O padrão de vida dos brasileiros

Naercio Menezes Filho

Valor (publicado em 16/07/20212)

Trabalho em casa e as compras pela internet vieram para ficar

Apesar da grave crise atual, às vezes é necessário nos afastarmos um pouco dos problemas conjunturais para termos uma visão de longo prazo da economia brasileira. Nesse sentido, é importante entendermos como evoluiu o padrão de vida dos brasileiros nas últimas décadas. Usando as informações sobre a renda familiar per capita disponíveis nas pesquisas domiciliares, podemos responder perguntas importantes. O que aconteceu com o padrão de vida do brasileiro ao longo do tempo? Quais foram os principais determinantes dessa evolução? O que podemos fazer no futuro para melhorar ainda mais a vida dos brasileiros?

A figura ao lado mostra como evoluiu a renda familiar per

capita em termos reais nos últimos 45 anos no Brasil. Podemos notar que durante

o período inflacionário (1976-1993) a renda variava inversamente com a inflação,

flutuando em torno de R$ 700. A exceção foi o ano do plano Cruzado (1986), que

trouxe um forte aumento de renda com o que parecia ser o fim da inflação, mas

que foi uma ilusão passageira. O fim da hiperinflação ocorreu em 1994 com o

Plano Real, que aumentou a renda em 25% de forma permanente.

É preciso conjugar aumentos do salário – mínimo com

reformas que permitam aumentar a produtividade

Entre 1995 e 2003 o padrão de vida permaneceu constante. A

partir de 2004, porém, a renda per capita começa a aumentar continuamente (com

exceção da crise de 2015), até atingir o pico de R$ 1.500 por pessoa em 2018. O

padrão de vida do brasileiro praticamente dobrou nesse período. Uma família de

4 pessoas, que ganhava R$ 3.100 em 2003, passou a ganhar R$ 6.000 em 2018. Este

aumento de renda ocorreu em todas as classes sociais, mas foi muito mais forte

entre os mais pobres. Assim, a desigualdade diminuiu.

Vale notar que a crise econômica que ocorreu a partir de

2015 não reverteu os ganhos na renda média obtidos pelos brasileiros até 2014.

A renda média só começou a cair a partir de 2019, declinando mais fortemente

com a pandemia. O padrão de vida dos menos favorecidos, porém, foi bastante

afetado pela crise recente. A renda per capita dos 10% mais pobres, que tinha

aumentado 170% entre 2003 e 2014, caiu 37% entre 2014 e 2019. Em 2020, aumentou

novamente com o auxílio emergencial, passando de R$ 100 para $ 230 num só ano.

Montanha russa.

O que pode explicar o forte aumento no padrão de vida do

brasileiro desde meados da década de 2000? Vários fatores explicam esse

crescimento, alguns conjunturais, outros estruturais. Os fatores estruturais

decorrem das mudanças demográficas e sociais. A transição demográfica provocou

uma diminuição do número de pessoas em cada família (as “capitas” do

denominador). Além disso, o aumento da parcela de mulheres que trabalham fora

de casa gerou uma fonte adicional de renda para as famílias. Por fim, o aumento

da escolaridade média dos brasileiros mais pobres também contribuiu bastante

para o crescimento da renda.

O fator conjuntural mais importante foi o valor real do

salário-mínimo, que aumentou 75% entre 2003 e 2018. Várias pesquisas mostram

que o salário-mínimo foi um dos principais determinantes da redução da desigualdade

que houve neste período e que seu aumento transbordou para a classe média. Além

disso, o salário-mínimo é o indexador das aposentadorias rurais e do Benefício

de Prestação Continuada, ou seja, o seu valor tem bastante impacto na renda dos

brasileiros mais pobres.

Será então que devemos continuar aumentando fortemente o

salário-mínimo para sempre, independentemente das circunstâncias? Não

necessariamente, porque grandes elevações do salário-mínimo também têm efeitos

colaterais negativos. Pesquisas sugerem que o aumento no valor do

salário-mínimo provocou uma redução no trabalho com carteira assinada,

dificultou a contratação de jovens menos qualificados e piorou as finanças

públicas, já que vários componentes dos gastos públicos são indexados ao

mínimo.

Além disso, nem sempre o salário real acompanha os

movimentos do salário-mínimo. O salário médio diminuiu entre 1995 e 2003, por

exemplo, apesar do salário-mínimo também ter aumentado nesse período, porque

uma sucessão de crises fez com que o país passasse por um período de baixo

crescimento, que aumentou o desemprego. Assim, um ambiente externo favorável

ajuda o salário-mínimo a cumprir seu papel de elevar a renda e reduzir a

desigualdade.

O fator que mais dificulta o crescimento sustentado da renda

do brasileiro no longo prazo é a estagnação da produtividade. A produtividade

aumentou somente 15% entre 1995 e 2018, em comparação com um aumento de 38% no

salário médio e de 100% no salário-mínimo. Em outras palavras, foi necessário

dobrar o salário-mínimo para conseguirmos um aumento 38% no salário médio, que,

por sua vez, aumentou a renda per capita em 80%, com a ajuda dos fatores

estruturais.

Em suma, o padrão de vida dos brasileiros melhorou nos

últimos 45 anos, à taxa de 1,5% ao ano, especialmente com o plano real e

marcadamente no período entre 2004 e 2018. Esses ganhos decorreram

principalmente do aumento do salário-mínimo, auxiliado por fatores demográficos

e bons ventos externos. O salário-mínimo é como um remédio forte, que diminui a

desigualdade, geralmente aumenta os salários e a renda per capita, mas deve ser

usado com moderação, porque tem efeitos colaterais.

Para aumentar mais rapidamente o padrão de vida da população brasileira no longo prazo, sem depender de fatores externos e evitando efeitos colaterais, é necessário conjugar aumentos do salário-mínimo com reformas institucionais, igualdade de oportunidades e melhorias na qualidade da educação, que permitam aumentar a produtividade da economia brasileira.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-padrao-de-vida-dos-brasileiros.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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