm

eficácia limitada, o Banco Central pode e deve suavizar a volatilidade, mas não

evita a depreciação.

Ainda

que a indústria brasileira seja pouco integrada nas cadeias globais de

suprimentos, ela é afetada pelo “choque de oferta”, que não atinge apenas a

indústria, sendo inevitável que se propague através da demanda. Por isso, o

Banco Central do Brasil pode e deve baixar a taxa de juros. Porém, além da

queda da taxa básica de juros é preciso atuar para preservar a liquidez e a

funcionalidade dos mercados diante do pânico que se instalou. Em situações como

esta, no Brasil e no mundo, há uma enorme necessidade de liquidez que somente

pode ser dada pela ação coordenada dos bancos centrais e dos respectivos

Tesouros, incluindo os bancos centrais que têm pouco espaço para reduzir a taxa

de juros, como o BCE.

No

Brasil, acima de tudo, é preciso que as autoridades mantenham a calma e não

sucumbam à tentação de jogar fora tudo o que já foi conquistado em nome de

encontrar soluções fáceis. Teremos de enfrentar o problema de conter o avanço

da epidemia, o que requer recursos que terão de ser mobilizados, mas isso não

quebra o País. Há um problema humanitário que tem de ser tratado com seriedade,

e que não põe em risco a consolidação fiscal. Não consigo entender a “lógica”

(se é que pode ser chamada de lógica) dos que propõem uma suspensão do teto de

gastos. Um país cuja taxa de investimento se mantém no menor valor atingido no

auge da recessão, esta somente deverá ser elevada, qualquer que seja a taxa de

juros, quando for removido o risco de que os gastos primários voltem a crescer,

e o país tenha se livrado do risco de uma volta à dominância fiscal. 

Do espírito público dos políticos depende a manutenção da austeridade fiscal, que aliada à ação proativa do Banco Central e do Tesouro reduz os riscos, garantindo o rumo da agenda de reformas.

Fonte: Estado de SP

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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