O que tem para hoje

Alexandre Schwartsman

A dívida bruta do governo pode se aproximar de 90% do PIB no final do ano, um desafio que requer liderança política da qual não dispomos

Paulo Guedes, é sabido, tem certa obsessão com R$ 1 trilhão. Durante a

campanha, jurava obter tal quantia por meio de um agressivo programa de

privatizações, tão agressivo que permanece até hoje enjaulado.

Também

R$ 1 trilhão era a economia que obteria com a reforma da Previdência.

Valor que, segundo o ministro, seria usado para financiar a transição

para um regime de capitalização, muito embora diversos economistas

apontassem que a reforma permitiria apenas manter o crescimento do gasto

previdenciário em linha com a expansão econômica, em vez de superá-la

por larga margem.

Era, portanto, questão de tempo para que o número mágico reaparecesse no contexto da guerra à Covid-19.

Segundo o ministro, “os programas já passaram dos R$ 800 bilhões e

possivelmente vão chegar a quase R$ 1 trilhão ao longo das próximas

semanas ou meses”.

Muita gente, à luz disso, deve estar se

perguntando como seria possível gastar tanto, dado o péssimo estado das

contas públicas no país.

A resposta é que o número ministerial

mistura coisas que devem ser contadas à parte, além de contabilizar

despesas que ocorreriam de qualquer forma ao longo do ano, mas que foram

antecipadas.

Minha estimativa é que o impacto fiscal das medidas

anunciadas é grande, mas bem menor do que dado a entender pelo ministro.

Ficaria na casa de R$ 200 bilhões, cujas consequências examinarei mais à

frente.

É preciso distinguir, em primeiro lugar, as medidas anunciadas pelo Banco Central.

O

valor, de fato, é elevado. Mas elas terão impacto na oferta de liquidez

aos bancos, esperando-se que tais recursos venham a se tornar

empréstimos que possam sustentar as empresas nos próximos meses.

Nesse sentido, o BC reduziu o montante que os bancos têm que manter

depositado junto à autoridade monetária (“compulsórios”), criou novas

modalidades de créditos aos bancos, bem como os permitiu captar

adicionalmente com garantias, o que deve facilitar a vida das pequenas e

médias instituições bancárias.

Além disso, reduziu requerimentos

de capital, o que permite que a expansão do crédito, se houver, não seja

impedida pelo mínimo de capital que bancos precisam manter (quanto

maior a relação entre capital e empréstimos, mais sólido é o banco, ao

mesmo tempo que sua capacidade de emprestar se torna menor).

Tais

medidas não têm qualquer impacto sobre as contas públicas, ao menos não

em impactos diretos. Em tese, elas estimulariam a oferta de empréstimos,

mas, como se diz, levar o cavalo à água é uma coisa; fazê-lo beber é

algo bem diferente.

De qualquer forma, são medidas corretas e as

possíveis no atual marco legal, que não permite que o BC ofereça crédito

a instituições não-financeiras. Com a aprovação de emenda

constitucional, já em discussão no Congresso, o BC poderá desempenhar

papel mais ativo nessa frente.

Já outro conjunto de iniciativas,

resumido na tabela abaixo, transita, de alguma forma, pelo orçamento

público, representando aumento de gastos ou redução de tributos, quando

não linhas de crédito bancadas pelo Tesouro Nacional.

Algumas delas, porém, como alertado acima, não representam novos

gastos, nem redução de tributos, apenas antecipações de gastos que

seriam realizados mais tarde no ano (como a antecipação do 13º salário

aos beneficiários do INSS, R$ 26 bilhões), ou diferimento de impostos.

Isso não significa que não sejam medidas adequadas. Pelo contrário, devem ajudar famílias e empresas em momentos difíceis como o que vivemos, mas não representam “dinheiro novo”.

Assim, muito embora tais

iniciativas montem a quase R$ 340 bilhões, minha estimativa de impacto

fiscal adicional (não é perfeita: estou aberto a sugestões e correções)

sugere um número pouco inferior a R$ 200 bilhões, que, reforço, não é

nada trivial.

De fato, a meta original para o resultado primário,

isto é, sem o pagamento de juros, para 2020 era pouco inferior a R$ 125

bilhões negativos (ou seja, déficit primário).

Somado à estimativa

acima (da qual deduzimos a linha de crédito do Tesouro, R$ 40 bilhões,

depois adicionada à dívida pública) e à perda de receitas tributárias da

União na casa de R$ 150 bilhões por força da queda da atividade

econômica, o déficit primário ficaria ao redor de R$ 430 bilhões.

o déficit total deve superar R$ 700 bilhões, sem considerar a possível

queda das receitas tributárias de estados e municípios, que podem

adicionar algo como R$ 50-60 bilhões.

Dado que a dívida bruta do

governo geral alcançava R$ 5,5 trilhões no ano passado (pouco mais de

75% do PIB), é bem possível que, ao final desse ano, se encontre próxima

a R$ 6,3 trilhões, 89% do PIB.

Em contraste, segundo o Prisma

Fiscal, a mediana do valor esperado para a dívida bruta em 2020 no

começo do ano apontava para 78% do PIB, 11 pontos percentuais inferior à

nossa projeção.

Noto que esses números estão sujeitos a mudanças à

medida que o cenário clareie, mas acredito que dão uma noção razoável

da magnitude do problema que enfrentaremos quando a crise sanitária for,

como esperamos e torcemos, superada.

Não se trata, repito, de

motivo para não fazer o que se afigura necessário para vencer a guerra,

mas de entender que haverá consequências a serem enfrentadas num futuro

nada distante.

Mais do que nunca precisaremos de uma liderança política capaz para conduzir o país; desnecessário dizer, não é o que temos no menu para hoje…

Fonte: Infomoney

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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