Pedro Passos, da Natura, espera ver terceira via "com cara e coração"

CDPP

Valor (publicado em 03/12/2021)

Sócio da Natura, para quem empresários precisam se

posicionar e pensar o país, Pedro Passos torce pelo fortalecimento da terceira

Foi em uma pelada que Pedro Passos começou a dar seus primeiros chutes certeiros. Entre um passe e outro, conheceu Guilherme Leal, que o chamou para ser executivo da antiga Ferrovia Paulista S.A. (Fepasa) e, em 1983, o convidou para ingressar na Natura, companhia de beleza que adotou a biodiversidade brasileira como causa. “Na vida, tudo é um pouco de sorte. Conheci meu sócio aos 26 anos jogando bola.” A parceria que começou a ser formada dentro da área extrapolou fora de campo.

Trabalharam juntos na ferrovia paulista, mas não por muito

tempo. “O então [governador de São Paulo] Paulo Maluf precisava de novas

vagas”, diz. E pegou. Para a sorte deles.

“Eu sou um engenheiro que virou empresário”, conta Passos,

70 anos, ao definir sua trajetória profissional. Formado pela Escola

Politécnica da Universidade de São Paulo, com extensão em administração de

empresas pela Fundação Getulio Vargas, ele lembra que a possibilidade de

ingressar em uma empresa que já pensava em inovação o atraiu bastante, assim

como a oportunidade de virar sócio. Ele chegou à Natura para trabalhar na L’Arc

en Ciel, divisão de cosméticos e perfumes do grupo, e virou acionista dois anos

depois, em 1985. Antes, teve curta passagem pela Filtrona, que pertencia à

British American Tobacco (BAT).

Quase 40 anos depois, o trio de empresários Luiz Seabra,

fundador da Natura e “o filósofo da turma”, Guilherme Leal, “o ativista”, e

Passos, “o gestor”, colocaram a companhia brasileira de beleza na rota

internacional, com as marcas Natura, Aesop, The Body Shop e Avon.

Para este “À Mesa com o Valor”, o empresário preferiu

almoçar em seu escritório, na rua Amauri, Itaim Bibi, sede de sua family

office, a Anima Investimentos. Embora goste do Parigi, restaurante que fica ao

lado de seu escritório e é a vitrine da elite paulista e da Faria Lima, Passos preferiu

conceder a entrevista em um lugar mais reservado.

No nono andar do edifício Metropolitan Office, a luz natural

vem de janelas grandes de uma nublada São Paulo já caótica às 12h30, horário

marcado para o almoço, com trânsito e chuva. O piso de madeira de demolição e

peroba rosa dá um contraste discreto com a parede cor fria, com a iluminação

indireta das paredes do hall de entrada. Passos entra na sala de reunião

reservada para o almoço, mezzo preparado pelo copeiro Gerson, com entradas e

salada, mezzo encomendado no Parigi, linguado ao molho de laranja com risoto de

cogumelos cèpes.

A política logo toma conta do ambiente. “A gente tem muito a

lamentar, mas acredito que agentes da sociedade que antes ficavam afastados das

discussões de país estão se movimentando e colocando na pauta assuntos

econômicos, políticos e de meio ambiente. Tem muita efervescência bacana.”

Passos foi um dos primeiros empresários a se posicionar a

favor da terceira via e com Horácio Lafer Piva, acionista da Klabin, e Pedro

Wongtschowski, da holding Ultrapar, participa de grupos de reuniões com seus

pares para discutir o país. Ele não arrisca dar um palpite sobre quem será o

representante de centro-direita ou centro-esquerda com peso para concorrer com

o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva

às eleições de outubro de 2022.

Com a definição das prévias do PSDB no fim de semana

passado, que escolheu o governador de São Paulo, João Doria, candidato à

Presidência pelo partido em 2022, o empresário diz acreditar que a definição de

um nome viável de terceira via para as urnas começará a se desenhar nos

próximos meses.

Agentes da sociedade que antes se afastavam das

discussões de país estão colocando na pauta assuntos econômicos, políticos e

ambientais

“Gostaria que tivesse uma formulação de terceira via com

cara e coração. Hoje está um discurso mais etéreo.” Nos últimos meses, Passos,

com Piva, Wongtschowski e outros empresários que se uniram em grupos de

WhatsApp, têm conversado com políticos e potenciais candidatos à Presidência

para entender os cenários daqui para frente. “Eu tenho falado com todo mundo

que eu posso.”

Eles já se aconselharam com o líder do PSD, Gilberto Kassab,

e conversaram com os tucanos João Doria e o governador do Rio Grande do Sul,

Eduardo Leite (PSDB-RS), Rodrigo Pacheco (PSD), presidente do Senado, a

senadora Simone Tebet (MDB), além do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique

Mandetta (DEM, que fará a fusão com o PSL para criar o União Brasil).

Recentemente ouviram Sergio Moro, pré-candidato ao Planalto pelo Podemos. “Até

agora está difícil saber quem é a aposta.”

Segundo Passos, Moro tem um recall eleitoral devido ao seu

histórico como juiz da Operação Lava Jato e ex-ministro da Justiça de Jair

Bolsonaro. Do pouco que já ouviu, ficou bem impressionado com a escolha de Moro

pelo economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, como seu

conselheiro. E Pastore, de acordo com ele, tem transmitido sensibilidade sobre

as reformas econômicas que precisam ser feitas e também sobre combate à

corrupção e desigualdade social. “Agora tenho dificuldade para entender se ele

[Moro] vai encantar a sociedade mais ampla. Ele é mais técnico.”

Para o empresário, o presidente Jair Bolsonaro tem perdido

força, mas reconhece que a máquina do Estado tem um peso enorme em campanhas

eleitorais. E, para ele, o PT ainda precisa apresentar uma proposta de país.

“Até agora não tem nada de concreto. E os discursos que existem são ruins, na

linha de congelamento do preço da gasolina e contra privatização.”

A crise do PSDB foi vista com muita preocupação pelo

empresariado. “Eles têm um ativo histórico muito bom e competência, sobretudo

na área econômica. Mas, como partido, desandou muito. Votei neles em muitas

eleições, mas há fragilidade. Doria tem mostrado capacidade de trabalho muito

grande. Por outro lado, tem rejeição muito alta, apesar da Coronavac. Ele vai

ter de ser claro em propostas e trazer apoios. Mas esse é o desafios de todos

os candidatos.”

O discurso de Ciro Gomes (PDT) também não agrada ao

acionista da Natura. “Ele é brilhante do ponto de vista de oratória.

Contundente. Mas lastimo que Ciro pense no modelo econômico como algo do século

passado, com política industrial de intervenção do Estado. Sob o ponto de vista

social, é muito bom, mas concorre no mesmo caminho de Lula.”

A gente precisa construir uma visão de país e definir

onde quer chegar. A pandemia colocou às claras a tremenda desigualdade que é

esse país

Pergunto como ele vê a possível aliança entre o

ex-presidente Lula e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, que está

prestes a deixar o PSDB e concorrer novamente ao governo do Estado por outra

chapa. “Não sei se vai se confirmar, mas acho que, do ponto de vista do PSDB, é

uma perda porque o Alckmin é uma das lideranças do partido.”

Contudo, ele vê esse movimento, se concretizado, como um

passo inteligente de Lula para o centro, uma vez que Alckmin não é um radical.

O sócio da companhia de beleza acredita que as pessoas

voltaram a respeitar a boa política e que a tendência de candidatos “outsiders”

(de fora da política) deve ficar para trás. “Não acho importante empresário estar

presente em chapa de candidatos.”

Para ele, os empresários têm de se posicionar e pensar o

país. E é isso que ele tem feito em parceria com Piva e Wongstchowski. E por

que eles? “Eles são divertidos e muito inteligentes. São provocativos de

ideias.”

Diante do cenário de incertezas na economia e política, o

trio decidiu que precisava falar publicamente por meio de artigos na grande

imprensa e entrevistas, embora reconheça que esse tipo de exposição tem um

custo.

Em março, um grupo de empresários, banqueiros, economistas e

sociedade civil divulgou carta aberta pedindo medidas mais eficazes do governo

federal para o combate à covid-19. O setor privado voltou novamente a se

manifestar publicamente em agosto, desta vez para preservar as instituições

democráticas do país. À época, Bolsonaro estava fazendo fortes críticas ao

sistema de votação eletrônica no Brasil e ao Poder Judiciário.

“A gente precisa construir uma visão de país e definir onde

quer chegar. Quando se cria consenso, como o combate à inflação e a reforma do

Estado nos anos 1990, o Brasil se inseriu na agenda internacional. O país foi

respeitado nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula. Precisamos

resgatar isso”, diz.

Com outros empresários, artistas, organizações não

governamentais, ele também faz parte do movimento Imagine Brasil, liderado pela

Fundação Dom Cabral.

Para Passos, que presidiu o Instituto de Estudos para o

Desenvolvimento Industrial (Iedi) de 2009 a 2015, as discussões vão além da

agenda liberal econômica. “A pandemia colocou às claras a tremenda desigualdade

que é este país.”

É preciso coesão do setor privado para debater educação,

saúde e desigualdade social. “E tem de ouvir toda a sociedade, não somente os

empresários”, diz, lamentando que uma parte do setor privado ainda saia em

defesa de políticas setoriais. Ele se refere à prorrogação da desoneração de

empresas de 17 setores da indústria. “Já vimos no que deu quando o Banco

Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social [BNDES] decidiu beneficiar

algumas empresas e setores.”

Há muitos projetos na área econômica, segurança pública,

educação e impacto social já prontos, segundo ele. E a sociedade está se

envolvendo nas discussões. “Se houver uma liderança capaz de chamar esse povo

todo para colocar esses planos na mesa, eu acho que a gente pode sair voando.

Até pela mudança de perspectiva. Temos de trabalhar juntos.”

Na área de educação, Passos é a favor do resgate do ensino

técnico para a profissionalização de estudantes. Uma das possibilidades é usar

o Sistema S, que reúne entidades corporativas voltadas para o treinamento

profissional, assistência social e consultoria, para capacitar jovens. A ideia seria

oferecer a atual estrutura das redes públicas para aprimorar as pessoas em

habilidades profissionais novas, com apoio do Serviço Nacional de Aprendizagem

Industrial (Senai).

Quando nos demos conta, já passava das 13h30, um pouco mais

de uma hora de entrevista. Chuva fina caía lá fora, dando a impressão de que a

primavera ainda não havia chegado em pleno mês de novembro.

Nascido em São Paulo e criado no bairro do Itaim, Passos

estudou o ensino fundamental e médio no colégio Dante Alighieri. Pai de

Guilherme, 42 anos, e Patrícia, 41 anos, é casado com Márcia há 45 anos e avô

de Julia, Allegra, Rafael e Maria.

Pouco confortável em falar de sua vida pessoal, ele conta

que Guilherme também se formou engenheiro de produção como ele, com MBA na

London Business School, e é o gestor da family office da família. Já Patrícia,

formada em administração, dá aulas de francês.

Por um acordo fechado com seus sócios, os herdeiros dos

acionistas não trabalham na Natura. O dinheiro de sua família está

diversificado em alguns negócios, como renda variável e em private equity

(participações em empresas). A Anima, por exemplo, tem ações na rede de

farmácia Raia Drogasil e outros negócios dentro e fora do país. A família de

Passos também é acionista da Bresco, empresa do mercado imobiliário, em

parceria com os sócios Luiz Seabra e Guilherme Leal.

Com a pandemia, tem evitado programas culturais fora, preferindo ficar em casa a ter de atravessar a cidade da Chácara Flora, onde mora, até a avenida Paulista para ir ao cinema. “Tenho me dedicado à leitura”.

Torcedor do Santos e fanático por boa música popular

brasileira e jazz, Passos diz que também tem se dedicado à inovação e ao

empreendedorismo. Ele é conselheiro da Endeavor desde 2005, que chegou ao

Brasil pelas mãos dos empresários Jorge Paulo Lemann e Beto Sicupira. Também

faz parte do conselho da Fundação Dom Cabral há 11 anos, da SOS Mata Atlântica

desde 2013, assim como da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

(Fapesp) e do A.C. Camargo Cancer Center.

Diante da extensa lista de conselhos de que participa, dos

compromissos com a Natura e discussões sobre país, pergunto a que horas ele

dorme. “Às vezes, não durmo…”, deixando nas reticências a dúvida se sofre de insônia

ou se a agenda é muito atribulada e complementa: “Minha família ajuda a bancar

boa parte das minhas loucuras”, referindo-se ao Instituto Semeia, do qual é

fundador e participa do conselho desde 2011.

O instituto parte do princípio de que o Brasil tem parques

naturais que podem ser visitados, porém eles são muito mal aproveitados.

“Decidimos juntar o setor público com operadores do setor privado e fazer

concessões para explorar esses parques, como nos Estados Unidos, Nova Zelândia

e Austrália. Temos a concessão de 60 parques. Comemoramos este ano os dez anos

do Semeia na Chapada dos Guimarães. Já vemos essa transformação andando e

poderemos atrair turistas daqui e de fora para essas belezas naturais.”

Se a agenda é cheia, em parte deve-se à maior flexibilidade

que tem na Natura, do qual é copresidente do conselho de administração. Fora do

dia a dia da gigante brasileira – a companhia faturou R$ 36,9 bilhões no ano

passado e tem 35 mil trabalhadores.

Na última década, a empresa intensificou seu plano de

internacionalização. Primeiro com a compra da australiana Aesop, em 2012. Cinco

anos depois, o grupo adquiriu da francesa L’Oréal a marca inglesa The Body

Shop, que pertencia à empresária ativista Anita Roddick. Há dois anos, a Natura

anunciou a aquisição da Avon, processo que foi concluído no ano passado, pouco

antes da pandemia.

“Aprendemos a tocar a empresa via Zoom, Teams e não tivemos

a oportunidade de conhecer todo o time ainda”, explica.

As ações da Natura sofreram uma forte pancada em 12 de

novembro, fechando em queda de 17,5%, após a divulgação de resultados que vieram

abaixo do esperado pelo mercado. Em novembro, os papéis encerraram com baixa de

31,4%.

O humor do mercado azedou para as empresas de consumo e

beleza, afetadas pela crise e pela queda de renda da população. No balanço do

terceiro trimestre, a companhia reportou queda de 28,5% no lucro líquido, para

R$ 272,9 milhões. A receita caiu 4,2%, para R$ 9,5 bilhões. Os resultados

ofuscaram a informação de que a companhia começou a realizar estudos para a

possibilidade de migrar sua listagem primária para a bolsa de Nova York, onde

já negocia recibos de ações.

Para Passos, esses são os desafios de curto prazo, mas há

outros pelo caminho, como a integração dos negócios com a recente aquisição. “A

Avon tem um trabalho de marca a ser feito. Uma outra aposta que a gente já

começou na Natura é o canal de venda direta com tecnologia, o que permitirá ao

consumidor ter experiência melhor, com toque humano. A gente fala em

algoritmos, mas ninguém gosta de ser tratado como um.”

Para ele, as quatro marcas se complementam e todas elas

defendem uma causa. “A Natura tem o equilíbrio entre o social e ambiental. A

Aesop utiliza ingredientes naturais e tem um posicionamento mais sofisticado,

mas é simples, sem excessos. A The Body Shop tem a pegada ambiental, e a Avon,

compromisso com as mulheres. Quando a Avon lançou a venda direta, a mulher não

votava nos EUA. Foi o núcleo da libertação feminina.”

Na semana que precedeu a COP26, a Natura foi homenageada em

Fontainebleau pela Insead, respeitada escola de negócios da França. “Ficamos

muito felizes com o reconhecimento. Fizemos um curso de quatro semanas na

Insead em 1992, pela Dom Cabral. Foi um mergulho acadêmico muito importante.

Vimos o impeachment do [Fernando] Collor de lá. E o mundo vivia àquela época a

entrada da globalização. Para nós, era muito importante o que estava

acontecendo no mundo.”

Da homenagem na França, a Natura foi para Glasgow participar das discussões globais sobre meio ambiente. “Ainda não tenho uma avaliação completa sobre a COP26.” Para entender melhor o assunto, Passos diz que vai pedir a “ajuda aos universitários” – no caso, Guilherme Leal, o sócio ativista. E por que ele também não foi para a Irlanda? “Alguém tinha de tomar conta da lojinha.”

Link da publicação: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2021/12/03/pedro-passos-da-natura-espera-ver-terceira-via-com-cara-e-coracao.ghtml

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