O otimismo ao final de 2019

Affonso Pastore

De

onde vem o otimismo que ao final de 2019 levou o Ibovespa a mais de 110 mil

pontos? Em parte, isto se deve à expectativa de que a taxa de crescimento em

2020 será em torno de duas vezes superior à de 2019, mas há outra razão mais

importante que é a mudança na composição das carteiras de ativos provocada pela

percepção de que há uma queda permanente da taxa real de juros de curto e de

longo prazo. Não é uma mudança que eleva apenas os retornos esperados nos

investimentos em ações e em ativos reais. Provoca, também, efeitos

significativos sobre a recuperação da economia.

Para

entender de que forma ocorrem os “efeitos reais” tomemos o exemplo de grandes

investidores institucionais, como são os fundo de pensão. Quando as NTN-B de 10

anos rendiam em torno de 8% ao ano cobriam com folga os seus compromissos

atuariais, o que permitia que seus gestores mantivessem 100% dos investimentos

alocados nesse ativo. Agora que as NTN-B rendem apenas 3% ao ano não mais

cobrem seus compromissos, forçando-os a elevar a proporção de ações nas suas

carteiras de ativos. A consequência é um aumento significativo da demanda de

ações, contribuindo para a melhora das perspectivas de sucesso em ofertas

públicas iniciais abrindo o caminho para que muitas empresas elevem sua

capitalização e melhorem sua governança, beneficiando a economia como um todo.

Importante,

também, é o benefício aos investimentos na construção civil. Taxas reais de

juros mais baixas elevam os preços dos imóveis melhorando a expectativa de

retorno nos investimentos na construção, e os juros reais mais baixos reduzem o

custo dos financiamentos tanto durante a construção quanto para os compradores

dos imóveis. Há ao mesmo tempo estímulos à oferta e à demanda de imóveis.

Finalmente, a portabilidade dos financiamentos permite que o comprador

refinancie em outro banco, a taxas de juros mais baixas, o imóvel anteriormente

adquirido, com a competição entre os bancos forçando a queda da taxa de juros

em novos financiamentos.

A

construção civil já havia sido beneficiada quando através da MP, posteriormente

transformada em Lei, o governo anterior disciplinou os distratos na compra de

imóveis. Anteriormente, quando o comprador de um apartamento desistia do imóvel

o construtor era obrigado a devolver todas as prestações acrescidas dos juros.

Para o comprador tudo funcionava como se tivesse feito um investimento em renda

fixa no qual além da garantia da plena de devolução do principal e juros

ganhava de graça a “opção” de trocar tal investimento por um apartamento.

Nenhum banco poderia competir com esta vantagem. Porém como o custo do distrato

recaia integralmente sobe o construtor havia um desestímulo à construção civil.

Era introduzido na construção civil um enorme risco, e esta foi uma das razões

pelas quais o setor foi extremamente afetado durante a recessão de 2014 a 2016.

A queda permanente da taxa real de juros se somou ao estímulo vindo da

eliminação deste risco, e muda radicalmente as perspectivas deste setor em 2020

e nos próximos anos.

Não se

deve ter a ilusão de que estes fatores produzirão um salto instantâneo e forte

na formação bruta de capital fixo, da qual um pouco acima de 45% se refere à

construção civil, metade do qual cabe aos investimentos em infraestrutura.

Primeiro, porque embora as percepções de mudança alterem instantaneamente os

preços dos ativos, somente afetam o lado real da economia com defasagens

longas. Segundo, porque estamos falando de apenas uma fração da formação bruta

de capital fixo, da qual mais de 50% depende das compras de máquinas e equipamentos

por parte da indústria, que continua deprimida. Na construção civil, contudo,

os últimos dados do PIB já evidenciaram sinais de reação, e o Caged indica que

a contratação líquida de trabalhadores com carteira assinada no setor vem

aumentando, embora em intensidade baixa relativamente ao que ocorre no comércio

e no setor de serviços. Finalmente, embora restritos a São Paulo os dados do

Secovi mostram uma significativa elevação dos lançamentos e das vendas de

imóveis.

Estamos longe de comemorar o início de um ciclo de crescimento sustentável. São apenas indicadores de uma sólida recuperação cíclica, que para se transformar em crescimento sustentável requer reformas que elevem a eficiência produtiva da economia. Mas pelo menos nos dá o alento de que a política monetária vem cumprindo o seu papel.

Fonte: Estado de São Paulo

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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