O fundo do poço?

Naercio Menezes Filho

Programas temporários de redução de pobreza valem a pena para as finanças públicas

VALOR

Como o auxílio emergencial acabou e a pandemia ainda está a

pleno vapor, o governo e o Congresso estão planejando um novo programa de

transferências de renda. Como deveria ser esse novo programa? Quem deveria ser

o novo público-alvo? Será que ele conseguirá evitar que cheguemos ao fundo do

poço?

A situação econômica, a sanitária e a social parecem piorar

a cada dia. O número de óbitos permanece num patamar acima de 1000 mortes por

dia e a situação começa a sair do controle em algumas cidades. Nesta semana,

Bahia e Ceará decretaram toques de recolher para tentar conter a expansão da

doença. O processo de vacinação, bastante lento, terá que ser suspenso nos

próximos dias por falta de vacinas, já que o governo não se preocupou em

contratá-las em quantidade suficiente no ano passado. E o próprio processo de

vacinação está sendo muito confuso, com grupos de risco dando lugar a jovens

ocupados em qualquer área remotamente ligada à saúde.

Programas temporários de redução de pobreza têm efeitos

importantes e valem a pena para as finanças públicas

As escolas tentam reabrir, mas novos casos de vírus as

obrigam a fechar novamente. As crianças e jovens estão aprendendo muito pouco

na maioria das cidades, desenvolvendo problemas de saúde mental e, em muitos

casos, sofrendo com a violência doméstica. O seu futuro será permanentemente

prejudicado pela falta de aprendizado e problemas psicológicos. É necessário

que as redes persistiam com os planos de retorno às aulas, mas sem contar com o

apoio do governo federal para organizar as medidas de prevenção nas escolas, há

muito pouco o que as redes municipais possam fazer.

Muitos jovens pobres que acabaram de sair do ensino médio

(sem terem aprendido o conteúdo do terceiro ano) só conseguem emprego em

empresas de entrega por aplicativo, supermercados ou construção civil, o que

limita sua experiência profissional. Isso vai fazer com que tenham salários

mais baixos ao longo da vida e não se realizem profissionalmente, empurrando

muitos para uma carreira na criminalidade. E essa carreira deverá ter sua letalidade

aumentada pelos decretos de liberação de armas que estão sendo editados.

A pobreza, que havia diminuído bastante com o auxílio

emergencial, está aumentando novamente. Com a normalização da vida nas cidades

que ocorria no final do ano passado, a pobreza estava aumentando menos do que o

esperado, convergindo para uma taxa um pouco acima da observada antes da crise.

Entretanto, a segunda onda e os toques de recolher irão fazer com que os

negócios fechem e as pessoas deixem de circular novamente, o que fará com que a

pobreza acelere rapidamente. Isso, por sua vez, fará com que as pessoas saiam

às ruas para obter renda, desafiando os toques de recolher, o que poderá

aumentar o contágio nas grandes cidades, especialmente com as novas variantes

do vírus que estão se disseminando pelo país.

As desigualdades na educação, na saúde e no mercado de

trabalho aumentarão de forma permanente na geração que está crescendo nessa

crise, pois todos esses fatores afetam mais fortemente as camadas mais pobres

da população. Nesse contexto, não há dúvidas de que é necessário desenhar e

implementar rapidamente um novo programa de auxílio emergencial. E podemos

aproveitar a experiência com o auxílio anterior, que teve muitos aspectos

positivos e alguns negativos, para melhorar o desenho do novo programa.

Pelo lado positivo, tivemos a velocidade com que o programa

foi desenhado e implementado e também os seus efeitos sobre a pobreza e desigualdade,

que caíram a níveis nunca vistos no Brasil. Já o principal erro foi a falta de

focalização, pois praticamente metade das famílias brasileiras receberam as

transferências, bem mais do que o necessário para atenuar os efeitos da crise

no emprego e para diminuir a pobreza e a desigualdade.

O auxílio emergencial almejava proteger as pessoas que

perderam emprego por causa da pandemia, mas acabou beneficiando muito mais

gente. Muitas pessoas que não eram pobres nem perderam seus empregos receberam

as transferências, pois os limites de renda para inclusão no programa eram

muito altos. Além disso, os que já eram pobres antes da pandemia também se

beneficiaram, mesmo quem não tinha emprego antes da crise. Mas, se foi errado

transferir recursos para quem não era e não ficou pobre, o programa acertou ao

conceder o benefício para todos os que já eram pobres antes da crise, por

vários motivos.

Em primeiro lugar, porque as mulheres que estavam gestando

seus filhos nesse período puderam ter uma gravidez menos sofrida, o que

melhorará o futuro dos bebês em termos educacionais e de mercado de trabalho. E

o mesmo ocorre com as que tinham filhos pequenos, pois puderam lhes dar

alimentação adequada e interagir com eles de forma mais sadia. Mais ainda, os

recursos fizeram com que os pais pudessem ficar em casa durante a pandemia,

diminuindo suas chances de contaminação. E permitiram que eles ajudassem seus

filhos nas tarefas escolares à distância, principalmente os que estavam em

processo de alfabetização. As evidências mostram que tudo isso tem um retorno

elevado para o governo e para a sociedade no longo prazo, bem maior do que os

custos das transferências para os menos privilegiados.

Além disso, muitos usaram o dinheiro para comprar ativos que

geram rendimento no presente e no futuro, como uma bicicleta para fazer

entregas, por exemplo. Vários estudos mostram que transferências de recursos

concentradas no tempo podem facilitar a saída da pobreza de forma permanente.

Finalmente, o grande volume transferido teve impacto significativo no consumo,

atenuando os efeitos de uma recessão que teria sido bem maior e, portanto,

aumentando o emprego e a arrecadação de impostos.

Para o novo auxílio, o governo deveria focar na expansão do

programa Bolsa Família, tanto em termos de valores como em número de

beneficiados. O valor transferido para cada família deveria dobrar e as

famílias com crianças deveriam receber um valor ainda maior. O aplicativo

desenvolvido para a inscrição no auxílio emergencial deveria ser utilizado para

alcançar todos os que perderam emprego por causa da pandemia e se tornaram

pobres.

Em suma, programas temporários de redução de pobreza têm efeitos importantes no longo prazo e valem a pena para as finanças públicas. E o novo programa de transferências terá que ser aprovado com urgência, caso contrário atingiremos o fundo do poço nas próximas semanas.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-fundo-do-poco.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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