Perspectivas para os jovens

Naercio Menezes Filho

Valor (publicado em 19/11/2021)

Número de matrículas no ensino médio e de inscritos no Enem estão em queda

A situação dos jovens brasileiros continua bastante

desigual. Enquanto uma parcela dos que cresceram em famílias menos favorecidas

agora consegue ingressar no ensino superior, , graças a uma série de políticas

e programas implementados nas últimas décadas, outra parte também completou o

ensino médio, mas agora está sem perspectivas. E essa parcela  parece estar aumentando. Como podemos fazer

com que mais jovens ingressem no ensino superior?

Importante começar lembrando que para termos crescimento de

produtividade com menos desigualdade é necessário que a maioria dos nossos

jovens tenha condições de ingressar e progredir no mercado de trabalho formal

ou empreender, criando negócios em áreas como tecnologia, artes e esportes, o

que será mais comum daqui pra frente. As pesquisas acadêmicas mostram

claramente que a inovação é o grande motor do crescimento da produtividade, e

que para inovar é preciso ter pessoas capacitadas, persistentes e resilientes.

Assim, nosso futuro depende de capacitar os jovens hoje.

Temos que persistir com as políticas para o ensino

superior que estão dando certo, como o Sisu, Prouni e as cotas

Entre os jovens de 18 a 24 anos de idade, que somam cerca de

20 milhões de pessoas, 4 milhões (20%) não concluíram o ensino médio e já

saíram da escola e 2 milhões ainda estão tentando terminar esse ciclo. Dentre

os 14 milhões que terminaram o ensino médio, 5 milhões estão ursando uma

faculdade, ao passo que 9 milhões (45% do total de jovens) não está estudando

mais. Se lembrarmos que em 1970 somente 2% dos adultos tinham ensino superior e

apenas 5% tinham ensino médio completo, o avanço educacional que ocorreu desde

o início desse século impressiona. Em breve, a grande maioria dos nossos

adultos terá pelo menos o ensino médio completo.

Esse avanço decorreu de várias reformas no ensino básico e

superior, como os programas de progressão continuada nas escolas, que diminuíram

as repetências excessivas entre os mais pobres; o Bolsa Família, que condiciona

as transferências à frequência escolar das crianças e jovens; as mudanças no

financiamento educacional trazidas pelo Fundef e Fundeb; o ProUni, que dá

bolsas para alunos com bom desempenho frequentarem a faculdade; o Sisu, que

simplificou o acesso às universidades e as cotas, que aumentaram a diversidade

e valorizaram mais as habilidades socioemocionais dos candidatos ao invés da

renda familiar necessária para pagar cursinhos pré-vestibulares.

Mas, quem não ingressou no ensino superior está tendo

problemas. Metade dos jovens que terminou o ensino médio e não está mais

estudando também não está trabalhando. Ou seja, temos um contingente de mais de

4 milhões e meio de jovens “nem-nem”, dos quais 60% são mulheres. Assim, uma

parte significativa dos nossos jovens não têm o que fazer com o diploma do

ensino médio.

Antigamente, os poucos que concluíam o ensino médio

arrumavam emprego com facilidade na indústria ou no setor público. O grande aumento

no número de jovens com esse nível que ocorreu nas últimas décadas, porém,

conjugada com o declínio da indústria, fez com que esses jovens fossem

empurrados para ocupações menos qualificadas no comércio e serviços.

Além disso, a pandemia provocou uma forte queda na demanda

por essas ocupações, inicialmente pelo medo do contágio e agora porque uma

parte das pessoas mais ricas parece ter gostado de trabalhar à distância, o que

está diminuindo a necessidade de vendedores, garçons e seguranças.

A falta de perspectivas sobre o que fazer com o diploma está

provocando uma forte desaceleração no avanço educacional. As matrículas no

ensino médio já pararam de crescer há algum tempo. Além disso, a figura abaixo

acompanha o número de alunos de 17/18 anos que fizeram o Enem. A participação

no Enem é uma boa medida do engajamento e garra dos jovens concluintes, pois é

o exame que dá acesso às universidades públicas através do Sisu e às faculdades

privadas com bolsas através do Prouni.

Podemos ver que o número de participantes aumentou até 2016,

mas desde então começou a diminuir, passando de 1 milhão e duzentos mil alunos

em 2016 para 1 milhão em 2019. Dados preliminares (número total de inscritos)

indicam que a pandemia acentuou essa queda em 2020 e 2021. Esse declínio é

muito preocupante, especialmente porque os maiores salários estão nos empregos

com ensino superior, que atualmente pagam em média R$ 4.500, contra apenas R$

1.700 entre os ocupados com ensino médio.

Em suma, teremos que implementar políticas públicas para aumentar a participação no Enem e o ingresso no ensino superior. Temos que começar com os programas para a primeira-infância, período em que são desenvolvidas as habilidades cognitivas e socioemocionais dos futuros jovens. Além disso, precisamos urgentemente melhorar a qualidade do ensino médio, mudando a gestão e implementando o novo ensino médio, que permitirá aos jovens escolherem caminhos distintos ainda na escola. E temos que persistir com as políticas para o ensino superior que estão dando certo, como o Sisu, Prouni e as cotas.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/perspectivas-para-os-jovens.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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