O futuro do Bolsa Família

Naercio Menezes Filho

Valor (publicado em 15/10/2021)

Pesquisas mostram que programas focados nas crianças acabam se pagando no longo prazo

O programa Bolsa Família cumpriu um papel muito importante

na sociedade brasileira, ao diminuir bastante a pobreza extrema a um custo

reduzido. Mas há sinais de que esse efeito está se esgotando, o que ficou mais

evidente depois da pandemia. Assim, o Bolsa Família terá que mudar. Como deve

ser esse novo programa social?

Em primeiro lugar, é sempre bom lembrar que até os anos 80

não tínhamos praticamente nenhum programa de proteção social. Aliás, também não

tínhamos programas de atenção primária na saúde, a maioria dos jovens estava

fora da escola e os programas de aposentadoria para os mais pobres eram

precários. A pobreza era elevada, assim como as taxas de mortalidade,

principalmente entre as crianças. As pessoas não tinham como sobreviver às

secas, a não ser com a migração para os centros urbanos no Sudeste.

Várias pesquisas mostram que programas focados nas

crianças acabam se pagando no longo prazo

Até que, no início dos anos 2000, foi criado o programa

Bolsa Família, a partir da junção de vários programas que já existiam, como o

Bolsa Escola, vale gás, entre outros. O Bolsa Família tinha várias “sacadas”. A

primeira delas é que se trata de um programa de transferência de renda condicional,

ou seja, para receber as transferências, as famílias têm que colocar seus

filhos nas escolas, vaciná-los e fazer exames de saúde regulares. Como o Brasil

sempre teve um programa de vacinação exemplar e a estratégia Saúde da Família

estava se expandindo para atender as famílias mais pobres, a interação entre

saúde, assistência e educação prometiam salvar a nova geração de brasileiros.

A outra “sacada” é que o valor das transferências poderia

ser baixo, pois os pobres não costumavam receber quase nada do Estado. Assim, o

custo do programa era reduzido como proporção do PIB e seu impacto era alto. E

as pessoas ficaram felizes, podiam se alimentar e retribuíam com votos para o

PT. Ou seja, o Bolsa Família agradava quase todos. Só não agradava os que

achavam que a transferência iria estimular a preguiça natural dos mais pobres e

induzi-los a terem mais filhos. Mas esse era um grupo reduzido (ou assim

pensávamos na época).

Aos poucos o programa se mostrou insuficiente para promover

mais igualdade de oportunidades e mobilidade intergeracional, por vários

motivos. Em primeiro lugar, o seu valor reduzido, que era um “plus” no início,

foi se tornando um grande limitador. Hoje em dia sabemos que as condições

iniciais da vida da criança são essenciais para que ela possa desenvolver suas

habilidades cognitivas e socioemocionais. E que o desenvolvimento dessas

habilidades depende de elas terem pais disponíveis para estimulá-las. Mas a

falta de renda para comprar produtos básicos, como roupas, transporte, aluguel

e remédios faz com que os pais estejam constantemente estressados e não

consigam interagir com os filhos.

O valor médio atual das transferências, de cerca de R$ 200

por família, é insuficiente para comprar esses produtos básicos, principalmente

nos grandes centros urbanos. E nos últimos anos, esse valor tem crescido sempre

abaixo da inflação, especialmente no período recente. Os gastos demasiados do

setor público em outras áreas fazem com que falte dinheiro para as

transferências, de forma que a corda arrebenta do lado mais fraco, sem poder de

lobby. Assim, cerca de 50% dos beneficiários do programa com crianças pequenas

continuam pobres mesmo depois de receber as transferências.

Além disso, também devido a essas restrições financeiras,

muitas pessoas inscritas no cadastro único e que atendem os critérios para

inclusão no programa acabam ficando na fila de espera. Dados das pesquisas

domiciliares mostram que cerca de 1/3 das famílias elegíveis para receber as

transferências estão fora do programa. Como estamos vivendo uma grave crise

econômica desde 2015, seguida de uma pandemia que penalizou especialmente os

trabalhadores mais pobres, a fila de espera disparou. E não existem leis que

obriguem o governo a atender todas as pessoas elegíveis, nem a manter o valor

real do benefício constante.

E como deveria ser o novo Bolsa Família? Em primeiro lugar,

o novo programa tem que atender a todos os brasileiros elegíveis. O governo

deveria usar o aplicativo que foi desenvolvido para pagar o auxílio emergencial

para cadastrar todas as famílias pobres e “potencialmente pobres”, ou seja, as

que têm grande flutuação de renda ao longo do ano ou que têm renda perto da

linha de pobreza. Essas famílias teriam que atualizar os dados de renda de

todos os seus membros trimestralmente, diretamente no aplicativo.

Quando a sua renda caísse abaixo da linha de pobreza, elas

receberiam a transferência automaticamente. E as prefeituras fariam visitas em

uma amostra de beneficiários todos os meses para checar o padrão de vida dessas

famílias e evitar fraudes.

Quando a renda do trabalho subir acima da linha de pobreza,

a retirada do programa deve ser paulatina, para evitar que as transferências

desestimulem a busca por trabalho.

A linha de pobreza que define acesso ao programa tem que ser

diferente para cada região do país. Para deixar de ser extremamente pobre, uma

família com duas crianças e dois adultos que mora na região metropolitana de

São Paulo precisa receber R$ 800. Se essa mesma família morasse na zona rural

do Piauí, R$ 400 já seriam suficientes. Ao transferir o mesmo valor para todas

as famílias, o programa acaba tendo impacto diferenciado na pobreza entre as

regiões do país. Além disso, o valor da transferência tem que ser mais alto

para as famílias com crianças, pelos motivos apontados acima.

Em suma, várias pesquisas mostram que programas focados nas crianças acabam se pagando no longo prazo. As crianças beneficiadas desenvolvem mais suas habilidades, ficam mais tempo na escola, encontram um bom emprego, são mais produtivas e pagam mais impostos. Talvez o principal fator explicativo para nosso baixo crescimento de produtividade nos últimos 40 anos tenha sido a falta de investimento nas crianças pobres. Vale a pena testar essa hipótese para termos alguma esperança de mudar nosso futuro.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-futuro-do-bolsa-familia.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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