O risco real está contratado para maio de 2026, quando termina o mandato de Jerome Powell e o presidente americano poderá escolher outro chairman para o Fed
Estadão
Na semana passada, Donald Trump criticou novamente o chairman do Federal Reserve, Jerome Powell. Divulgou um recado mal-educado, escrito à mão sobre uma tabela de taxas de juros de diversos países, no qual dizia que os juros nos Estados Unidos deveriam estar em 1% ao ano. Conseguiu a atenção que queria. Mas, em essência, sua atitude reforça a importância do modelo institucional americano, no qual o Fed tem autonomia total para tomar decisões puramente técnicas sobre os juros.
Há meses Trump fustiga Powell, a quem acusa de manter os juros altos para seu gosto – estão na faixa de 4,25% a 4,5% desde dezembro, nível elevado para os padrões americanos, mas adequados para o momento. O desejo de Trump de que o Fed reduza radicalmente os juros não vai se realizar.
Políticos disputam eleições duríssimas para ter poder de decisão sobre diversos aspectos da sociedade. Trump é a pessoa mais poderosa do mundo e, ainda assim, parece que gostaria de ser o chairman do Fed. É um desejo comum em políticos de diversos países, mas não faz sentido, principalmente nos EUA.
A postura do Fed é de cautela e se deve, em parte, às atitudes de Trump. O Fed aguarda um cenário em que sejam claros os efeitos da imposição de tarifas comerciais a 185 países. Ainda não é possível sentir os efeitos na inflação e no ritmo da economia.
Outros dados indicam uma atividade ainda em alta, como o número de empregos criados em junho, que ficou acima do esperado pelos analistas.
O mercado americano precifica que o Fed fará três cortes na taxa de juros este ano. A próxima decisão será no dia 30. Trump pode ter feito a cena da semana da semana passada com a intenção de se aproveitar: caso o Fed reduza juros, dirá que foi obedecido.
A missão do Fed é controlar a inflação e manter a economia americana estável e com crescimento no longo prazo.
Presidentes de autoridades monetárias têm de estar habituados às piores pressões e críticas. Na década de 1980, Paul Volcker foi alvo de uma passeata quando elevou os juros a 21% ao ano.
Durante meus oito anos na presidência do Banco Central, eu e a equipe do Copom fomos alvo de protestos e de críticas sistemáticas de dentro e de fora do governo. Fizemos o que era melhor para o Brasil.
Como falei meses atrás, o risco real está contratado para maio de 2026, quando termina o mandato de Jerome Powell e Trump poderá escolher outro chairman para o Fed. Se sua escolha for por uma pessoa obediente às suas vontades, teremos um problema. Existe o risco de os juros serem determinados politicamente – e isso nunca deu certo.
Link da publicação: https://www.estadao.com.br/economia/henrique-meirelles/valor-independencia-fed/
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