Impactos da educação vão além dos maiores salários, diminuem os homicídios sofridos e cometidos pelos jovens
Valor (publicado em 18/03/2022)
Muitos municípios brasileiros sofrem com os altos
índices de desemprego e de criminalidade dos seus jovens. Em que medida esses
indicadores são resultados da baixa efetividade da educação básica? Será que
uma educação de qualidade consegue realmente mudar a vida dos jovens? Em que
medida os municípios que entregam jovens bem-preparados para a sociedade
conseguem reduzir o crime, criar mais empregos com carteira assinada e aumentar
as matrículas no ensino superior como consequência?
Para responder essas questões, em artigo recente
nós criamos um novo indicador de qualidade da educação básica e investigamos
seus efeitos sobre estes indicadores sociais1. Nosso índice mede quanto cada
município contribui para a progressão e o aprendizado dos jovens no seu sistema
escolar, desde o primeiro ano do ensino fundamental até o final do ensino
médio. Esse indicador tem dois componentes. O primeiro é dado pelo número de
alunos que completam o ensino médio e fazem o Enem, entre todos os que entraram
na escola 10 anos antes. O segundo é a nota média que esses alunos tiram nas
provas do Enem.
Este índice, inspirado pelo Ideb, é interessante por vários motivos. Em primeiro lugar, ele contempla a trajetória do aluno durante todo o ensino básico, que dura onze anos. Para que os alunos concluam o ensino médio sem repetência e queiram fazer o Enem, é preciso, em primeiro lugar, que as redes municipais atuem com qualidade na pré-escola e no ensino fundamental. Depois, o bom trabalho tem que continuar na rede estadual, que é responsável pelo ensino médio. Ou seja, para melhorar no índice não é suficiente ter apenas um bom prefeito. É necessário ter pelo menos dois bons prefeitos consecutivos, seguidos de um bom governador.
O trabalho fica mais fácil se as redes municipais e
a estadual atuarem em parceria, com objetivos comuns. Esta parceria tem que
garantir não só o aprendizado dos alunos, mas também desenvolver sua
perseverança, garra e resiliência, para que eles não desistam no meio do
caminho. E elevar suas expectativas, para que eles acreditem que têm condições
de ingressar em uma universidade pública ou conseguir uma bolsa nas faculdades
privadas pelo Prouni, através de um bom resultado no Enem. Para que isto ocorra
é preciso que as políticas educacionais tenham continuidade em mandatos
sucessivos, não pode haver mudanças bruscas de direção a todo momento.
O segundo componente do índice é dado pelas notas
que os alunos do município obtêm nas provas do Enem. Ou seja, além de
completarem o ensino médio na idade certa, os alunos têm que ter um bom
desempenho nas provas de matemática, língua portuguesa, ciências e redação para
estarem bem preparados para a vida.
Nossas análises mostram que o índice melhorou entre
2009 e 2014 no Brasil como um todo, principalmente pelo aumento das taxas de
conclusão do ensino médio na idade certa e na participação no Enem. Ou seja, a
geração de alunos que se formou no ensino médio em 2014 recebeu uma educação de
melhor qualidade do que a que se formou em 2009. A melhoria ocorreu em todas as
regiões do Brasil, mas os Estados que mais se destacaram foram o Ceará e o Rio
de Janeiro. Muitos municípios também se destacaram, principalmente os menores.
Em seguida, nós analisamos se os municípios que mais melhoraram nesse indicador também apresentaram maior redução no número de homicídios, aumento nas matrículas do ensino superior e aumento na geração de empregos entre os jovens, cinco anos após a conclusão do ensino médio, através de uma análise estatística. Para isso, precisamos combinar várias bases de dados, que são muito importantes para que possamos fazer pesquisas deste tipo. Por exemplo, os dados de homicídios vêm do sistema de informações de mortalidade (SIM), administrada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), de livre acesso pelo portal Datasus. Os dados de matrículas no ensino superior vêm do Censo da Educação Superior, disponível no portal do Inep. Para analisarmos as variações líquidas no emprego dos jovens, utilizamos os dados Caged, também de livre acesso através do portal do Ministério do Trabalho.
Os resultados mostram uma relação clara entre
avanços no índice entre 2009 e 2014 e reduções no número de homicídios, aumento
nas matrículas do ensino superior e aumento na geração de empregos entre 2014 e
2019, quando os jovens tinham 22/23 anos de idade. Um aumento de um ponto no
Ideb-Enem está associado com uma diminuição de 25% nos homicídios, um aumento
de 15% nas matrículas no ensino superior e de 200% no saldo líquido de
empregos, mesmo após controlarmos por variações no PIB per capita dos
municípios. O grande impacto na geração de empregos ocorre porque o número
médio de empregos gerados para jovens tem sido tradicionalmente muito pequeno
nos municípios brasileiros.
Esse estudo mostrou que é possível transformar a
vida de uma geração de jovens através da educação. Os impactos vão além dos
maiores salários, diminuindo também os homicídios sofridos e cometidos por
esses jovens, aumentando sua empregabilidade e seu acesso ao ensino superior.
Isso é especialmente importante na conjuntura atual, em que uma parcela grande
dos nossos jovens está sem trabalho e fora da escola, alijada do mercado de
trabalho formal e sem condições de contribuir para o crescimento da
produtividade.
Mas é necessário evitar um otimismo exagerado, pois
mudar a vida dos jovens requer um trabalho educacional árduo de pelo menos dois
prefeitos e um governador atuando em sequência, com políticas públicas baseadas
em evidências, o que ainda é incomum nos municípios brasileiros. Ainda há muito
trabalho pela frente para resolver os problemas dos nossos jovens. Mas, pelo
menos há esperança!
1 “Um Novo Índice de Qualidade da Educação Básica e seus Efeitos sobre os Homicídios, Educação e Emprego dos Jovens Brasileiros” por Luciano Salomão e Naercio Menezes-Filho.
Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-poder-transformador-da-educacao.ghtml
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
