Onde estamos?

Mario Magalhães Carvalho Mesquita

Não é razoável esperar uma plena normalização da atividade sem a superação da pandemia

Uma avaliação recorrente sobre a crise de 2020 é que se

trata, por sua rapidez, amplitude geográfica e intensidade, de um evento único

na experiência econômica de quase todos os países. Uma das características da

pandemia, e da resultante adoção de nossas agências estatísticas, que seguem

fazendo o melhor possível em circunstâncias extraordinárias, mas simples

consequência da necessidade da limitação da circulação de pessoas enquanto a

pandemia não for superada.

A própria velocidade da crise faz com que os indicadores

tradicionais de atividade econômica, compilados em frequência mensal ou

trimestral, percam certa relevância, dada a falta de tempestividade, para o

monitoramento da conjuntura.

Recessão pode ser um pouco mais moderada do que o atual

consenso de mercado e ficar entre -4% e -5%

O uso dos chamados “dados alternativos”, como informações

sobre geolocalização, padrões de gastos, tráfego de pessoas, imagens de

satélites etc., que tem sido uma das características mais notáveis da atividade

de Research sobre empresas nos últimos anos, pode, em consequência desta crise,

ganhar maior relevância no arcabouço analítico dos macroeconomistas, sejam em

instituições privadas ou públicas.

Essa tendência tem sido viabilizada pelo desenvolvimento da

capacidade de processamento de conjuntos cada vez maiores de dados e

informações não estruturadas. No Itaú, para lidar com os problemas citados

acima, construímos um indicador diário de atividade econômica para o Brasil,

chamado Idat, composto por informações agregadas sobre gastos em cartões de

crédito no consumo de bens e serviços, bem como o consumo de energia –

trata-se, portanto, de um híbrido, que inclui tanto dados “alternativos” quanto

tradicionais. Esse índice, por construção, estava no patamar de 100 na primeira

quinzena de março, pré-covid. Com o choque, o Idat caiu para cerca de 55 no

pior momento (dia 28 de março) e vem mostrando recuperação desde então: a média

de março foi 86, já refletindo os efeitos da pandemia na segunda metade do mês;

o indicador então caiu para 66 em abril, subiu para 73 em maio e atingiu 82 em

junho.

Essa recuperação tem se mostrado gradual, como ilustram os

números acima, e não linear. Além disso, tem sido altamente heterogênea.

Considerando o gasto com bens de consumo, o setor de supermercados estava no

patamar 88, na última observação, similar ao gasto em farmácias (87), enquanto

a compra de bens duráveis ainda estava em 74. Já no segmento de serviços, o

quadro é bem mais negativo: gastos em restaurantes estavam em 52 ao final de

junho (incluindo delivery), mas despesas em lazer (cinema/teatro) estavam

apenas em 23 e viagens e turismo em 27 – sempre considerando 100 como o nível

de referência da primeira quinzena de março.

A recuperação tem coincidido com o relaxamento gradual do

distanciamento social efetivamente observado. Indicadores de isolamento social,

baseados na movimentação de telefones celulares, tiveram auge no final de

março, não coincidentemente, junto com o piso da atividade econômica. Desde

então, ainda que de forma não monotônica, os indicadores de distanciamento

social, vêm recuando. Evidências dos EUA, mas que também devem ser informativas

sobre o Brasil, indicam que o comportamento espontâneo do público pode ter efeito

bem mais importante sobre as variações na circulação de pessoas e o

distanciamento social do que as medidas impostas pelos governos.

Dessa forma, caso a população das grandes áreas

metropolitanas volte a ter o mesmo grau de cautela observado em março/abril, é

provável que o distanciamento volte a aumentar, ainda que de forma voluntária,

com efeitos sobre a economia. Logo, não é razoável esperar uma plena

normalização da circulação de pessoas e atividade sem a superação da pandemia.

O Idat oferece uma leitura em alta frequência da atividade

econômica, com uma correlação com outros indicadores de menor frequência, como

o PIB, apurado trimestralmente. Este caiu 1,5% no primeiro trimestre, ante o

anterior, e deve ter atingido o piso no segundo trimestre. Considerando apenas

os indicadores já divulgados até esse momento (cerca de 40% do total), nosso

monitoramento para o PIB do segundo trimestre aponta contração de cerca de

8,5%, ante o primeiro (em nossos modelos, estimamos atualmente uma contração um

tanto maior, entre 10 e 11%).

Caso essa contração menos intensa se confirme, a recessão de

2020 pode acabar também sendo um pouco mais moderada do que o atual consenso de

mercado (ficando entre -4% e -5%, contra a expectativa de queda de 6,5% no

ano). Isso depende, entre outros fatores, de um não recrudescimento da pandemia

no segundo semestre do ano.

Quando monitoramos outras economias em alta frequência,

também temos lançado mão de indicadores alternativos. Construímos índices

diários para EUA, a área do euro, e a China. Para a economia americana, o

indicador diário inclui informações sobre variáveis como pedidos de financiamento

imobiliário, dados de faturamento de cinema, reservas em restaurantes, entre

outros. Reservas em restaurantes e indicadores de mobilidade estão entre os

dados alternativos utilizados para monitorar a atividade na área do euro,

enquanto para a China informações sobre atividade portuária, bem como poluição

do ar, são utilizados.

É cedo para dizer que tipo de inovação teórica essa crise trará para a análise econômica. Mas, no que se refere ao acompanhamento da conjuntura, que é parte tão importante da atividade dos macroeconomistas aplicados, a revolução dos dados alternativos, que já tinha começado, deverá ganhar impulso considerável, gerando oportunidades, bem como desafios de interpretação.

Fonte: Valor Econômico

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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