O teto e a raça: o que dizem os números

Alexandre Schwartsman

Argumenta-se que o teto de gastos seria racista por limitar o gasto social, prejudicando a população negra. Mostramos, porém, que houve forte aumento do gasto social a partir de 2016. Por outro lado, a elevação das despesas com o funcionalismo agrava a desigualdade racial, justificando reformas que reduzam seu impacto

Desigualdade, pobreza
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Pegando carona no movimento que justificadamente se

formou na esteira do assassinato de George Floyd, em Minneapolis, a

última investida contra o controle de gastos públicos no Brasil tenta

associar tal política ao racismo.

Afirma-se que as medidas de

contenção das despesas, expressas em particular no teto constitucional,

limitam os gastos sociais; logo, afetam os mais pobres.

Como nada menos do que 10,1 milhões dentre os 13,5 milhões de pobres no país em 2018 são pretos ou pardos (ou seja, 75% da população pobre, bem mais do que a participação de pretos e pardos na população em geral, 55,8%), segue-se que a limitação de gastos sociais oriunda do teto afeta mais este grupo. Portanto, o teto de gastos é racista, QED.

O silogismo é impecável; já a hipótese central – a saber, a limitação dos gastos sociais – não se sustenta à luz da evidência existente.

A tabela abaixo apresenta o conjunto das despesas do governo central, calculado segundo metodologia do Manual de Estatísticas de Finanças Públicas do FMI,

mas por uma ótica distinta daquela que normalmente apresento neste

espaço (voltarei a ela mais à frente), destacando no caso a despesa por função de governo, e não pela natureza do gasto.

Os

dados são apresentados para os anos de 2010 (início da série), 2016

(ano de adoção do teto de gastos) e 2019 (o mais recente), a preços

constantes de 2019, usando o deflator implícito do PIB.

Houve, como se nota, redução visível da despesa total entre 2016 e 2019, expressa em queda de R$ 24 bilhões no período.

Tal diminuição, porém, resulta essencialmente da forte contração de gastos com juros brutos (nesta terminologia apresentados como “transações da dívida pública”), de R$ 677 bilhões em 2016 para R$ 518 bilhões em 2019, corte de quase R$ 160 bilhões no período.

os gastos primários aumentaram R$ 135 bilhões entre 2016 e 2019. Metade

disso foi direcionado à rubrica de “proteção social”, que engloba desde

previdência à assistência social. Em 2019 esta rubrica representou

39,3% dos gastos do governo central; em 2016 equivalia a 36,2% do total.

Outros

gastos tipicamente descritos como “sociais” aumentaram no período, como

“saúde” (aumento de R$ 10 bilhões), “habitação e serviços comunitários”

(R$ 2 bilhões a mais), ou ficaram virtualmente estáveis, como no caso

de “educação” (queda de R$ 80 milhões).

Vale dizer, não há

qualquer evidência de que o teto de gastos tenha implicado redução das

despesas sociais no país; ao contrário, os dados registram aumento

considerável desde a adoção do mecanismo.

Já a tabela abaixo

mostra as despesas do governo central por natureza, como “remuneração de

empregados”, “uso de bens e serviços” etc., já apresentadas ao leitor

em colunas anteriores (lembrando que “aquisição de ativos não

financeiros” é um nome complicado para o investimento público).

Há,

é claro, forte sobreposição mesmo sob óticas distintas: o aumento de R$

74 bilhões em benefícios sociais, por exemplo, é quase todo destinado à

proteção social. Já outros casos revelam dinâmicas interessantes, com

apelo social bem mais baixo.

Por exemplo, do aumento de R$ 25

bilhões em remuneração de empregados, R$ 10,7 bilhões foram destinados à

educação, enquanto o total das despesas em educação ficou – como vimos –

praticamente estável, indicando que provavelmente os prestadores de

serviços se beneficiaram mais do que seus usuários.

Já no que se refere à saúde, a remuneração de empregados respondeu por 40% do aumento do gasto, enquanto proporções ainda maiores são observadas no caso de defesa e ordem pública.

Como

deve ficar claro a partir dessas observações, o teto de gastos não

impediu a expansão das despesas de proteção social, muito pelo

contrário.

Não evitou, todavia, que grupos mais bem localizados

junto aos centros de poder conseguissem aumentar a extração de renda do

restante da sociedade, em particular o funcionalismo.

De fato,

segundo dados da PNAD, o rendimento médio real dos estatutários nos

últimos 12 meses é próximo a R$ 4,3 mil/mês, mais de duas vezes maior

que o de todas as demais categorias, pouco superior a R$ 2 mil/mês.

Curiosamente,

porém, a resistência a reformas que reduzam os gastos com o

funcionalismo sempre foi forte nos grupos autodenominados progressistas,

como no caso da previdenciária e, mais recentemente, a administrativa.

Segundo trabalho de Tatiana Silva e Josenilton Marques da Silva, negros compunham apenas 40% do funcionalismo federal em 2012.

Houvesse,

portanto, preocupação real com políticas que prejudicam a população

negra, os “progressistas” deveriam estar na linha de frente pela

reforma, mas ainda não tive a chance de vê-los lá.

Em resumo, além

do impacto da instabilidade macroeconômica sobre os mais pobres, tema

já explorado por outros analistas, o exame dos dados disponíveis não

indica que o teto de gastos tenha impedido o avanço dos gastos sociais.

Ao mesmo tempo, propostas de reformas para conter gastos obrigatórios, principalmente no que se refere ao funcionalismo, reduziriam também a desigualdade racial no país.

Fonte: Infomoney

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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