Pastore, a economia com rigor

Samuel Pessôa

Celso Pastore testou as fragilidades das teses estruturalistas sobre alimentos e inflação

Na quinta-feira (2), houve o lançamento do volume

“A Economia com Rigor”, organizado por Ilan Goldfajn e Fernando Dantas, em homenagem

aos 80 anos de Affonso Celso Pastore. Com Marcos Lisboa, assino o segundo capítulo.

Pastore pertenceu à segunda geração do departamento

de economia da FEA-USP. A característica da pesquisa no departamento, entre

meados dos anos 1950 e dos 1970, era o emprego da melhor técnica disponível

para testar empiricamente teses sobre a economia brasileira.

Havia o entendimento de que a linha de demarcação entre ciência e metafísica era a capacidade de, com a evidência empírica, poder testar as teorias.

Economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, durante entrevista à Folha, em 2017 – Zanone Fraissat – 16.jan.17/Folhapress

O grande pano de fundo para muitas das pesquisas do

departamento eram as teses estruturalistas do pensamento cepalino.

Em sua tese de doutorado, Pastore testou a teoria

estruturalista de que a oferta de alimentos no Brasil não se elevava quando os preços subiam.

O argumento estruturalista alegava que a tecnologia

rudimentar e o comportamento baseado na tradição causavam a baixa resposta aos

preços da oferta de alimentos.

A consequência era a deficiência crônica de bens

agrícolas, o que explicava a carestia e a pressão inflacionária permanente.

reforma agrária seria essencial para retirar essa trava do nosso desenvolvimento.

Em contraste, a visão convencional alegava que a

carência de produção agrícola para o mercado doméstico resultava de uma série de

políticas que estimulavam a industrialização e oneravam a agricultura, além de

incentivar um processo precoce de urbanização. Este estimulava a demanda por

bens agrícolas e restringia a oferta.

Em seu doutorado, Pastore mostrou, com base na

análise rigorosa dos dados, que a tese estruturalista estava errada. A resposta

aos preços da agricultura brasileira era forte.

Não havia motivos de eficiência econômica para

justificar uma política ampla de reforma agrária, apesar de esta sempre poder

ser defendida por motivos de equidade.

Uma segunda tese estruturalista (de certa forma

ligada à primeira) de que Pastore tratou foi sobre a inflação,

fenômeno tão disseminado na América Latina.

A tese estruturalista estabelecia que a inflação

resultava essencialmente da estrutura da economia. Que os inúmeros gargalos,

entre os quais a baixa sensibilidade da oferta de bens agrícolas aos preços,

explicavam o fenômeno inflacionário. Que a oferta de moeda tinha papel absolutamente

secundário, se é que tinha algum papel, no fenômeno.

Em sua tese de livre docência, a partir de um

trabalho à época de chinês, Pastore refez a série de todos os condicionantes da

oferta de moeda e mostrou que, a partir do governo Castelo Branco, houve

mudança profunda nos fatores condicionantes da expansão monetária. Esta deixa

de financiar o déficit público.

Documenta também as grandes defasagens entre a

expansão monetária e o processo inflacionário.

A inflação hoje está domada na América Latina com

as exceções de praxe —Argentina e Venezuela—, expondo a fragilidade da tese

estruturalista. Se a estrutura produtiva e de propriedade fundiária causassem a

inflação, ela deveria ainda ser difundida no continente.

Hoje a escola estruturalista minimiza o papel do

desequilíbrio fiscal no processo inflacionário —para ela, o gasto público

estimula a expansão do PIB (Produto Interno Bruto)— e continua a considerar que

o crescimento depende prioritariamente da especialização produtiva.

Adicionalmente, minimiza o papel da educação básica

no desenvolvimento econômico. Temas de debates para as próximas décadas.

O evento de lançamento encontra-se em bit.ly/2AqDk8i.

Fonte: Folha de SP

As opiniões aqui expressas são do autor e não

refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

ESCRITO POR

Samuel Pessôa

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