Pandemia vs. recessão

Alexandre Schwartsman

Parafraseando Winston Churchill, nos é dada a escolha entre a pandemia e a recessão; se escolhermos a pandemia, teremos também a recessão

Há quem creia haver uma troca entre a queda da atividade econômica

resultante das medidas de distanciamento social (e, claro, todas as

consequências sociais de uma recessão de grandes proporções) e a

mortalidade decorrente da pandemia.

Ter menos de uma implicaria

ter mais da outra, terreno em que economistas, por formação, se sentem

mais à vontade (como a troca entre renda e lazer, ou entre consumo hoje e

consumo amanhã etc.).

Não é, reafirmo, o caso de hoje: engana-se quem acredita haver a possibilidade de reduzir as medidas de distanciamento social nesse momento em troca de atividade econômica mais forte, mesmo à custa de uma mortalidade maior.

Não temos, é verdade, muita evidência acerca das diferentes escolhas de como lidar com a crise atual.

À

parte o sucesso relativo de países como Taiwan e Singapura, cuja

resposta oportuna à epidemia possibilitou medidas mais bem focalizadas

(uma impossibilidade a essa altura dos acontecimentos), observamos quase

todas as nações impondo restrições à mobilidade das pessoas e à

atividade econômica em nome da contenção da pandemia, exceção feita à

Suécia, cuja abordagem permanece distinta.

De qualquer forma, precisaríamos de tempo para avaliar tais opções, talvez a mercadoria mais escassa nessa época de crise.

A

alternativa que nos resta é voltar ao passado, em busca de experiências

semelhantes que possam servir como guia, ainda que imperfeito, para a

situação atual. Temos, portanto, que recuar pouco mais de 100 anos no

tempo para avaliar os efeitos da Gripe Espanhola no final da segunda

década do século XX.

Até onde sabemos (os números são ainda objeto

de debate), aquela pandemia infectou algo como 500 milhões de pessoas

(pouco mais de um quarto da população global, então estimada na casa de

1,8 bilhão de pessoas), matando talvez 50 milhões (interessados podem

checar os dados nesta página).

Trabalho recente de Sergio Correia, Stephan Luck e Emil Verner (citados como CLV daqui em diante) explora os impactos dessa pandemia nos diferentes estados e cidades dos EUA, abordagem que conta com a vantagem de examinar o caso de um país que, ao contrário dos europeus, devastados pela I Guerra, com boa parte de sua juventude, infraestrutura e capital destruídos, emergiram daquele evento relativamente intactos.

De fato, estimativas indicam que os EUA perderam 0,13% de sua

população no conflito, contra números ao redor de 3-4% no caso dos

países da Europa continental e perto de 2% no caso do Reino Unido (e

então colônias). Isso facilita o trabalho de separar os efeitos daquela

carnificina dos originários da doença em si.

CLV estudam dados de

estados e cidades americanas tentando aferir tanto o impacto da

mortalidade sobre a atividade, como o das Intervenções Não-Farmacêuticas

(NPIs no original), isto é, medidas de distanciamento social, tanto do

ponto de vista da tempestividade de sua adoção (mais ou menos cedo),

quanto de seu tempo de duração.

Duas conclusões emergem do trabalho.

A

primeira é o impacto negativo da mortalidade sobre a atividade

econômica. Segundo os autores, a pandemia levou à queda de 18% da

atividade industrial para o estado médio em termos de mortalidade e há

também indicações de que o efeito seria persistente, como expresso em

menor atividade nas áreas mais afetadas até 1923.

As estimativas

apontam que o aumento equivalente a um desvio-padrão da mortalidade em

1918 implica 8% de queda do emprego industrial e 6% de redução do

produto.

Como os dados são estaduais, ou seja, menos sensíveis à

demanda local (apenas parte da produção é consumida no estado de

origem), o canal mais relevante para explicar a retração da atividade

parece estar ligado mesmo à oferta, isto é, disponibilidade de

mão-de-obra, principalmente.

A outra conclusão diz respeito aos

efeitos das NPIs, seja em termos da rapidez de sua adoção, seja em

termos de sua duração, sobre a atividade.

De acordo com as

estimativas de CLV, a adoção mais célere de medidas de distanciamento

social se traduz em elevação da atividade em seguida à pandemia: o

aumento de um desvio-padrão na velocidade de adoção de NPIs leva a um

aumento da produção próximo a 5%, enquanto o aumento também de um

desvio-padrão em termos da duração das NPIs eleva o produto cerca de 7%

no período pós-pandemia.

Posto de outra forma, não parece haver de

fato uma troca entre a controle da epidemia e atividade. Caso a

mortalidade se eleve por falta de políticas restritivas ao contato

social, a atividade se contrairá por força da mortalidade em si, mesmo

na ausência de tais medidas.

Afora isso, os efeitos de longo prazo

da mortalidade também são elevados; nesse sentido, reduzi-la em seus

momentos iniciais parece contribuir para a recuperação mais vigorosa à

frente.

Isso dito, há, é claro, limitações: a Covid-19 não é igual

à Gripe Espanhola (esta última afetava mais fortemente gerações mais

novas, por exemplo) e as condições dos EUA no início de século XX não

são exatamente as vividas pelo Brasil um século depois (se bem que

nossas condições sanitárias estejam mais próximas daquela era do que

seria ideal), para citar apenas duas das complicações.

Todavia, à

luz das dificuldades de acharmos paralelos em termos de crises de saúde

pública, o estudo certamente nos oferece uma visão bem mais informada do

que o “achismo” que parece orientar a alta cúpula do governo, a começar

pelo presidente da República.

Parafraseando mais uma vez Winston Churchill, nos é dada a escolha entre a pandemia e a recessão; se escolhermos a pandemia, teremos também a recessão.

Fonte: Infomoney

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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